Reserva Natural Winterfield
Blue Lagoon, Louisiana.
Dois anos atrás...
A reserva parecia um mundo à parte naquela noite.
A luz da lua cheia atravessava as copas das árvores altas, lançando sombras sinuosas sobre a vegetação densa. O ar estava úmido, carregado com o perfume de folhas molhadas e da terra fresca. No fundo de uma caminhonete estacionada em uma clareira quase invisível, Alexander estava deitado ao lado de Isaac Kingston.
Isaac respirava pesadamente, o peito largo subindo e descendo enquanto ele tentava processar o que acabara de acontecer. Ele passou a mão pelos cabelos castanhos desordenados, desviando os olhos para o céu estrelado, mas sua atenção logo foi capturada pela figura de Alexander ao seu lado.
Alexander parecia etéreo sob a luz prateada da lua. Seu cabelo loiro caía em ondas desarrumadas sobre os ombros, e sua pele parecia refletir a luz, tornando-o quase irreal. Havia algo em sua postura relaxada, na forma como ele olhava para o céu com um pequeno sorriso nos lábios, que fazia Isaac se sentir pequeno e ao mesmo tempo hipnotizado.
Isaac nunca tinha reparado tantos detalhes em alguém antes. Era um atleta, acostumado a aventuras rápidas, sem muito apego. Mas Alexander... Alexander era diferente. Ele não era apenas um corpo. Havia algo nele que fazia Isaac querer parar e admirar.
Os dedos de Isaac se moviam quase sem controle, traçando uma linha suave pelo braço de Alexander, sentindo a maciez da pele que parecia feita da seda mais fina. Ele nunca havia tocado alguém assim.
— Você está bem quieto. — Alexander disse, virando o rosto para encará-lo. Sua voz era baixa, carregada de uma calma que Isaac invejava.
Isaac riu sem jeito.
— Eu só... estava pensando.
— Você... pensando? — Alex riu divertido. — Pensando em quê?
Os olhos de Alexander eram dois cristais azuis sob a luz, brilhantes e profundos, e Isaac sentiu como se estivesse afundando neles.
— Em você. Isso foi... diferente.
Alexander arqueou uma sobrancelha, um sorriso brincando nos lábios.
— Diferente bom ou diferente ruim?
— Bom. — Isaac respondeu rapidamente, um pouco mais alto do que pretendia. Ele limpou a garganta e tentou se recompor. — Quero dizer, muito bom.
O sorriso de Alexander se alargou, mas havia algo calculado nele, algo que Isaac não conseguia decifrar completamente. Ele parecia sempre no controle, como se estivesse três passos à frente de qualquer pessoa ao seu redor.
Isaac não podia evitar. Seus olhos vagavam pelo corpo de Alexander, que estava parcialmente coberto pelo lençol fino que tinham usado como improvisação. Os ombros definidos, as clavículas que pareciam ter sido esculpidas, o peito que subia e descia lentamente com a respiração. E aqueles lábios... aqueles lábios que agora estavam pressionados em um sorriso provocador.
— Você está me olhando como se eu fosse um prêmio... — Alexander comentou, mas havia um tom de diversão em sua voz.
— Talvez você seja. — Isaac respondeu sem pensar, e Alexander soltou uma risada baixa, quase musical.
— Não sabia que você era do tipo que se declara a alguém.
— Eu não sou. — Isaac franziu a testa. — Mas com você... é diferente.
Alexander se inclinou levemente, apoiando-se no cotovelo. A luz da lua dançava sobre os contornos de seu rosto, e Isaac prendeu a respiração.
— Diferente como?
— Como se... — Isaac hesitou, passando a mão pelo rosto.
Ele não sabia colocar em palavras.
Alexander Montgomery era uma força da natureza, algo que ele nunca conseguiria controlar ou entender totalmente. Como se o loiro de olhos azuis fosse uma obra de arte viva, e ele, um mero espectador sortudo.
Alexander parecia apreciar o embaraço de Isaac. Ele se inclinou mais perto, tão perto que Isaac podia sentir a respiração quente contra seu rosto.
— Você realmente não sabe o que dizer, não é?
Isaac balançou a cabeça, sentindo o calor subir em seu rosto.
Alexander sorriu, mas dessa vez havia algo mais suave nele, algo quase genuíno. Ele levantou a mão e passou os dedos pelos cabelos bagunçados de Isaac, um gesto inesperadamente terno.
