Na soleira, um homem alto e imponentemente belo a observava com um sorriso gentil e um olhar que parecia penetrar suas defesas. Ele usava uma jaqueta de couro marrom que moldava seus ombros largos e uma camisa escura que contrastava com sua pele pálida e impecável. Os cabelos negros, penteados para trás com uma elegância descuidada, davam-lhe um ar irresistível de sofisticação.
Mas foram os olhos que mais a impactaram. Após retirar os óculos de sol, ele revelou íris de um azul tão vívido que pareciam conter o próprio céu.
Claire sentiu o rosto corar. Um calor inesperado subiu por seu pescoço, enquanto ela tentava se recompor.
— Boa tarde. Posso ajudar? — Sua voz saiu mais baixa do que ela pretendia.
O homem inclinou a cabeça de maneira quase reverente, seu sorriso ampliando-se apenas o suficiente para revelar uma leve covinha na bochecha direita.
— Boa tarde. Meu nome é Brunno Warrant. Sou o novo detetive da cidade. — Sua voz era grave, mas incrivelmente suave, carregada de um charme quase hipnótico. Ele ergueu um distintivo de prata polido, que brilhou à luz do entardecer. — Estou investigando o ataque a Alexander Montgomery.
As palavras pareceram ecoar na mente de Claire, que imediatamente sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Ela piscou, confusa, incapaz de esconder o susto em seu olhar.
— Alexander? Ataque? O que aconteceu? Ele está bem? — A voz dela tornou-se ansiosa, carregada de preocupação.
Brunno levantou uma das mãos, um gesto de calma.
— Sim, ele está bem. Está em recuperação. — Ele hesitou por um momento, os olhos estudando o rosto de Claire antes de continuar. — A família decidiu manter o incidente fora da mídia. Por isso ninguém soube. Estamos conduzindo a investigação de forma discreta, dado que Alexander é filho de um dos membros fundadores da cidade.
Claire levou uma das mãos ao peito, tentando controlar a respiração. O ataque a Alexander era algo que ela jamais esperava ouvir, ainda mais da boca de um estranho.
— Eu... não fazia ideia. Alexander é meu melhor amigo. Como ele está agora?
Brunno inclinou levemente a cabeça, com uma expressão de genuína compaixão.
— Melhor do que se poderia esperar, dado o que aconteceu. Mas estou aqui para tentar entender mais sobre a figura de Alexander. Se puder me ajudar com algumas informações...
Claire hesitou por um momento, mas então deu um passo para o lado, abrindo espaço para que ele entrasse. No entanto, não pronunciou uma palavra de convite, e sua expressão era uma mistura de confusão e desconforto.
Brunno parou no limiar da porta. Seus olhos se voltaram para a soleira com uma intensidade que Claire não conseguiu ignorar. Ele ergueu o olhar para ela novamente, o sorriso agora ligeiramente constrangido.
— Agradeço, mas não vou demorar. Prefiro não incomodar sua tarde mais do que o necessário. Posso fazer as perguntas aqui mesmo, se não se importar.
Claire franziu o cenho, mas acenou em concordância, cruzando os braços enquanto tentava recuperar a compostura.
— Claro. O que quer saber?
Brunno ajustou a postura, guardando os óculos de sol no bolso da jaqueta. Seu tom manteve-se cordial, mas havia algo em seus olhos que parecia observar muito mais do que ela estava disposta a revelar.
— Você notou algo estranho no comportamento de Alexander nos últimos dias? Algo que pudesse indicar que ele estava com medo ou desconfiado de alguém?
Claire balançou a cabeça, ainda tentando processar a presença esmagadora do homem à sua frente.
— Não... quero dizer, não que eu tenha percebido. Ele estava normal. Bem, mais ou menos. Ele mencionou algo sobre uma festa no Bronze uns dias atrás, mas não entrou em detalhes e eu acabei não podendo ir com ele. Por que está perguntando isso?
Brunno inclinou levemente a cabeça, como se estivesse calculando cuidadosamente suas palavras.
— Estamos tentando estabelecer uma linha do tempo precisa. Qualquer detalhe, por menor que pareça, pode ser útil. Alexander mencionou com quem estaria ou quando voltaria para casa?
Claire abriu a boca para responder, mas foi interrompida por uma voz firme e conhecida que ecoou pelo corredor:
— Claire, quem está na porta?
Wanda surgiu ao fundo, com os olhos atentos. Embora mais velha e aparentemente frágil, havia algo em sua postura que parecia dominadora, como se ela tivesse total controle da situação.
Brunno virou-se para encará-la, um brilho momentâneo de surpresa passando por seus olhos antes de ele recuperar o sorriso cordial.
— Sou Brunno Warrant, detetive encarregado do caso Montgomery. Estou apenas fazendo algumas perguntas.
Os olhos de Wanda estreitaram-se, e um silêncio carregado pairou no ar.
Claire não conseguiu evitar sentir que algo invisível havia acabado de acontecer entre sua avó e o detetive.
A tensão pairava no ar como uma tempestade prestes a se formar. A brisa que serpenteava pela entrada da mansão Avery carregava um perfume sutil de jasmim e musgo, mas parecia incapaz de dissipar o peso do momento. Claire ficou estática por um instante, tentando interpretar o que acabara de acontecer entre sua avó e o detetive.
Wanda Avery, de postura ereta apesar dos anos visíveis em seu rosto, deu um passo à frente, posicionando-se parcialmente entre Claire e Brunno. Seus olhos claros, outrora calorosos, agora eram frios e calculistas, como se tentassem penetrar as intenções do homem à sua frente.
— Claire, para o quarto. Agora. — Sua voz era um comando, não um pedido.
— Mas, vovó... — Claire começou, confusa, olhando de Brunno para Wanda.
— Agora! — repetiu Wanda, cortando-a com um tom que não admitia questionamentos.
Claire hesitou, mordendo o lábio inferior. Seu olhar pousou novamente em Brunno, que permanecia sereno, como se estivesse assistindo a tudo com um misto de curiosidade e diversão contida. Ele notou a expressão relutante de Claire e lhe ofereceu outro sorriso, um gesto cordial que parecia dizer que estava tudo sob controle.
— Obrigado pelas respostas, senhorita Avery. Foram muito úteis.
Claire piscou, sentindo uma mistura de desconforto e algo que não conseguia identificar, talvez fosse a intensidade enigmática do detetive, ou o fato de que sua avó parecia reconhecer algo que ela não via. Sem mais protestos, ela acenou com a cabeça e começou a subir as escadas, lançando um último olhar para trás antes de desaparecer no corredor superior.
Assim que Claire saiu de vista, o sorriso de Brunno desfez-se, substituído por uma expressão neutra, mas os olhos... aqueles olhos penetrantes e azul-gelo mantinham-se atentos em Wanda.
— Então, estamos sozinhos... velha. — Ele quebrou o silêncio, cruzando as mãos atrás das costas em um gesto de aparente descontração.
Wanda não respondeu de imediato. Ela permaneceu imóvel, os dedos ossudos segurando firmemente a moldura da porta, como se buscasse apoio físico para o turbilhão mental que claramente a acometia. Quando finalmente falou, sua voz era mais baixa, mas cada palavra era carregada de uma intensidade que fazia o ambiente parecer encolher ao seu redor.
— Eu sei o que você é.

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