Kai se espreguiçou, sentindo os ossos estalarem tanto quanto o barulho da gosma seca em sua roupa. Ele ignorou o drama do Sistema e focou no que importava.
— Tá, tá, já entendi que você é especial — disse Kai, limpando o canto do olho. — Mas vamos ao que interessa. Mostra aí meu status atualizado. Quero ver o tamanho do prejuízo.
Uma tela flutuante, muito mais organizada que as anteriores, surgiu diante dele:
STATUS DO JOGADOR
Nome: Kai
Idade: 16 anos
Nível Atual: 17
Atributos:
- Força: 13
- Agilidade: 13
- Sentidos: 13
- Vida: 13
- Inteligência: 13
- Mana: 200/200
Habilidade Única: * Imagina! (Nível 0)
Inventário: * 1x [Espada de Ferro Enferrujada] (Durabilidade: 30%)
Kai encarou a tela por um longo tempo, em silêncio.
— Nível 17... e meus atributos são todos 13? — Ele coçou a cabeça. — Eu sou o mestre da mediocridade. E essa espada aqui não corta nem manteiga mais.
Ele olhou para a "Habilidade Única: Imagina!" e viu aquele zero bem grande ao lado.
— Por que minha habilidade tá no nível zero? — perguntou, já esperando o deboche do Sistema.
SISTEMA:
Porque você é um iniciante, óbvio. Você tem o poder de criar qualquer coisa, mas sua mente é limitada e sua mana é pouca. No nível zero, você provavelmente só consegue imaginar coisas simples ou pequenas. Se tentar imaginar um canhão laser agora, seu cérebro vai fritar e sua mana vai evaporar antes de você dizer "opa".
Kai deu um sorriso de canto, ignorando o insulto à sua inteligência. Ele olhou para a mão vazia e depois para a espada caindo aos pedaços no inventário.
— Coisas simples, é?
Ele fechou os olhos e tentou visualizar algo. Não uma arma complexa, mas algo que ele precisava desesperadamente agora. Ele concentrou uma pequena parcela daquela mana de 200 pontos na palma da mão.
— Se eu posso imaginar... então...
Kai fechou os olhos, ignorando os protestos do Sistema. Ele visualizou cada fibra, a textura áspera e a resistência necessária. Na palma de sua mão, a mana começou a se condensar, brilhando em um tom azulado até que, com um leve estalo, uma corda rústica de cerca de dez metros apareceu, caindo pesadamente no chão.
> SISTEMA:
> Uma corda? Com o poder de um deus nas mãos, sua primeira criação é... um varal? Parabéns, a humanidade está salva.
>
— Cala a boca — retrucou Kai, enrolando a corda no braço. — Eu tô no nível zero, lembra? E outra, essa arena tá suspensa em cima de um desfiladeiro de pedras. Eu não vou pular daqui e virar patê de slime.
Ele caminhou até a borda da arena, onde as ruínas davam para uma descida íngreme que terminava na orla de uma floresta densa e escura. O cheiro de terra úmida e mato era muito melhor do que o fedor que ele carregava, mas a floresta parecia perigosa.
Kai encontrou um pilar de pedra caído que ainda estava firme. Ele amarrou uma ponta da corda com um nó que aprendeu assistindo vídeos de sobrevivência (que ele nunca achou que usaria na vida real) e jogou a outra ponta no abismo.
> SISTEMA:
> O que você vai fazer exatamente? Você sabe que existem escadas na lateral da arena, certo? É só andar mais duzentos metros para a esquerda.
>
Kai travou por um segundo, olhou para a esquerda e viu as escadas perfeitamente seguras. Ele olhou para a corda, depois para o Sistema.
— O caminho da escada é previsível. Os carniceiros que você mencionou estariam esperando lá — mentiu Kai, com a cara mais lavada do mundo, enquanto começava a descer pela corda. — Eu prefiro o fator surpresa.
> SISTEMA:
> Você só esqueceu que as escadas existiam, não foi?
>
— Shhh! Foco na descida!
Kai começou a descer, os pés batendo contra a parede de pedra da arena. A agilidade 13 ajudava a manter o equilíbrio, mas ele ainda sentia o corpo pesado. Quando faltavam uns três metros para o chão, ele soltou a corda e caiu rolando na grama alta, já na entrada da floresta.
