Kai se encolheu um pouco mais no canto da jaula.
— Você... você bateu neles? — Kai perguntou em um sussurro. — Kiro, esses caras derrubaram o Marcus como se ele fosse um boneco de pano. O Marcus é forte pra caramba!
Jack, o ruivo marrento, soltou um estalo com a língua, finalmente quebrando o silêncio. — Ele é um idiota, isso sim — resmungou Jack, sem abrir os olhos. — Tem uma linha tênue entre coragem e burrice, e o Kiro atravessou ela correndo e dando pirueta.
Kiro não pareceu se importar com o comentário. — Ah, qual é, Jack! A gente tem poderes, não tem? Pra que serve um Sistema Dourado se você não pode dar uma lição em uns vilões de quinta categoria?
Kai apenas balançou a cabeça negativamente. Ele sentia falta dos xingamentos do seu próprio Sistema. Pelo menos o "Vagabundo" dele tinha um senso de autopreservação. Estar preso com um herói impulsivo e um ruivo ranzinza parecia uma receita para o desastre.
De repente, o chão da cela vibrou. Um som metálico pesado ecoou pelo corredor do lado de fora, como se algo muito grande estivesse se aproximando.
O CALOR DO OVO: Dentro do inventário bloqueado de Kai, a temperatura subiu drasticamente. O brilho colorido começou a escapar pelos poros das mãos de Kai, iluminando a cela inteira.
Kiro parou de rir e Jack abriu os olhos na hora, ambos fixos em Kai.
— Ei, Kai... — Kiro disse, a voz ficando séria pela primeira vez. — O que diabos você tem aí que está brilhando desse jeito? A jaula de supressão está começando a... fumaçar?
O ambiente da prisão estremeceu. As luzes roxas das grades, que antes brilhavam com intensidade, começaram a piscar e a enfraquecer drasticamente. Kai sentiu o peso opressor sobre sua mente desaparecer e, como um clarão, a interface do sistema voltou a surgir diante de seus olhos, mas desta vez estava instável, com as cores oscilando freneticamente.
— Por que você voltou do nada? — perguntou Kai mentalmente, sentindo a força retornar aos seus membros.
SISTEMA: Por que eu voltei? Porque aquele seu "ovo de estimação" é um buraco negro de mana, seu imbecil! Ele sugou toda a energia de supressão desse lugar para se alimentar. O sistema da jaula entrou em curto-circuito. A melhor opção é abrir essa droga agora e fugir enquanto os guardas estão tentando entender por que o gerador de mana explodiu!
Kai não esperou. Ele sentiu a mana fluir livremente pelo seu corpo. Ele se levantou, respirou fundo e focou toda a sua força nos músculos dos braços. As grades, que antes drenavam sua vida, agora eram apenas metal comum. Com um rugido de esforço, Kai forçou as barras para os lados. O metal rangeu e entortou, abrindo espaço suficiente para um homem passar.
SISTEMA: ESCUTA AQUI, SEU VAGABUNDO: Eu vou usar toda a minha capacidade de processamento para suprimir a energia desse ovo por um tempo. Se ele continuar sugando mana assim, você vai desmaiar em cinco minutos. Punição/Custo: Durante esse tempo, você só terá acesso à sua [Espada de Aço] no inventário. Mais nada! Sem radar, sem mapas, sem avisos de perigo. Eu vou ficar "fora do ar" até essa coisa decidir nascer. Então use o que resta de cérebro nessa sua cabeça e FUJA daqui o mais rápido possível!
A tela do sistema apagou com um som de estática, deixando Kai por conta própria.
Jack, que observava tudo do canto, estava com os olhos arregalados, a mandíbula quase batendo no chão.
— Como... como você fez isso? — perguntou Jack, em choque. — Essas grades foram feitas para segurar monstros de nível 50! Como você abriu isso como se fosse papel?
Kai saiu da cela e rapidamente chutou a tranca da parte da jaula onde os outros dois estavam, usando a força aumentada pela mana.
