Quando as luzes se apagaram, Ryotaro ainda estava acordado, olhando para o teto do seu quarto. Ele refletia sobre tudo que havia acontecido naquele dia, sem entender ao certo o porquê de Aiko ter lhe dado atenção.
— Aiko… — Ryotaro sussurrou, estreitando os olhos. Em seguida, soltou um riso baixo, sem humor. — Vai desistir rapidinho.
Um vibrar na mesa de seu quarto chamou sua atenção. Não era normal ele não era normal receber mensagens. Ao pegar o celular, viu a mensagem:
???: Oiii! É a Aiko! Peguei seu número com a secretaria (por favor, não briga comigo 😅). Só queria dizer… obrigada por me salvar. De verdade.
Ryotaro congelou ao ver que era Aikk. Antes que desligasse a tela, seus dedos se moveram e digitaram:
Ryotaro: Não precisa agradecer. Só fiz o que tinha que ser feito.
E enviou. Aiko, ao receber a mensagem, sorriu suavemente. Logo, digitou:
???: Ei, deixa eu te perguntar: você quer tomar um café comigo?
Ryotaro ao ler a mensagem, arregalou os olhos e, sem querer, deixou o celular cair no rosto. Logo, pegou o celular de novo, e respondeu:
Ryotaro: Hein?! Como é esse assunto?!
Aiko, ao ver o constrangimento que podia ter causado, ficou vermelha e digitou rapidamente:
???: É! Mas nada demais, só tomar um café e conversar! Só isso. O que me diz?
Por um momento, Ryotaro pensou em recusar. Por que ele iria? Seus polegares pairaram sobre o teclado.
Ryotaro: Tá… pode ser.
Aiko, ao ver que ele havia aceitado, deu um gritinho, tampando a boca para não acordar ninguém.
“Ele aceitou!”, ela pensou, abraçando uma almofada, até meio corada. Logo, pegou o celular de novo, e digitou:
Aiko Takane: Ok! Tem uma cafeteria perto do colégio que é muito boa. É facinho de encontrar. Te espero, Ryotaro!
Ryotaro apenas reagiu a mensagem com um joinha, e deitando a cabeça no travesseiro de novo, suspirou.
— Essa garota… — ele disse, fechando os olhos. Logo em seguida, sentiu o rosto esquentar. — E ela tocou justamente no meu ponto fraco!
Aiko, por outro lado, ria baixinho, ainda abraçada ao travesseiro. Se sentia radiante como nunca. Sorriu, e enfim adormeceu.
No dia seguinte, Ryotaro acordava com o som do despertador. Como sempre, desligou o alarme e sentiu uma enorme vontade de continuar deitado. Porém, Megumi, sua mãe, já batia em sua porta.
— Ryotaro! — ela disse, a voz cansada. — Anda, levanta aí.
— Já vou — ele disse, se levantando com dificuldade.
Vestindo suas roupas habituais, incluindo o moletom preto, logo saiu do quarto. Encontrou Megumi e Ryu tomando café normalmente. Porém, logo Megumi reparou na expressão de Ryotaro. Ele parecia lembrar de alguma coisa que o fez corar discretamente.
— No que tá pensando, filho? — Megumi perguntou.
— Em nada — Ryotaro respondeu, quase que instantaneamente. — Por quê?
— Nada, só curiosidade. É que eu não te vejo com as bochechas vermelhas desde aquele caso com a senhorita Hoshina.
Isso fez Ryotaro engasgar com o café, cuspindo parte do café.
— Mãe! — Ryotaro disse, tossindo. — A gente já falou sobre isso!
— Hoshina… — Ryu disse, tentando puxar da memória. — Ah! É aquela garota que vivia te dando chocolate no Dia dos Namorados?
— Pai! — Ryotaro exclamou, ficando mais vermelho e enterrando o rosto nas mãos.
Megumi riu baixinho, enquanto Ryu apenas sorria de canto. A simples menção àquela garota fazia Ryotaro ficar todo envergonhado.
— Tudo bem, não vamos tocar nesse assunto — Megumi disse, levantando as mãos em sinal de paz. — Mas me fala, por que estava corado?
— Já disse, nada — Ryotaro disse, tirando o rosto um pouco para fora das mãos.
— Ninguém fica corado por nada, Ryotaro — Ryu disse, tomando um gole de café. — Aconteceu algo ontem?
