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A Flor Negra da Cerejeira - O Fantasma Negro e a Princesa Dourada

Given Up

Given Up

Jan 09, 2026

No dia seguinte, Ryotaro acordou com um pequeno chacoalhar em seu ombro. Ao acordar, se sentiu desorientado, já que não reconhecia o teto acima dele. Foi quando lembrou da casa dos Takane, a cafeteria, o filhote de gato, tudo de uma só vez. Ao olhar para o lado, viu Aiko, já arrumada para o colégio.

— Hã? — ele fez. — Já tá na hora do colégio?

— Pois é — Aiko disse, dando de ombros com seu habitual sorriso. — Vem comer!

Ryotaro se espreguiçou como um gato, e foi para a sala de jantar. Lá, o ambiente tinha um cheiro bom de peixe e missoshiru, além de arroz e omelete. Ryotaro comeu muito bem, mas interagiu pouco com os Takane, já que ainda se sentia meio deslocado. Ele reparou muito na rotina deles: Kenji gostava bastante de assistir TV, Misao era a que mais conversava, Masahiro interagia com a mãe ou só provocava a irmã, e Aiko… bem, ele não conseguiu reparar. Ele constantemente evitava olhar para ela.

Quando chegou a hora de ir para o colégio, os dois foram juntos, caminhando em um silêncio constrangedor, mas ao mesmo tempo confortável. Ambos ainda não sabiam como reagir direito ao que havia acontecido na noite passada, e foi um alívio para os dois quando chegaram lá.

— Bom — Aiko disse. — Talvez você queira ficar em casa hoje, não é?

— Com certeza — Ryotaro disse, desviando o olhar.

— Você… ainda quer ir num karaokê comigo?

Ryotaro hesitou por um momento. Será que devia ir? Ainda se sentia meio estranho, mas a ideia de lhe negar algo parecia insuportável. Então, acabou dizendo:

— Ok…

Aiko sorriu, seu sorriso resplandecente cegando Ryotaro momentaneamente.

— Tá! — ela disse. — Tenho que ir agora. Tchau!

E correu até um grupinho de amigas, que olharam para Ryotaro com um olhar esquisito. Ele nem chegou a notar direito, só entrando no colégio. Queria que, pelo menos, as coisas fossem naturais por lá. Mas é claro que não seriam.

Ao passar por um corredor, acabou passando por quatro jovens amigos. Eles já eram meio baderneiros, e gostavam de sacanear os outros. Ao verem Ryotaro, o líder deles, um garoto de cabelos vermelhos chamado Kaito, disse:

— Ora, ora. Se não é o Fantasma Negro!

Ryotaro parou no lugar, de costas para ele, e respirou fundo. “Merda”, pensou. “Mal vim pra cá e já querem puxar meu saco?”.

— O que você quer, Kaito? — ele perguntou.

— Ah, nada não — ele disse. — Só… queria confirmar uma coisa.

— O que você quer confirmar?

— Vem cá… é verdade que tu saiu ontem com a Aiko Takane?

Ryotaro fechou os olhos com força, apertando os punhos dentro do bolso do moletom. Mas é claro que a fofoca se espalhou como fogo. Por que seria diferente?

— É, saí — ele confirmou. — Um encontro de amigos. E daí?

— Amigos? Ha! — Kaito exclamou, dando uma risada. — Ouviu isso? Ryotaro Sato tendo amigos! É mole?

Ryotaro respirou fundo. Nem mesmo os valentões queriam azucrinar ele, então aquilo era novidade para ele. Porém, sabia que, se tivesse qualquer reação errada, os holofotes iam mirar acima de sua cabeça. E o que ele menos queria era atenção indesejada.

— Satisfeito? — Ryotaro disse, suspirando. — Já vou indo, então.

— Ei, peraí Sato! — Kaito disse, se aproximando dele novamente e ficando a sua frente. — Eu ainda não acabei.

Ryotaro logo percebeu os amigos de Kaito o cercando. Sem se intimidar, Ryotaro tirou as mãos do bolso, os punhos ainda cerrados e os nós dos dedos brancos. Seus olhos de prata exalavam uma calma firme e absoluta, mas estavam frios.