— Por um lado, você é exatamente o que eu esperava: o atleta popular, cheio de si, confiante não só nas palavras, mas em outras coisas também. — Ele inclinou a cabeça, os olhos fixos nos de Isaac. — Mas por outro... Você parece tão perdido.
Isaac não sabia como responder a isso. Ele nunca se sentira tão vulnerável, tão exposto. Mas ao mesmo tempo, havia algo libertador em estar assim diante de Alexander, como se ele não precisasse fingir ser outra coisa.
Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas olhando um para o outro. O som distante de grilos e o farfalhar das folhas preenchiam o espaço entre eles.
— Eu nunca trouxe ninguém aqui antes. — Isaac admitiu finalmente, sua voz quase um sussurro.
Alexander levantou uma sobrancelha.
— Não me diga que essa é a sua primeira vez em uma clareira secreta.
Isaac riu, balançando a cabeça.
— Não. Eu quis dizer... nunca trouxe ninguém que realmente me fizesse querer ficar depois.
Alexander ficou em silêncio por um momento, como se estivesse processando as palavras. Então, ele sorriu novamente, mas dessa vez havia algo mais gentil, mais sincero.
— Você é cheio de surpresas, Isaac.
Isaac sorriu de volta, sentindo algo inusitado dentro de si – algo que ele não conseguia nomear, mas que sabia ser importante.
O canto dos pássaros começava a se mesclar ao suave farfalhar das folhas, enquanto o céu no horizonte adquiria tons de laranja e rosa, sinalizando que o dia logo nasceria. O clima úmido e morno da Louisiana criava uma leve névoa ao redor da clareira, tornando a cena quase onírica.
Isaac estava sentado na borda da caminhonete, as pernas balançando do lado de fora, enquanto olhava fixamente para Alexander, que permanecia deitado no fundo da carroceria, os braços cruzados atrás da cabeça. O loiro parecia alheio ao desconforto que começava a crescer no peito de Isaac. Sua postura relaxada e o sorriso preguiçoso que curvava seus lábios davam a entender que ele estava perfeitamente à vontade, como se não houvesse mais ninguém ali além de si mesmo.
Isaac desviou os olhos por um momento, respirando fundo. Ele nunca tinha se sentido tão confuso – ou tão atraído – por alguém. Alexander era tudo o que ele nunca soubera que queria: desafiador, encantador, misterioso. As últimas semanas haviam sido intensas, cheias de encontros secretos como aquele, e cada vez mais Isaac sentia que algo estava mudando dentro dele. Ele não queria mais que aquilo fosse apenas um jogo.
— Alex, eu estava pensando... em tudo isso.
Alexander desviou os olhos do horizonte e olhou para Isaac com um arqueamento de sobrancelha, o sorriso brincando em seus lábios.
— Ah, tudo isso? Quer dizer, as noites quentes e os lugares escondidos? Eu admito, tem sido divertido.
— Divertido? — Isaac inclinou-se para mais perto, tentando decifrar a reação de Alexander. — A gente está saindo há semanas. E não é só... bom, você sabe. Não é só sexo.
De onde estava, podia observar o outro em detalhes: os cabelos dourados bagunçados, o brilho sutil de suor na pele pálida e os olhos azuis que pareciam guardar segredos demais.
— Isaac, eu pensei que a gente tivesse entendido isso desde o começo. — Ele cruzou os braços, apoiando-se contra a lateral da caminhonete. — Não estou procurando algo sério.
A expressão de Isaac endureceu, seus olhos se estreitaram enquanto um músculo em sua mandíbula se contraiu.
— Como assim? Você não sente nada por mim?
Alexander inclinou a cabeça, seu sorriso permanecendo firme, mas havia uma sombra de algo em seus olhos, seria... irritação? Desinteresse? Isaac não conseguia dizer.
— Sinto prazer, Isaac. E só. Achei que estivesse claro desde o início.
As palavras atingiram Isaac como um golpe. Ele franziu a testa, seu peito se apertando.
— O que isso tudo foi para você?! — Indagou Isaac. — Pra mim foi diferente de tudo o que já senti!
Alexander suspirou, sentando-se. O lençol escorregou de seus ombros, revelando mais de sua pele impecável sob a luz crescente do amanhecer.
— Para mim, foi exatamente o que eu esperava que fosse.
Isaac riu, mas era um som seco, quase incrédulo. Ele balançou a cabeça, e sua postura começou a mudar. A frustração e o ressentimento ferviam sob a superfície, transbordando em seus movimentos tensos.
