Antes que Ryotaro pudesse responder, os dois ouviram um miado atrás deles. Quando se viraram, viram um pequeno gatinho, com pelos alaranjados, pretos e brancos, desgrenhado e magro, encolhido perto de uma lata de lixo. Ryotaro foi até ele e se ajoelhou, estendendo a mão. - Ei, tá tudo bem, pequenino. Não vou te machucar. O gatinho cheirou seus dedos com desconfiança, mas acabou encostando a cabeça em sua mão. - Tadinho - Aiko sussurrou, ajoelhando-se ao lado. - Ele tá sozinho. Foi quando Ryotaro notou um machucado na pata traseira do animal. - Ele tá machucado - disse ele. - O que a gente faz? - Aiko perguntou. Ryotaro respirou fundo. - Takane, pode pegá-lo? - Eu? - ela hesitou, mas logo estendeu as mãos. - Tá. Ela pegou o gatinho com cuidado, aconchegando-o contra o casaco. Ryotaro então tirou seu moletom, revelando uma camiseta preta. Com movimentos decididos, amassou a blusa até formar uma cama improvisada. - Põe ele aqui - ele disse. - Vai ser mais quente e seguro. Aiko obedeceu, e o gatinho se aconchegou imediatamente. - E agora? - ela perguntou, olhando para ele com admiração. - Agora a gente leva ele no veterinário - ele respondeu. - Conheço uma clínica aberta até tarde. Fica no caminho da sua casa. - Você... realmente faria isso? Ryotaro a encarou, seus olhos encontrando os dela. Pela primeira vez, não havia medo. - Eu não posso deixar ele aqui. É o que... o Yahiko faria. E é o que eu quero fazer. Aiko sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Naquele momento, sob o sol poente, com Ryotaro carregando o gatinho com cuidado, ela sentiu algo que não sabia nomear. Caminharam em silêncio até a clínica. A veterinária disse que o corte na pata era superficial, mas infeccionado. Nada grave. Ele também estava desnutrido e com vermes. - Normalmente ligaríamos para o abrigo, mas está lotado - disse ela. - Vocês têm condição de cuidar dele? - Nós? - Aiko estranhou. - É. Vocês não são casados? Os dois coraram violentamente. - N-não! - Ryotaro se apressou. - A gente é só... - Amigos - Aiko completou. A veterinária disse que alguém precisaria ser o tutor oficial. Ryotaro e Aiko se entreolharam e, sem palavras, chegaram a um acordo. - Tem como ter guarda compartilhada? - Ryotaro perguntou. - Alguém tem que ser o oficial no registro. - Eu posso? - Aiko ofereceu-se, tímida. Após assinarem os documentos e pagarem a primeira parcela do tratamento, saíram da clínica. A noite já havia caído. Aceleraram o passo até a casa de Aiko. - É aqui - ela disse. - Obrigada por tudo, Ryo-kun. Eu... gostei muito de hoje. - Eu também - ele respondeu, desviando o olhar. - Obrigado pelo café. - Que nome você vai dar pra ele? - Aiko perguntou, olhando para o gatinho que dormia no moletom. Ryotaro pensou por um momento. - Yahiko. O nome vai ser Yahiko. Aiko sorriu, fazendo carinho na cabeça do animal. - Perfeito. Agora você é o pequeno Yahiko. Ela olhou para os olhos de Ryotaro, e ele para os dela. Por um instante, o mundo parou. - Aiko! - a voz de Misao cortou o momento. - Você tá aí! Ao olharem, viram a mãe de Aiko, junto de Kenji e Masahiro, se aproximando. - Filha, você sabe que não pode demorar tanto - Misao disse, abraçando-a. - E quem é esse? - Kenji perguntou, apontando para Ryotaro. - Meu nome é Ryotaro Sato - ele murmurou. - Acho que sua filha deve ter contado... - Espera - Masahiro disse. - Você é o cara que salvou minha irmã? - Hã... acho que sim. Os três se entreolharam e, num movimento conjunto, curvaram-se em sinal de gratidão. - Muito obrigado por salvar a nossa pequena - Kenji disse. - Você é meio assustador, mas é legal - Masahiro completou. Ryotaro ficou constrangido. - N-não precisa disso. Misao olhou para o céu. - Já está tarde. Ryotaro, onde você mora? - Marunouchi - ele respondeu. - Você é rico, tio? - Masahiro perguntou. - Hã... pode se dizer que sim? Kenji assobiou impressionado. Eles se entreolharam e tomaram uma decisão. - Ryotaro - Aiko chamou. - Você quer dormir aqui hoje? - Que?! - ele recuou. - E-eu não preciso... - Está muito tarde - Misao insistiu. - É perigoso. Por favor, entre. Ryotaro hesitou, mas acabou aceitando. A casa de Aiko era simples, mas cheia de vida, com fotos espalhadas pelas paredes. O carpete era quentinho e tinha cheiro de chocolate quente. - Tem um quarto de hóspedes ali no fundo - Misao apontou. - Não se assuste se ouvir passos à noite. É que a Aiko tem medo de ficar sozinha. - Sério? - Ryotaro olhou para Aiko, que corou. - É, eu sei, é vergonhoso - ela sussurrou. - Teve uma vez que ela foi correndo pro quarto do papai e da mamãe - Masahiro provocou. - Até chorou que nem bebezinho. - MASAHIRO!! Os dois saíram correndo, com Aiko ameaçando pescotapas. - Esses dois são sempre assim? - Ryotaro soltou um grunhido que parecia uma risada curta. - Na maioria das vezes - Misao sorriu. - Quer que te mostre o quarto? Ela o levou até um quarto