— O que mais você quer? — Ryotaro perguntou, sua voz firme e fria.

— Só quero te passar um aviso, Ryotaro — Kaito disse, chegando mais perto. — Tenta não chegar muito perto dela, tá?

— Hm — Ryotaro fez.

— Sabe por quê? — Kaito continuou  e empurrou Ryotaro no peito, quase jogando o garoto quieto para trás. — Porque você é um Shinigami.

Na mesma hora, Ryotaro não se conteve. Ele rosnou, como um último aviso:

— Melhor você parar AGORA, Tanaka.

— Ou o que, Fantasma Negro? — Kaito disse, inclinando a cabeça de forma ameaçadora. — Vai me lançar uma praga? Como lançou naquele teu amiguinho?

Ryotaro, ao ouvir aquilo, quase levantou o punho para socar o rosto de Kaito. Porém, soube que aquilo era exatamente o que ele queria. Então, fechou os olhos, respirando fundo outra vez, e deu uma risada curta e sem humor. Abrindo os olhos novamente, com o cenho franzido e um sorriso de canto, Ryotaro apenas disse:

— É, Kaito. Você é mesmo patético.

— Que? — ele disse, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.

— Sabe, às vezes você devia aprender a calar essa sua matraca.  Fica falando demais dos outros, e sobre o que não tem ideia do que se trata. Vê se some do meu caminho.

Ryotaro deu um passo à frente, e esbarrou de propósito no ombro dele. Sua postura era ereta, não mais de submissão, mas de autoridade e desprezo puro. Kaito ficou furioso, mas antes que conseguisse dirigir qualquer ameaça vazia, ele já havia dobrado a esquina e ido para outro canto.

O coração de Ryotaro batia forte no peito. Ele sabia que Kaito não ia deixar isso barato. Sabia da fama dele de vingativo, então sabia que ele iria cobrar, e com juros. Ao chegar perto da sua sala, encostou em uma parede, suspirando pesadamente, e sussurrou:

— Isso vai dar uma merda tão grande…

O dia de aula passou como um borrão, com Ryotaro quase não prestando atenção. Toda hora, sua mente era levada para o momento que Aiko encostou em seu rosto, o confronto com Kaito, a forma como ele desdenhou de Yahiko, e como ele próprio havia passado por cima do valentão como se ele fosse um saco de batatas. Quase não notou quando o professor de matemática o chamou.

— Hã? Sim? — ele fez, ao acordar de seus devaneios.

— Estava prestando atenção, Sato? — o professor perguntou.

— É claro.

— Então resolva essa equação, por favor.

E olhou para a equação. Era confusa. Ao olhar para os outros alunos, viu que a maioria estava praticamente sem entender nada. Após se concentrar por um minuto e quase esquecer de novo do que se tratava, chegou à resposta. Então, deu de ombros, levantou e resolveu. Quando terminou, todos os alunos estavam de olhos arregalados.

— Muito bem, Sato — o professor disse, genuinamente impressionado. — Ninguém conseguiu resolver isso.

— Honestamente, isso não é tão difícil — Ryotaro retrucou, dando de ombros novamente.

Essa declaração ecoou na sala, seguido de um silêncio carregado. Todos na sala olhavam para Ryotaro, e seus olhares, antes cheios de desdém ou indiferença, agora o fitavam com uma mistura de surpresa e até de admiração genuína. O “Fantasma Negro” não era só um esquisito no canto; pelo visto, ele era inteligente, muito inteligente.

— Como ele fez isso? — um garoto de uma fileira disse, sem acreditar.

Ryotaro não respondeu. Ao invés disso, só voltou para seu lugar, colocando seus fones de ouvido novamente e colocando uma música aleatória, e fingiu voltar para seu mundo escuro. Dentro dele, porém, uma faísca de orgulho, daqueles que ele sentia muito quando resolvia um enigma com Yahiko ou terminava um desenho difícil, brilhou dentro dele.

O resto da manhã seguiu sem grandes incidentes. Quando o intervalo chegou, Ryotaro foi para o telhado, tentando se esconder do resto das pessoas. Porém, ao chegar lá, viu que alguém o esperava. E, por sorte, não era Kaito, e sim Aiko. Ela tinha nas mãos duas caixinhas de suco.