— Você está brincando comigo, Alex? Depois de tudo isso?
Alexander continuou calmo, mas havia um brilho afiado e cínico em seus olhos.
— Depois de tudo isso o quê? Algumas noites de diversão? Isaac, não foi você quem disse que não gostava de se apegar? Que tudo era só um jogo?
Isaac se inclinou para mais perto, e a tensão entre eles se tornou palpável. Ele segurou o braço de Alexander, não com força, mas com firmeza suficiente para deixar claro que não ia aceitar ser descartado tão facilmente.
— E você realmente não sentiu nada? — Ele murmurou, a voz baixa, perigosa. — Nada?!
Alexander o encarou, os olhos azuis brilhando com algo que Isaac não conseguiu identificar.
— Já disse. Prazer. Isso é tudo o que sinto com você, Isaac.
A resposta fez algo estalar dentro de Isaac. Ele agarrou o jovem de olhos azuis pelo pescoço, seus dedos se apertando ao redor da pele pálida. Não era suficiente para machucar, mas o gesto estava carregado de ameaça.
— Você acha que pode me tratar assim? Como a porra de um brinquedo descartável?! — Isaac perguntou, a voz rouca e repleta de raiva contida.
Alexander, no entanto, não pareceu intimidado. Pelo contrário, ele sorriu, um sorriso perverso e satisfeito que só enfureceu mais Isaac. A satisfação em sua expressão dando lugar a uma frieza calculada.
— Aí está você! — Alexander murmurou, a voz sedosamente venenosa. — Finalmente mostrando quem você realmente é. Violento, possessivo... Que interessante.
Isaac recuou por um momento, mas antes que pudesse falar algo, Alexander inclinou-se, seu sorriso voltando a ser provocador.
— Do que você está falando? — Isaac perguntou, os olhos fixos nos de Alexander.
— Achei que fosse questão de tempo até você se revelar. — Alexander inclinou a cabeça, os lábios ainda curvados em um sorriso. — Caras como você sempre acham que podem ter tudo o que querem, e quando não o tem, ficam bravinhos não é?
Isaac apertou mais os dedos em torno do pescoço de Alexander, mas o loiro não desviou o olhar. Ele parecia quase... excitado.
— Você acha que me conhece tão bem? — Isaac sibilou furioso.
— Bem o suficiente para saber que você é um mentiroso. — Alexander respondeu calmamente. — O que você achou que eu faria se descobrisse sobre Clara?
O nome pareceu atingir Isaac como um golpe. Ele congelou, a expressão de raiva sendo substituída por surpresa e, depois, por algo mais próximo do pânico.
— O quê...?
Alexander riu, um som baixo e venenoso.
— Você achou que eu não descobriria? Clara é minha melhor amiga, Isaac. Você realmente achou que podia brincar com ela e comigo ao mesmo tempo? Que feio...
Isaac ficou sem palavras, e sua mão deslizou do pescoço de Alexander. Ele foi um pouco para trás, como se tivesse sido exposto.
— Eu... não foi...
— Poupe suas desculpas. — Alexander cortou, sua voz fria agora, mas ainda carregada de um controle assustador. — Eu sabia desde o começo. Só estava esperando para ver até onde você iria.
Isaac sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Ele nunca tinha se sentido tão impotente, tão derrotado.
Alexander se levantou, pegando suas roupas no fundo da caminhonete. Ele se vestiu com uma calma irritante, como se nada tivesse acontecido.
— Você é previsível, Isaac. E previsível é tão... — Ele parou, olhando para Isaac com um sorriso cruel. — Entediante.
Isaac ficou imóvel enquanto Alexander pegava suas roupas e se vestia. A tensão no ar era quase palpável, mas desta vez, era diferente. Não era apenas desejo ou atração era algo mais sombrio, mais perigoso.
Alexander olhou para trás uma última vez, o sorriso ainda nos lábios, mas seus olhos brilhavam com algo afiado.
— Isso é tudo o que você é, Isaac. — Alexander disse, sua voz baixa, mas cortante. — Uma fachada. Um jogo. E a diferença entre Clara e eu... é que eu só brinquei, porque era divertido.
E com isso, ele desapareceu pela trilha, deixando Isaac sozinho, engolido pela mistura de humilhação e algo que ele ainda não conseguia nomear.
O sol finalmente nasceu sobre a reserva, mas nada poderia iluminar o que havia acabado de se revelar naquela clareira secreta.

Comments (0)
See all