O sorriso que Aiko lhe deu foi pequeno, mas tão genuíno e alegre que pareceu iluminar o canto sombrio onde Ryotaro se escondia. Ela se virou e caminhou para fora da sala, indo para a sua. Enquanto ia para a porta, sentiu dezenas de olhos perfurarem suas costas. Mas a opinião dos outros pareceu insignificante para Aiko, comparado ao peso daquela conversa.
O resto do dia passou como um borrão para Ryotaro. As aulas foram apenas uma sequência de palavras sem sentido, um ruído de fundo. Sua mente ainda estava presa no vídeo, na promessa para Yahiko, e nos olhos dourados de Aiko que o encararam sem julgamento. Ele ainda mantinha o lenço dela no bolso, tocando-o de vez em quando como um amuleto.
Quando o último sinal tocou, Ryotaro foi o primeiro a sair. Seus passos, antes hesitantes, agora estavam determinados. Antes da aula acabar, ele já havia decidido: ele não ia fugir daquela situação. Ele ia encarar, mesmo que fosse muito difícil. A ansiedade formava um nó no seu estômago, mas era diferente do frio habitual que costumava sentir. Quando viu Aiko chegando, só então reparou em sua aparência. Na mesma hora, algo dentro do seu peito reagiu, e ele desviou o olhar. Então ajeitou a manga desnecessariamente e engoliu em seco.
— Oi — ela disse, sorrindo suavemente.
— Oi — Ryotaro disse, acenando suavemente. — Você… tá bem bonita, sabia?
Aiko desviou o olhar, sorrindo, e corou, segurando a manga da blusa.
— Obrigada — ela disse, tímida. — Você também tá bonito.
— Só tô com a minha roupa de sempre — ele retrucou.
— Ainda assim, tem seu charme — ela então deu um passinho para frente. — Então… vamos?
— Hã… tá, vamos.
E os dois andaram até a cafeteria. No início, os dois ficaram em silêncio, sem saber direito o que dizer. Estavam ambos meio envergonhados. Foi quando os dois viram, em uma vitrine de uma loja de música, o pôster de uma cantora, chamada Zarame. Os dois ficaram olhando para o pôster com olhares encantados. O motivo? Os dois eram fãs dessa cantora.
— Ah! — os dois fizeram em uníssono. Em seguida, os dois olharam um para o outro com os olhos arregalados. — Você também gosta da Zarame?!
— Eu amo ela! — Aiko disse, já ficando super animada. — É a minha cantora favorita!
— É… a minha também — Ryotaro disse, a surpresa dando lugar a um leve calor no rosto crescente. Suas bochechas logo ficaram vermelhinhas.
— Own, tá com vergonha, Ryotaro? — Aiko disse, inclinando a cabeça daquele jeito boboca que deixava Ryotaro desconcertado.
— Não, é que… eu nunca vi ninguém gostar dessa cantora. Tipo… quase ninguém conhece ela.
— Bom, eu conheço. Me fala, qual a sua música favorita dela?
Ryotaro olhou para Aiko, que tinha aqueles olhos tão brilhantes quanto o sol querendo saber mais sobre ele, e então sorriu. Um sorriso pequeno, mas genuíno. Aiko viu aquilo, e sorriu ainda mais.
— É Just One — ele disse, coçando a nuca.
— Não brinca! — ela disse, dando um pulinho de alegria. — A minha também! É tão linda, né? Parece até uma declaração de amor…
— Pois é — Ryotaro disse, olhando para seus sapatos.
Os dois voltaram a caminhar, e o gelo estava quebrado de vez. Logo, Ryotaro e Aiko começaram a conversar sobre a cantora, suas músicas e como ela devia ser mais conhecida. Ryotaro começou a se sentir mais solto aos poucos, embora ainda fosse estranho para ele interagir com alguém do colégio.
Não demorou para que acabassem chegando na cafeteria, chamada “Café & Bigodes”. Ao entrarem, Ryotaro viu que era um lugar muito aconchegante e amigável. Havia uma parede com tijolos à mostra, puffs de várias cores, e como Aiko havia prometido, vários gatos. Logo, um gato veio miando na direção de Ryotaro, se esfregando em suas pernas. O ponto fraco de Ryotaro. Logo, o que restava da sua fachada de indiferença caiu de vez, e seus olhos brilharam. Ele se abaixou, e começou a fazer carinho na cabeça do gato enquanto dizia uma palavra meio sem sentido: miú.