Ryotaro olhou para os pais, e no mesmo instante se viu novamente naquela rua, salvando Aiko de ser atropelada. Queria contar sobre ela, sobre o que fez. Ele chegou a abrir a boca pra contar… mas no fim a fechou outra vez.
— Não é nada… — Ryotaro disse, por fim. — Só a escola. Coisa boba, sabe?
Megumi olhou novamente para Ryotaro, com um olhar clínico que só as mães têm, detectando a mentira antes mesmo da frase terminar.
— Hm — ela disse, estreitando os olhos. — Isso é estranho, filho.
— Desde quando eu não sou estranho? — Ryotaro rebateu, dando de ombros.
Ele então levantou, pegou a mochila e declarou que estava indo. Após dar um beijo de despedida em Megumi, saiu de casa. Enquanto caminhava em direção a escola, colocou os fones de ouvido, e no celular pôs um rock animê que gostava muito de ouvir, para ver se os pensamentos sobre Aiko sumiriam de sua cabeça. Deixando o volume no último, seguiu seu caminho. Ainda assim, a lembrança do dia anterior não parava de vir à sua cabeça. “Merda!”, ele pensou, apertando os olhos. “Sai da minha cabeça, Takane! Por que eu tô pensando tanto nisso? Se era pra ela contaminar minha mente, era melhor ter deixado o carro acertar ela.”
Na mesma hora, se arrependeu de pensar isso. Não por causa do karma instantâneo, mas pelo simples peso na consciência. Se sentiu estupidamente mal por ter pensado aquilo. Mordeu a mandíbula com força, e sussurrou:
— Idiota…
Enquanto isso, com Aiko, a coisa era um pouco diferente. Como ela morava relativamente perto da escola, podia sair bem mais tarde. Depois de provar uns cinco conjuntos de roupas diferentes, Masahiro, ao vê-la com o sexto conjunto e de que mais havia gostado, perguntou:
— Maninha, por que tá trocando tanto de roupa? Vai para um encontro?
Aiko congelou na mesma hora. Um rubor subiu pelo seu rosto com força.
— Q-quê?! — ela disse, rindo nervosa. — Não… por que você acha isso?
— Você tá aí falando sozinha, se trocando e arrumando o cabelo há um tempão — Masahiro disse, inclinando a cabeça. — Fora que dormiu com um sorriso bem boboca.
Aiko ficou ainda mais vermelha. E pra piorar tudo, seus pais, Misao e Kenji, ouviram. Logo, os dois também apareceram na porta.
— Um encontro, filha? — Misao arqueou a sobrancelha. — Com quem?
— Bem, isso já remove minhas suspeitas de que você gosta de mulheres — Kenji deu de ombros.
Aiko levou as mãos ao rosto, completamente em chamas.
— NÃO É ISSO, GENTE! — Ela quase gritou, e diminuiu o tom de voz. — Eu só vou… tomar um café! Com um amigo!
— Amigo? — Misao cruzou os braços. — E desde quando você tem amigos homens?
— Eu tenho! — Aiko mentiu, na maior cara de pau. — Ele me ajudou ontem.
— Ajuda de que tipo? — Kenji perguntou, arqueando a sobrancelha.
— É que… ontem, ele me salvou de… ser atropelada.
O silêncio que se instalou na casa foi imediato e tumular.
Masahiro tinha os olhos arregalados.
Misao levou a mão à boca, assustada.
Kenji se endireitou, evidentemente preocupado.
— Você tá bem, filha?! — Misao disse, segurando os ombros dela.
— Tô, mãe — Aiko respondeu, também segurando os ombros da mãe. — Ele me puxou a tempo.
Kenji respirou fundo, colocando as mãos na cintura — porém, sua expressão era totalmente diferente.
— Então… esse garoto te salvou — ele murmurou, reflexivo. — Heh. Já gosto dele.
Aiko ficou ainda mais vermelha, mas antes que conseguisse dizer alguma coisa, Misao o cutucou no braço.
— Kenji! Não assusta a menina.
— Ué, mas ele salvou nossa filha — Kenji rebateu. — Merece no mínimo respeito. Talvez até um presente…
— Pai! — Aiko bateu o pé. — Não precisa agir como se eu fosse casar amanhã!
Misao, mais calma, colocou a mão no rosto de Aiko.
— Cuidado, ok? E leva uma blusa. Vai esfriar depois do almoço.
Aiko suspirou, sem saber se estava brava, sem paciência ou feliz por ter uma família tão caótica.