Ele se levantou, limpando a sujeira das calças (o que não adiantou nada por causa da gosma) e encarou a escuridão entre as árvores gigantes.
— Certo, Sistema. Qual o plano agora? Tem algum vilarejo de NPCs onde eu possa comprar uma armadura que não cheire a esgoto ou eu vou ter que lutar contra o Tarz
an dessa floresta?
Kai se levantou, ajeitando a espada enferrujada na cintura, e começou a caminhar em direção às árvores colossais.
— "Tarzan"? — a janela do Sistema brilhou com uma ponta de curiosidade robótica. — Minha base de dados não possui registros desse monstro. É um Chefe de Rank S?
Kai deu uma risadinha, afastando uma folha gigante do caminho.
— Não, seu mané. É de um filme do meu mundo. Uma coisa divertida, sabe? Mas esquece, você não entenderia o conceito de entretenimento.
Ele deu o primeiro passo para dentro da mata fechada. A luz do sol mal conseguia atravessar a copa das árvores, deixando tudo em uma penumbra esverdeada. O chão era traiçoeiro, coberto por uma camada espessa de folhas úmidas e galhos que pareciam garras.
— Tá, o plano é: andar em linha reta até achar sinal de fumaça ou alguém que não tente me comer — murmurou Kai, lutando contra um arbusto espinhoso.
Ele tentou empurrar uma parede de trepadeiras, mas o chão debaixo dos seus pés simplesmente... desapareceu.
— Oh, merd...
Kai escorregou em um lodo escondido pelas folhas e caiu em uma ladeira íngreme que ele não tinha visto. O que se seguiu foi uma cena digna de desenho animado, mas com muito mais dor.
ZÁS! PÁ! CRACK!
Ele saiu rolando como uma bola de boliche desgovernada. Bateu as costas em uma raiz, girou no ar, atravessou um arbusto de espinhos (que rasgou o que restava da sua camiseta) e, para coroar a performance, terminou a descida com um ESTRONDO seco, acertando a testa em cheio em um tronco de carvalho centenário.
Kai ficou lá, estirado no chão, com as pernas para cima e a cara enterrada na terra. Um passarinho local até pousou no tronco, olhou para o garoto e soltou um pio de pena antes de voar.
De repente, a interface do Sistema surgiu, mas não era azul ou dourada. Ela estava piscando em um tom de amarelo vibrante e a moldura da janela parecia... tremer?
— Pfff... HAHAHAHAHA! — O texto apareceu acompanhado de emojis de risada que Kai nem sabia que o sistema tinha. — "TARZAN", É? O REI DA FLORESTA! Que entrada triunfal, Jogador! Nota 2 pela aterrissagem, mas nota 10 pelo entretenimento!
Kai soltou um gemido abafado contra o chão.
— Cala... a... boca...
SISTEMA:
"Imagina!" se tornou "Imagina o mico!". Você quer que eu registre esse momento nos seus feitos lendários? "O Herói que foi derrotado por uma ladeira". HAHAHA!
Kai conseguiu virar de barriga para cima, com um galo enorme começando a crescer na testa e o rosto sujo de terra e gosma de slime. Ele olhou para cima, mas não viu apenas o Sistema o zoando.
Entre as árvores, ele percebeu algo. O barulho da queda tinha sido alto demais. E agora, o silêncio da floresta tinha sido substituído por um som de respiração pesada vindo de trás dos arbustos.
O Sistema parou de rir instantaneamente. A tela ficou vermelha.
AVISO:
Ruído excessivo detectado.
Presença hostil se aproximando.
Nome: [????] — Cor: Laranja.
Kai engoliu em seco, esquecendo a dor na testa.
— Droga, Sistema... por que você não avisou antes de rir?
Kai, ainda tonto da pancada no tronco, sacudiu a cabeça e encarou a janela flutuante que brilhava com urgência.
— Sistema, repete rápido... qual é a escala de desgraça dessas cores mesmo?
INFO DO SISTEMA:
VERDE: Fraco (piada).
AMARELO: Mais forte (cuidado).
LARANJA: Perigo real (prepare-se).
VERMELHO: CORRA (agora!).
ROXO: Prepare o testamento (fim de jogo).
Kai olhou para a silhueta que se movia entre as sombras. O nome flutuando sobre ela brilhava em um laranja vibrante, quase encostando no vermelho.