— Ei, não precisa ficar desesperado pelo gato, Ryotaro — Aiko disse, rindo e puxando ele pelo capuz.
— Miú… — foi tudo que ele disse.
Os dois logo foram para uma mesa mais reservada, perto de uma estante com alguns mangás clássicos e onde um gato preto dormia em uma das cadeiras. Ao se sentarem, Ryotaro ia acariciar o gato, mas Aiko disse:
— Eu não faria isso se fosse você.
— Ué, por quê? — Ryotaro perguntou.
— Essa aí é meio arisca — Aiko disse, sussurrando. — Eu já tentei, e ela retalhou meu braço!
E mostrou as cicatrizes que a gata acabou deixando. Ela de fato tinha feito um estrago daqueles.
— Eita — foi tudo que Ryotaro disse.
Uma atendente simpática veio até a mesa, e Aiko, após olhar um pouco o cardápio, pediu um latte com baunilha e uma fatia de bolo de chocolate. Ryotaro, após olhar um pouco mais o cardápio, decidiu pegar um mocaccino e uma fatia de torta de canela com caramelo.
— Uau — Aiko disse, inclinando a cabeça e a apoiando na mão. — Você não parece o tipo disso.
— Hein? — ele fez, sem entender. — Que tipo eu faço?
— Ah, eu achei que você ia ser aqueles góticos que só gostam de coisas amargas, já que “a vida é amarga”.
Ryotaro ergueu o olhar por um momento, e deu de ombros, dizendo:
— O que posso dizer? Digamos que a vida é amarga. Mas não é porque ela é assim que eu não possa aproveitar a doçura que ela proporciona.
— Caramba, o Sócrates gótico — Aiko disse, com uma piscadela sapeca.
— Não enche — Ryotaro disse, fingindo indignação, mas seus lábios tremeram em um quase sorriso.
Logo, os pedidos chegaram. O cheiro doce das iguarias preencheu o lugar, e os dois começaram a comer. O bolo de Aiko era fofinho e bem doce, e a cada mordida, Aiko fazia uma carinha absurda e um barulhinho. Ryotaro, normalmente, se irritaria e pediria silêncio. Com Aiko? Ele simplesmente não conseguia. Ele começava a achar ela extremamente fofa para dizer algo desse nível. E sim, ele se engasgou sozinho ao pensar que ela era isso.
— Tudo bem aí? — Aiko perguntou, ao vê-lo tossir.
— Tá, tá tudo bem — ele disse, pigarreando. — Foi… um pedaço de torta. Entrou pelo buraco errado.
Aiko não acreditou completamente, mas não quis insistir. Ryotaro, por outro lado, piscou uma, duas, três vezes. “Não”, ele pensou. “DEFINITIVAMENTE NÃO!”
Antes, porém, que continuasse a praguejar em pensamento, Aiko, após comer mais um pedaço de bolo e fazer mais um barulhinho e carinha leve, disse, completamente encantada:
— Isso aqui tá incrível! Você tem que experimentar, Ryo-kun!
— Ryo…kun? — ele sussurrou, mas Aiko nem ouviu, já estendendo o garfo com um pedaço do bolo.
— Vai, experimenta!
Ryotaro engoliu em seco, meio nervoso, mas aceitou, se inclinando para frente e pegando o pedaço com a boca. Depois de comer, estalou a língua, meio pensativo, enquanto Aiko perguntava:
— E aí? Gostou?
— É… não é nada mal — Ryotaro disse, limpando com um guardanapo um pouco de sujeira em seu lábio.
— Ah, pare! Eu sei que você gostou muito!
Ryotaro só revirou os olhos, pegando um pedaço da sua torta e estendendo para ela.
— Mas e você? — perguntou. — Por que não experimenta o meu também?
— Tá bom — ela disse, e num piscar de olhos, comeu o pedaço. Seus olhos brilharam de encanto. A torta tinha um gosto levemente picante, e o caramelo equilibrava tudo. — Isso é incrível!! Eu amei!
— Não esperava menos… — Ryotaro disse, brincando de girar o garfo.