simples, com cama de casal, mesa e um banheiro modesto. Ryotaro acomodou o pequeno Yahiko perto do travesseiro. - Muito obrigado, senhora Takane. - Disponha - ela disse. - Se precisar de algo, é só chamar. Misao saiu e logo depois Ryotaro ouviu duas batidinhas na porta. Era Aiko. - Eu só queria dizer... boa noite. - Boa noite, Takane. - Quer que eu te traga um pijama? - Tô de boa. Mas valeu. - Tá... então vou indo. - Ok. Aiko saiu e foi saltitando até o quarto, onde afundou o rosto no travesseiro e deu um gritinho contido. Ela já estava perdidamente apaixonada. Ryotaro, deitado de braços abertos, olhava para o teto. Depois de meia hora tentando dormir, começou a murmurar uma canção. - Não me mate... me ajude a fugir de todo mundo... preciso de um lugar onde posso esconder o meu rosto... não chore... sou só uma aberração... Ele sempre cantava essa música quando se sentia vazio. Ficou olhando para o teto com expressão neutra. - Minha cabeça está cheia de parasitas... buracos negros cobrem os meus olhos... sempre sonho com você... espero que eu não acorde dessa vez... Fechou os olhos, mas logo ouviu passos leves no corredor. Passaram em frente à sua porta, foram para outro lugar e voltaram. Ryotaro conteve a respiração. A porta se abriu levemente. - Ryo-kun? Tá acordado? - Takane? Tudo bem? - Eu não consigo dormir. Tô me sentindo sozinha. Será que eu posso... dormir aqui? - Não é melhor ir com seus pais? Aiko ponderou. - Eu acho que eles não vão se importar. Você deixa? Por favor... Ryotaro suspirou. Uma parte dele queria mandá-la embora, se isolar. Mas seus olhos, já acostumados ao escuro, viram a expressão vulnerável dela. - Tá bom, deita aí. - Sério? - É - sua voz saiu áspera. - Mas nem pense em roubar meu cobertor. Aiko entrou, fechando a porta com cuidado. Na penumbra, a expressão de Ryotaro parecia mais severa, mas ela deitou na cama, mantendo uma distância educada. - Obrigada - ela sussurrou. - Disponha. Após minutos de silêncio, Aiko hesitou. - Eu ouvi você cantar. Sua voz... é bonita. Ryotaro ficou paralisado. Seus olhos se afiaram. - Não era pra você ter espiado, Takane. - E-eu não espiei! Eu juro! - ela se virou na cama. - Eu só ouvi atrás da porta. Ia bater, mas você começou a cantar e... fiquei parada. Me perdoa. A angústia na voz dela fez a raiva de Ryotaro se dispersar. - Esquece isso. É só um costume besta. - Não é besta - ela insistiu, e ele sentiu o colchão mudar de pressão, indicando que ela se aproximara. - É um pouco de você. E se eu quero te ajudar, eu tenho que saber tudo. Eu quero saber tudo. A afirmação foi tão audaciosa e doce que fez algo dentro de Ryotaro doer. - Takane, isso... é meio perigoso. Certas coisas a gente deve deixar no escuro. Aiko ficou em silêncio. Então, repentinamente, ele sentiu a ponta dos dedos dela tocar suas costas. Seus músculos enrijeceram. - Mesmo no escuro, a gente pode enxergar - ela disse. - Ou só dividir ele com alguém. Deixa o fardo mais leve. Ryotaro já não conseguia respirar. Aquele toque dissolvia toda sua rigidez. Sem pensar, virou-se para ela. Na penumbra, seus olhos encontraram os dela. Estavam cara a cara, separados pelo pequeno Yahiko que ronronava entre eles. Aiko não recuou. Seus dedos pousaram com suavidade no rosto dele, tocando a linha de sua mandíbula tensa. - Takane... - ele sussurrou. - O que é isso? Por que tá fazendo isso? — Porque você parece perdido — ela disse. — E eu sei como é estar sozinho, no escuro. Ryotaro engoliu em seco, sentindo sua garganta fechada. — Eu não sei o que fazer com isso — ele admitiu, com a voz rouca. — Não precisa fazer nada — Aiko moveu o polegar em círculo em sua bochecha, de forma suave. — Você não precisa ficar sozinho agora. Olha, eu prometo que não vou contar a ninguém sobre a música. Vai ser o nosso segredo, entre você e eu. As palavras “nosso segredo” ecoaram na cabeça dele. Yahiko suspirou no sono, quebrando o silêncio. Aiko corou e retirou a mão rapidamente. — Ah, meu Deus, desculpa! — ela disse, virando de costas. — Eu fui muito intrusiva, não foi? Perdão! Aiko ainda sentia o calor da pele de Ryotaro. Ele virou para o outro lado, tentando se acalmar. — Tudo bem, não se preocupe. Só... não faça isso de novo, ok? Vamos tentar dormir. — Tá, boa noite, Ryo-kun — Aiko respondeu, suavemente. — Boa noite, Takane — Ryotaro disse, também em voz baixa. Mas nenhum dos dois conseguiu dormir. Estavam ambos muito tensos. Ryotaro olhava para a janela, pensando em como Aiko havia sido tão ousada, enquanto Aiko se virava de barriga para cima e dava um tapa na própria testa, frustrada. E o sol nasceu, lentamente. Mas nenhum deles teve coragem de olhar um para o outro, ainda sentindo o desconforto do momento anterior.
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Que noite longa, não é? O que acontecerá em seguida? Comente aí!

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