— Não tenho tempo para explicar! — gritou Kai, estendendo a mão para ajudá-los a sair. — O bloqueio de mana caiu, mas não vai durar muito. Temos que sair daqui agora antes que os mascarados percebam que os "passarinhos" escaparam!
Kiro deu um salto para fora, já recuperando sua postura de combate, enquanto Jack ainda olhava para Kai como se ele fosse uma anomalia da natureza.
— Você é um cara estranho, Kai — disse Kiro, com um sorriso animado. — Mas eu gosto disso. Vamos quebrar tudo!
O grupo avançou pelo corredor escuro, a adrenalina pulsando. Jack, com seus instintos de quem conhecia aquele mundo, avistou uma espada de infantaria encostada em um suporte de armas e a pegou com agilidade.
— Melhor que nada — resmungou Jack, testando o peso da lâmina.
Kiro, mantendo o seu otimismo inabalável, liderava o grupo com passos rápidos, enquanto Kai vinha logo atrás, sentindo o peso morto do ovo em seu inventário bloqueado. Eles avistaram uma porta dupla maciça ao final do corredor e, sem muitas opções, Kiro a escancarou com um chute.
O que encontraram não era uma saída, mas um vasto salão de mármore negro, iluminado por tochas de fogo fátuo. O lugar estava infestado. Dezenas de sequestradores mascarados estavam posicionados como guardas de elite. Ao fundo, em um plano elevado, havia uma espécie de trono feito de ossos de criaturas mágicas.
Sentada nele, uma mulher loira de porte imponente e olhos frios como gelo observava o caos. Ela não parecia surpresa; parecia estar esperando por eles. Ao notar o brilho que ainda escapava sutilmente de Kai, ela se levantou, sua presença esmagando o ar do salão.
— PEGUEM TODOS! — a voz dela ecoou como um trovão pelas paredes. — E tragam o MEU ovo aqui! Ele não pertence a um lixo de outro mundo!
— O ovo é dela?! — gritou Kiro, desviando de uma flecha mágica que passou raspando por sua orelha.
— Nem ferrando! — rebateu Kai, sacando sua espada de aço. — Ele me chamou, não a ela!
Os mascarados avançaram como uma onda negra. Jack bloqueou o ataque de dois guardas simultaneamente, o metal tinindo e soltando faíscas.
— Não parem! — gritou Jack, empurrando os adversários. — Se ficarmos cercados aqui, já era!
O trio começou uma fuga desesperada pelo salão. Kiro usava sua força física para abrir caminho, derrubando guardas como se fossem pinos de boliche. Kai desviava de golpes por puro instinto, sentindo a falta do radar do Sistema para avisar de onde vinham os ataques.
Eles atravessaram o salão principal sob uma chuva de magias e lâminas, mergulhando em um labirinto de salas laterais. A cada porta que abriam, novos inimigos apareciam, forçando-os a bater e correr sem parar.
— Por aqui! — Kai apontou para uma escadaria em caracol, sentindo o ovo pulsar contra suas costas, como se estivesse rindo da perseguição.
— Se esse bicho não nascer e nos ajudar logo, eu mesmo quebro esse ovo! — berrou Jack, enquanto chutava um mascarado escada abaixo.
Os três subiram os degraus de pedra aos tropeços, os pulmões ardendo e o som das botas dos perseguidores ecoando logo abaixo. Quando alcançaram o topo, o coração de Kai despencou: o corredor terminava em uma sacada circular sem saída, cercada apenas por um abismo de névoa e as paredes frias da fortaleza.
— Droga, um beco sem saída! — gritou Jack, girando a espada e se preparando para o impacto.
A horda de mascarados surgiu no topo da escada, mas, em vez de atacarem, eles se dividiram em duas fileiras perfeitas, abrindo caminho para uma figura que caminhava com uma calma aterrorizante. Era um homem de cabelos azul-claros, vestindo trajes nobres que contrastavam com o ambiente sombrio.
Ele parou a poucos metros do trio. Com um sorriso que parecia gentil, mas carregava um brilho medonho nos olhos, ele ajustou as luvas brancas.