Os dois logo começaram a conversar sobre assuntos comuns e superficiais. Aiko não queria tocar em assuntos pesados no primeiro instante. Na verdade, nem queria tocar, com medo de que a menção a Yahiko o fizesse fugir dali na mesma hora. Mas ela não precisou se preocupar com isso, já que após um pequeno momento de silêncio, Ryotaro disse:
— Sabe, Takane… o Yahiko provavelmente iria gostar muito de você. E… com certeza ia me arrastar pra fazer amizade contigo.
A declaração pairou no ar por um momento, deixando Aiko meio sem reação por um instante. Seu coração deu uma volta completa no peito, e uma onda de calor subiu por seu pescoço até as bochechas. Ryotaro não só tinha mencionado Yahiko, como ainda tinha dito que ele gostaria dela. Na mente de Aiko, isso era um elogio e tanto.
— Sério? — Aiko perguntou, sua voz um tom acima do sussurro, cheia de esperança. — Você acha mesmo?
Ryotaro finalizou o seu mocaccino com um gole profundo, e suspirou.
— Sim — ele respondeu. — O Yahiko foi alguém que sempre via o lado bom das pessoas. Ele me via como “um gatinho assustado tentando ser um leão”. Heh. Chega a ser cômico. Provavelmente o Yahiko olharia pra você e veria… luz. Coisa que, segundo ele, falta no mundo.
Aiko então não conseguiu segurar o sorriso radiante que se expandiu por seu rosto, tão brilhante que fez Ryotaro desviar o olhar, com os olhos semicerrados, como se tivesse encarado o sol.
— Ele estaria certo sobre o leão — Aiko disse, corajosamente. — Pra mim, você é como a Harumi aqui do lado. Se finge de durão, mas só quer um carinho atrás da orelha e um colinho quente.
— Não vá esperando que eu vá miar pra você, Takane — Ryotaro disse, dando uma risada curta que saiu meio rouca pela falta de uso.
Foi só falar na gata que ela decidiu se levantar, se espreguiçando e bocejando. Harumi olhou para Ryotaro por um momento, e para a surpresa de todos, ela desceu da cadeira onde estava e pulou no colo do garoto. Ryotaro ficou em completo choque ao ver que a gata, dita como arisca, começou a amassar pãozinho em seu moletom e deitou. Aiko ficou boquiaberta.
— Eu não acredito! — Aiko disse, com os olhos arregalados. — Harumi? É você mesmo?!
Ainda meio temeroso, Ryotaro abaixou a mão e coçou atrás da orelha de Harumi. Logo, a gata preta começou a ronronar, virando um motorzinho adorável. Os olhos do garoto brilharam, e ele começou a fazer mais carinho pelo corpo dela, ainda falando miú.
— Perguntinha — Aiko disse, curiosa. — O que significa esse “miú” que você fica falando?
— Hã? — Ryotaro fez. — Ah, é só uma onomatopeia que eu inventei. É que eu… gosto muito de Rurouni Kenshin.
— Ah! — Aiko disse, batendo duas palmas. — Já entendi tudo! Esse seu “miú” é tipo o “oro” do Kenshin, não é?
A pergunta foi tão certeira que fez Ryotaro ficar em choque e gritar em pensamento “COMO ELA SABE?!?!”, porém, como não queria que ela visse o quanto ele ficou desesperado, pigarreou e perguntou, fazendo carinho em Harumi:
— Hã… como que você sabe?
— Ah, é que eu gosto muito de animes clássicos — Aiko disse, inclinando a cabeça daquele jeito bobinho. — E Rurouni Kenshin… é meu favorito. Então, foi fácil descobrir.
Aquela simples declaração foi suficiente para que Ryotaro desse sua primeira pane. Era muita informação para ele. Não conseguia acreditar que Aiko, a terceira garota mais popular do colégio e que ele achava que sua vida era uma grande superficialidade, conhecia seu anime favorito e ainda era também o anime favorito dela. Se fosse uma cena de anime, seus olhos estariam sem íris e da sua cabeça sairia fumaça.
Ryotaro ficou completamente paralisado por um longo instante, sua mão pousada no pelo macio de Harumi. A gata, indignada pelo fato dele parar, empurrou sua cabeça contra sua mão, exigindo mais de sua atenção. Porém, na cabeça do garoto, tudo parecia uma grande tempestade de pensamentos:
“Ela gosta de Rurouni Kenshin. Ela gosta do meu anime favorito. É também o anime favorito dela! Ela sacou o miú! ELA ENTENDEU TUDO!!!!”