— Tá bom… — Aiko disse, pegando a bolsa. — Eu vou indo.
— Tá bom — Kenji disse, dando de ombros. — Só vou ignorar que você esteja passando perfume.
Aiko parou no meio do corredor.
— EU SEMPRE PASSO PERFUME, PAI!!
Masahiro caiu na risada. Misao também. Kenji também riu, mas de forma mais contida.
— Beleza, filha. Boa sorte com o “café”.
— AHHH!!!!
E Aiko saiu correndo, com o rosto tão vermelho que poderia explodir. Quando chegou na rua, abraçando os braços e respirando no manual, repetia:
— Tá tudo bem, Aiko… é só um café… com um garoto… que tem olhos de prata… AH NÃO! PARA CÉREBRO!!
Enquanto isso, Ryotaro chegava ao portão da escola, tentando ao máximo manter a sua fachada de durão e indiferente. Até conseguiu, mas sua mente estava um completo caos. Nem a música conseguia abafar.
— Merda… por que eu aceitei? — ele dizia. — Seria melhor ter deixado o capô acertar ela…
Foi só pensar que quem veio dessa vez foi o karma instantâneo, e não o peso na consciência. Estava tão distraído que nem viu uma pilastra na frente dele. Resultado? Deu de cara nela. A dor foi instantânea.
— AAH! — ele fez. — FILHO DA… AAAH!
Ryotaro olhou para todos os lados, procurando ver se alguém tinha visto. Achou que não, mas ouviu duas risadinhas masculinas atrás dele, além de um cochicho:
— Ah lá… o Fantasma Negro perdeu no X1 pra uma coluna!
Imediatamente, Ryotaro olhou para os dois meninos com um olhar tão assustador e até assassino que os dois meninos gritaram e saíram correndo para dentro do colégio. Esfregando a testa de leve e murmurando algo parecido com “Idiotas…”, entrou no colégio. Como costuma chegar muito cedo, quase não havia muitas pessoas no lugar, então foi até sua sala e se sentou em sua carteira: a habitual carteira perto da janela, na última fileira e no último lugar. Enquanto esperava a aula começar, pegou o celular e decidiu folhear algumas fotos antigas. Haviam memórias boas, como seu primeiro gato e responsável por seu amor pelos animais, e ruins, como quando acabou levando uma mordida de um cachorro de raça agressiva e sua mãe tirou uma foto do machucado.
— Odeio cachorros… — ele suspirou, sentindo um arrepio ao lembrar da sensação dos dentes do cachorro entrando em sua carne.
Folheou mais algumas fotos até chegar em um vídeo de quando era pequeno. E quem estava com ele? O seu primeiro e único amigo. Eles corriam de um lado para o outro, brincando de pique pega. Quando Ryotaro conseguiu o pegar, derrubando ele na grama e o abraçando, o amigo disse:
— Você é meu melhor amigo, Ryotaro! A gente vai ser amigo pra vida toda!
Ao ouvir aquelas palavras, deixou o celular cair na carteira, e sem perceber, ele já até havia começado a chorar. Tapou os olhos com as mãos, e sussurrou, sua voz trêmula:
— Yahiko… Yahiko… meu amigo… eu te prometi… — Então, sussurrou mais alto do que pretendia, um sussurro cheio de dor:
— YAHIKO!!
Ryotaro mal percebeu quando alguém entrou na sala. Só notou quando ouviu passinhos lentos e hesitantes se aproximando. Imediatamente, ele limpou o rosto com a manga do moletom, respirando fundo e tentando manter a postura imponente. Não queria que ninguém — absolutamente ninguém — o visse quebrado.
— …Ryotaro? — uma voz suave chamou atrás dele.
Ele congelou na mesma hora. Aiko estava na porta da sala dele, segurando os livros contra o peito e com o rosto parcialmente escondido atrás deles, além de estar perfeitamente arrumada. Seus olhos dourados brilhavam muito naquele início de manhã, mas tinham algo diferente: preocupação.
— Takane? — ele disse, tentando manter a voz firme, mas acabou saindo meio rouca.
Aiko deu mais dois passos, quase tropeçando no próprio pé de tão nervosa.
— Ah… desculpa, eu… — ela gaguejou, desviando o olhar. — Eu não devia ter entrado assim. É que eu te vi meio… estabanado, e aí… eu pensei que você tinha batido a cabeça.
Ryotaro corou. Ela tinha visto.