— A senhorita Morgana está à espera de vocês — disse ele, a voz suave e melodiosa. — Por favor, venham sem resistir. Não vai ser uma boa ideia tentar algo... eu garanto.
— Nem pensar! — Kiro rugiu, flexionando os músculos para saltar. — Eu não volto para aquele salão nem morto!
Kai apertou o cabo da espada de aço, e Jack se posicionou ao seu lado, as lâminas prontas para o abate. Mas, antes que qualquer um deles pudesse dar o primeiro passo, a realidade pareceu se partir.
Uma pressão invisível e aguda atingiu os três simultaneamente. Kai sentiu como se seu sangue tivesse se transformado em chumbo fervente. Seus joelhos bateram no chão com força, e uma dor excruciante percorreu seus nervos, como se milhares de agulhas estivessem costurando seus músculos por dentro.
— Aaagh! — Kai desabou, a espada escorregando de sua mão. Kiro e Jack caíram logo ao lado, contorcendo-se, incapazes de sequer gritar de tanta dor.
O homem de cabelo azul suspirou, balançando a cabeça com uma falsa tristeza enquanto caminhava entre os corpos caídos.
— Eu avisei vocês... — ele disse, olhando para Kai com um desprezo frio. — É uma pena que o "escolhido" do ovo seja alguém tão... frágil.
Ele se virou para os guardas mascarados e fez um gesto casual com a mão.
— Vão. Peguem-nos e levem-nos até o salão principal. A senhorita Morgana não gosta de esperar, e ela quer o que é dela por direito.
Os guardas avançaram, arrastando Kai, Kiro e Jack pelo chão como sacos de grãos. Kai, com a visão borrada pela dor, sentiu o Ovo em seu inventário pulsar uma última vez, uma batida de coração lenta e pesada, como se estivesse despertando com o sofrimento de seu portador.
Os três foram arrastados de volta pelo corredor frio, os corpos ainda latejando pela magia paralisante do homem de cabelo azul. Quando as portas do salão principal se abriram novamente, eles foram jogados aos pés do trono de Morgana.
A mulher loira se levantou lentamente, o som de seus passos ecoando no silêncio mortal do salão. Ela parou diante de Kai e, com a ponta de uma bota elegante, levantou o queixo do garoto para que ele a encarasse.
— Você não tem ideia do que carrega, não é? — a voz de Morgana era como seda sobre espinhos. — Esse ovo não é uma simples besta mágica. É uma das Chaves da Torre. E um "sem talento" como você só serve para uma coisa agora: ser o sacrifício para que o vínculo seja transferido para mim.
Ela estendeu a mão na direção do peito de Kai, e uma fumaça negra começou a sair de seus dedos, penetrando na pele dele para buscar o inventário.
— NÃO! — gritou Kiro, tentando se levantar, mas sendo chutado por um guarda. — Deixa ele em paz!
Jack, com o rosto colado no chão, murmurou entre dentes: — Se ela tocar na casca enquanto a energia estiver instável... vai tudo pro inferno...
De repente, o salão inteiro tremeu. Não era um terremoto externo, mas uma pulsação vinda de dentro de Kai. O brilho colorido, que antes era apenas uma luz suave, explodiu em chamas de cores impossíveis. A fumaça negra de Morgana foi repelida violentamente, e ela foi jogada para trás, quase caindo de seu trono.
SISTEMA (ERRO CRÍTICO): VINCULO DE ALMA SOBRECARREGADO! Status: O ovo detectou intenção hostil extrema. Processo: Chocagem acelerada em 99%... 100%. AVISO: VAI EXPLODIR! PROTEJAM AS CABEÇAS!
Um som de cristal se estilhaçando preencheu o ambiente. O inventário de Kai foi forçado a se abrir e o ovo surgiu flutuando sobre ele, rachando de cima a baixo. Uma onda de choque de mana pura varreu o salão, derrubando todos os mascarados e apagando as tochas.