— Laranja? Laranja é "perigo real"? — Kai não esperou a resposta. Ele guardou a espada enferrujada no inventário com um movimento rápido. — Tô fora!
Ele deu meia-volta e disparou pela mata, ignorando a dor nos músculos. Das sombras, saltou uma criatura magnífica e aterrorizante: uma Pantera Negra Dente de Sabre, com olhos amarelos que fixaram no rastro de cheiro (e de gosma) que Kai deixava para trás.
SISTEMA:
NOME: Pantera Negra Dente de Sabre
NÍVEL: 36
STATUS: Com fome. Muita fome.
— TRINTA E SEIS?! — gritou Kai, saltando sobre uma raiz. — EU SOU NÍVEL 17, SEU SISTEMA DE MERDA! ISSO NÃO É UMA LUTA, É UM BUFFET LIVRE E EU SOU O PRATO PRINCIPAL!
Kai corria como se sua vida dependesse disso — porque dependia. Enquanto saltava por galhos e desviava de arbustos, ele não parava de gritar:
— DEUS ARROMBADO! FLORESTA MALDITA! SISTEMA INÚTIL QUE SÓ SABE RIR! POR QUE EU NÃO FIQUEI EM CASA ASSISTINDO ANIME?!
A pantera era rápida, ganhando terreno a cada segundo. O som das garras dela batendo na terra era como um metrônomo da morte. Kai sentia o hálito quente do predador nas suas costas quando, de repente, o som da mata foi abafado por um rugido muito mais alto: água corrente.
Ele atravessou a última linha de árvores e deu de cara com um rio largo, de águas escuras e uma correnteza que parecia querer arrancar as pedras do fundo.
Sem olhar para trás, Kai deu um salto desesperado.
— AAAAAAAH!
Ele caiu na água gelada, sendo imediatamente tragado pela força do rio. Por puro instinto, ele esticou os braços e conseguiu se agarrar a um tronco grosso que descia flutuando em alta velocidade.
Lá do alto da margem, a pantera parou, rosnando de frustração enquanto via seu "almoço" cheiroso ser levado rio abaixo.
SISTEMA:
Parabéns. Você sobreviveu à pantera.
Em compensação, você agora está em um tronco, num rio desconhecido, sem saber nadar direito e ainda fedendo a slime molhado.
Nota 10 pela fuga desesperada.
Kai, abraçado ao tronco como se fosse sua mãe, cuspiu um pouco de água e olhou para a tela.
— Cala... a boca... — ele tossiu, tentando se equilibrar. — Pelo menos... a água... tá limpando o cheiro...
O coração de Kai martelava contra as costelas, um ritmo frenético que acompanhava o som da água batendo nas pedras. Ele olhou para a margem e sentiu um calafrio: a pantera não tinha desistido. Ela corria entre as árvores, saltando troncos caídos com uma agilidade invejável, mantendo os olhos amarelos fixos nele.
— Desgraçada... ela tá esperando eu chegar na margem pra me lanchar — rosnou Kai, apertando o tronco com tanta força que os dedos doíam. — Sistema, dá pra parar de ser um espectador de camarote e ajudar? Se eu pular na água agora, a correnteza me quebra; se eu ficar, a gata ali me come.
SISTEMA:
Você está com problemas, seu mané! O que vai fazer? Minhas opções de "ajuda" no momento são limitadas a: 1. Assistir você virar comida de gato. 2. Assistir você virar náufrago. O que prefere?
— Eu prefiro que você vá para o...
Antes que Kai pudesse terminar o xingamento, um estrondo surdo começou a vibrar no ar. Não era um rugido de animal, era algo muito mais massivo. Ele olhou para a frente e o sangue fugiu do seu rosto. O horizonte do rio simplesmente... sumia.
Uma névoa branca subia de onde a água despencava.
— É UMA CACHOEIRA?! — gritou Kai, com os olhos quase saltando das órbitas. — NÃO, NÃO, NÃO! TUDO MENOS ISSO!
Ele tentou desesperadamente usar os pés para remar, mas era inútil contra a força bruta da natureza. O tronco começou a acelerar, sendo sugado pelo "V" da queda. Kai sentiu a gravidade puxar seu estômago para a garganta.

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