— Eu não bati — ele mentiu descaradamente. — Eu… só tropecei. Nada além disso.
— Aham — ela fez, com um sorriso de canto. — Sei.
Ela se aproximou um pouco mais, se sentando em uma cadeira ao lado dele, e só então reparou no celular de Ryotaro, que estava com a tela ligada e o vídeo pausado no mesmo instante que Yahiko abraçava Ryotaro, com Yahiko com aquele sorriso infantil e Ryotaro sorrindo verdadeiramente. Aiko, ao ver aquela imagem, suavizou sua expressão, ficando um pouco mais triste.
— Ryotaro — ela chamou. — Quem é ele? É seu amigo?
A pergunta de Aiko ecoou como uma fina lâmina, retalhando a barreira que Ryotaro mantinha ao redor dele. Ele cerrou os punhos sobre os joelhos, os nós dos dedos ficando brancos. Seu primeiro instinto foi rosnar:
— Não é da sua conta…
Mas a voz morreu na garganta. O motivo? Ele olhou diretamente nos olhos de Aiko, e viu naqueles dois lagos dourados uma preocupação genuína, que ninguém além de Yahiko havia demonstrado pra ele.
— Ele… era meu amigo — Ryotaro por fim disse. — O nome… é Yahiko.
Aiko não disse nada. Ao invés disso, se inclinou um pouco, como se dissesse “estou ouvindo”. Ryotaro então fechou os olhos, as lembranças voltando com força, e continuou:
— Um dia, o Yahiko não começou a se sentir bem. Ficou doente, muito doente.
Aiko tapou a boca com a mão, um suspiro preso escapando por seus dedos. Seus olhos começaram a marejar.
— Ele… ficou meses no hospital — Ryotaro disse, sua voz começando a embargar. — Fios, máquinas… ele nem respirava por conta própria.
O silêncio que se seguiu só foi quebrado pelo burburinho dos primeiros alunos começando a chegar.
— E então… — Ryotaro sussurrou, a voz falhando e tremendo. — eu… eu prometi…
E então, sem se importar se mais alguém visse além de Aiko, Ryotaro tapou o rosto com as mãos e chorou de novo. Aiko, ao ver ele chorar daquele jeito, não evitou que suas próprias lágrimas caíssem.
A sala começou a encher de alunos, e o burburinho começou a crescer. Ryotaro, ainda com o rosto escondido nas mãos, sentiu um toque suave e hesitante no seu ombro. Era Aiko. Ela ficou quieta, não oferecendo nenhuma palavra vazia de consolo. Só ficou ali, oferecendo sua presença a ele naquela tempestade, como um porto seguro. Ele não a afastou.
— Por favor — Ryotaro pediu, enxugando as lágrimas com um movimento brusco. — Esquece tudo que eu disse.
— Não vou esquecer, Ryotaro — Aiko respondeu, sua voz suave, porém firme. Seus olhos ainda estavam úmidos, mas ela lhe ofereceu um pequeno lenço de pano, com estampa de gatos. — E, honestamente, não acho que você seja um tratante.
O sinal do colégio soou alto, anunciando o início das aulas. O som cortou o momento frágil como uma navalha cortando seda, invadindo a bolha que os dois haviam compartilhado. Alunos riam, arrastavam cadeiras e abriam suas mochilas, sem notar o turbilhão emocional que ocorria no fundo da sala.
Ryotaro pegou o lenço que Aiko lhe ofereceu, seus dedos ainda trêmulos cerrando-se em volta do tecido macio.
— Obrigado… — ele sussurrou, sua voz fraca, limpando o rosto com determinação.
Aiko levantou da cadeira, seu coração batendo com força nas costelas. Sentiu uma pitadinha de ansiedade ao reparar que alguns alunos olhavam diretamente pra eles. O que estariam pensando? A terceira garota mais popular do colégio conversando com o esquisitão do colégio e os dois claramente abalados? A fofoca se espalharia mais rápido que a luz.
— Eu… eu vou pra minha sala — ela sussurrou, segurando os livros com força. — A gente… a gente se vê depois, na cafeteria?
Ryotaro olhou para ela, a dor ainda presente em seus olhos prateados. Os olhos deles se encontraram de novo, e o garoto quieto apertou o lenço com um pouco mais de força. Por quê?
— Ok — ele respondeu, sua voz ainda meio rouca. — Me encontra no portão da escola, depois da aula.
Se chegou aqui, comente!

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