No centro da luz, uma pequena silhueta começou a se formar.
Morgana e Jack ficaram estáticos, as pupilas dilatadas enquanto a luz multicolorida se dissipava. O silêncio no salão era tão pesado que se podia ouvir o estalar das cascas de cristal caindo no chão. Quando a silhueta finalmente se revelou, os dois exclamaram em uníssono, com as vozes carregadas de descrença:
— Isso é um...
A criaturinha esticou pequenas asas membranosas, ainda úmidas, e revelou escamas que mudavam de cor conforme ela respirava. O corpo tinha uma forma reptiliana elegante, mas poderosa.
— UM DRAGÃO! — terminaram a frase, as vozes ecoando pelas paredes de mármore.
O pequeno dragão caiu desajeitadamente no chão bem na frente de Kai, soltando um guincho agudo que fez as janelas do salão vibrarem. Kai, em choque, guardou sua espada de aço no inventário e encarou a criatura que parecia olhar diretamente para sua alma.
Foi nesse momento que o Sistema de Kai voltou à vida, mas não com deboche, e sim com um pânico histérico que parecia prestes a fritar os circuitos mentais do garoto.
SISTEMA: SEU DOIDO! VOCÊ TEM NOÇÃO DO QUE É ISSO?! ISSO É UM DRAGÃO! Você agora é um Cavaleiro Dragão, seu lixo de sorte! Ai meu Deus, eu não acredito! Minha programação não foi feita para lidar com uma classe lendária de nível catastrófico! Estamos fritos, mas estamos fritos com estilo!
Kiro, observando a cena por cima do ombro, deixou o queixo cair. — Um dragão... — murmurou Kiro, os olhos brilhando. — Eu pensei que essas coisas não existiam mais nesse mundo! Eu li todos os livros da biblioteca da cidade e diziam que estavam extintos há eras!
O Sistema Dourado de Kiro brilhou diante dele, respondendo com uma voz solene e mecânica:
SISTEMA DO KIRO: Confirmado. Dragões foram declarados extintos há 3.000 anos. No entanto, a análise sugere que este ovo permaneceu à deriva em animação suspensa, protegido por uma barreira de mana temporal, até ser despertado pelo chamado de alma do Jogador Kai.
Morgana recuperou o fôlego, seu rosto contorcido por uma mistura de ganância e fúria. — Não importa se é lendário ou não! — ela gritou, apontando para os guardas. — Ele acabou de nascer! Está fraco! Matem o garoto e tragam o filhote para mim agora!
O dragãozinho olhou para Morgana, abriu a pequena boca e, em vez de fogo, soltou uma lufada de fumaça colorida que começou a distorcer o espaço ao redor de Kai.
O pequeno dragão, exausto pelo esforço de nascer e liberar aquela onda de energia, soltou um ganido baixo e seus olhos pesaram. Ele tombou para o lado, caindo nos braços de Kai.
— Vamos, vamos! Temos que fugir agora! — gritou Kai, o suor escorrendo pelo rosto.
Ele entregou o filhote trêmulo para Kiro. — Segura esse bebê por um instante! Cuida dele!
Kiro arregalou os olhos, segurando a criatura lendária com uma delicadeza que contrastava com sua força. — Cara... ele é tão pequeno... e tão pesado! — Kiro estava visivelmente encantado, observando as escamas brilharem mesmo na penumbra.
Morgana, recuperando-se do choque, apontou para eles com fúria: — NÃO DEIXEM ELES SAÍREM! MATEM O GAROTO E PEGUEM O DRAGÃO!
Os mascarados avançaram como uma mancha negra. Jack se preparou para a morte, levantando sua espada quebrada. Mas Kai deu um passo à frente. Seus olhos roxos brilharam com uma intensidade maníaca. Ele não tinha mais espada, não tinha mais escudo, mas tinha a sua habilidade única que o Sistema tanto temia.
Kai olhou para a parede maciça de pedra da fortaleza, concentrou cada gota de mana que restava em seu corpo e gritou a plenos pulmões:

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