Esses pensamentos corriam de um lado para o outro, sem parar, estraçalhando a visão que ele tinha de Aiko. Ela não era só “popular”. Ela era… simplesmente a Aiko.
— Tá tudo bem, Ryo-kun? — A voz dela o tirou completamente do transe que ele havia mergulhado. — Você congelou do nada. Eu falei algo errado?
— N-não — ele conseguiu dizer, retomando os sentidos e voltando a fazer carinho em Harumi, que começou a ronronar mais alto. — É que… eu duvido que alguém sacaria essa referência. Muitos menos… alguém popular como você.
Aiko sorriu, aliviada e se divertindo com a reação dele.
— E aí? Eu tô certa?
— Tá sim — Ryotaro respondeu, desviando o olhar. — Eu… me inspirei no Kenshin quando criei o miú. E… é igualzinho ao “oro”, só que com a minha cara.
— Bem, eu achei fofo — Aiko disse, sincera.
— Não é fofo — ele disse, virando o rosto e sentindo o calor subindo por seu pescoço e chegando às orelhas. — É só… um hábito besta.
Um silêncio caiu sobre a mesa, mas não era constrangedor. Em vez disso, era carregado de uma compreensão mútua. Era como se um grande portão fosse aberto, e um grande campo de interesses em comum agora estivesse disponível para explorar.
— Se você gosta mesmo de Rurouni Kenshin, — Ryotaro disse, arqueando a sobrancelha. — me responde uma coisa: você acha que o Kenshin está bem com a Kaoru? Ou você acha que ele devia ter ficado com a Megumi?
Ryotaro perguntou aquilo com um tom desafiador, como se fosse um teste. Ele se inclinou para frente, os olhos prateados fixos nela, esperando uma resposta clichê ou superficial. Para ele, era um território sagrado, e ele não iria tolerar quaisquer heresias.
Aiko, porém, não se intimidou. Ela colocou o queixo na mão, um dedo batendo na bochecha, e fez um “hmm” prolongado e até dramático.
— Olha, essa é difícil, Ryo-kun — Aiko disse, com um sorriso esperto. — Olha, eu… eu acho que… hmmm… assim, o Kenshin e a Kaoru são a alma um do outro. Os dois se complementam de uma forma muito legal. E… hã… eu honestamente não gosto muito da Megumi, então… pra mim, tá ótimo.
Ryotaro analisou o rosto de Aiko de forma analítica e afiada, procurando qualquer sinal, mesmo que sutil, de fingimento. Mas não havia nenhum. Assim, Ryotaro deu um pequeno sorriso de canto.
— Beleza, Takane — Ryotaro disse, orgulhoso. — Gostei de ver. Pelo menos você é sincera.
E assim, a conversa seguiu naturalmente, com eles debatendo sobre os arcos de cada personagem, os arcos da história e as músicas de abertura e encerramento. Ryotaro, que normalmente era quieto e usava as palavras com economia, descobriu que tinha muito a dizer sobre o que amava. Aiko não só ouvia; ela discutia, conversava e compartilhava suas próprias teorias com um grande entusiasmo.
O tempo passou rápido. Antes que tivessem noção, o sol já pensava em se pôr, o céu começando a assumir tons alaranjados e rosados.
— Caramba — Aiko disse, ao olhar para fora. — Melhor a gente ir logo. Minha mãe daqui a pouco vai mandar um esquadrão atrás de mim.
— Verdade — Ryotaro concordou. — Melhor irmos.
Após pagarem a conta e saírem da cafeteria, o ar da tarde estava realmente esfriando, como a mãe de Aiko predissera, e uma brisa suave balançava os cabelos dela. Os dois caminhavam em silêncio, que era confortável, preenchido pelo burburinho suave da cidade e pelo eco da conversa animada que haviam tido.
Ao chegarem no ponto onde seus caminhos se separavam, pararam. A rua estava quieta, iluminada apenas pelo laranja do sol.
— Então… — Aiko disse, balançando levemente na ponta dos pés. — Eu… gostei muito de hoje, Ryo-kun.
— Eu também — Ryotaro admitiu, sentindo o nó no estômago de novo, mas que dessa vez não carregava ansiedade. — Obrigado… pelo café e pela conversa.
— A gente… podia fazer de novo? Talvez ir num karaokê, não sei… ou uma biblioteca de mangá. Ou só andar pelo parque. O que você acha?

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