— Oi! — ela disse, ao vê-lo. — Sabia que te encontraria aqui!

— Takane? — Ryotaro disse, surpreso. — Por que tá aqui sozinha? Cadê suas amigas?

— Ah, elas… estão lá embaixo. Eu… queria falar contigo. Trouxe um suco de maçã pra você.

Ryotaro pegou uma das caixinhas, e se sentando ao lado dela, abriu o suco, tomando um gole. Aiko olhou para ele por um momento, e depois de um segundo de silêncio, ela disse:

— O Kaito… falou comigo. Sobre você.

Ryotaro quase engasgou com o suco. “Esse desgraçado!”, ele pensou, furioso, e perguntou em voz alta:

— E o que ele falou?

— Disse que… você é perigoso — ela respondeu, olhando para baixo. — Que você dá azar. Disse até que você tinha problemas de raiva.

— E você acreditou?

Aiko então olhou para ele, e com um sorriso de canto e expressão satisfeita, ela deu de ombros e disse:

— Claro que não. Eu disse pra ele que eu ando com quem eu quiser, e isso não era da conta dele. Mas sabe o que eu fiz antes de dizer isso?

— O que?

— Eu… hmm… como eu conto isso? Digamos que olhei para aquela cara de tacho dele e dei um baita tapa na cara dele. 

— Espera… você o que?

— Isso aí. Em minha defesa, ele me deixou bem… desconfortável.

— Miú?

— Aquele babaca foi falar comigo, disse aquelas coisas horríveis sobre você e… aquele desgraçado colocou aquela mão asquerosa dele no meu rosto. Aí eu não aguentei. Dei na fuça dele com toda a minha força.

Ryotaro ficou paralisado. Ela tinha realmente se arriscado por ele?

— Aiko, eu… — ele disse, desviando o olhar. — Não sei se isso foi uma boa ideia.

— Por quê? — ela perguntou.

— Foi corajoso, mas o Kaito não é do tipo que leva desaforo pra casa. Ele vai querer retribuir, de alguma forma. E… eu não quero que você se machuque por… minha causa.

— E… o que você sugere? Que eu… me afaste de você?

— Se isso te manter segura, eu recomendo que faça isso.

Aiko ficou em silêncio, olhando para o chão, ponderando as palavras dele. Por um momento, Ryotaro pensou que ela realmente se afastaria. Porém, para seu espanto, ela disse, com toda a convicção:

— Não.

— Miú? — ele fez, sem entender.

— Não, Ryo-kun — ela disse, com uma determinação inabalável e a voz firme como uma montanha. Ela apertou a caixinha de suco com um pouco mais de força e respondeu:

— Eu não vou me afastar.

Ryotaro ficou surpreso com aquilo. Ele já sabia, de certa forma, que quando Aiko queria algo, ela ia até o fim por ela. Mas não esperava que ele estivesse incluído nisso.

— Takane… — ele começou.

— Ryotaro — ela interrompeu, com um sorriso suave. — Nem tenta. Eu decidi que quero ser sua amiga, e nada vai mudar isso. Se isso significa me tornar alvo de um valentão, tudo bem. Mas nada vai me fazer mudar de ideia, porque foi você que eu quis conhecer.

Ryotaro ficou em silêncio, processando o que ela tinha acabado de lhe dizer. Um minúsculo sorriso surgiu em seus lábios, mas ele não encontrou palavras para dizer.

O sinal do fim do intervalo tocou, e os dois voltaram para suas salas. Foi só nesse dia que ele descobriu que Aiko era do segundo ano, enquanto ele era do terceiro. Ele jurava que ela era da sua idade, e isso o deixou levemente surpreso. Logo, ele voltou para sua sala. As aulas seguiram normalmente, e quando o sinal final tocou, Ryotaro recolheu suas coisas rapidamente, e foi direto para o portão. Após alguns minutos, ela surgiu das portas.

— Alguém te seguiu? — Ryotaro perguntou, desconfiado.

— Não, tá tudo bem — ela respondeu, sorrindo. 

— Então, vamos.

E foram. Ryotaro se disponibilizou para achar um lugar bom para eles, dizendo que os pais não se importariam caso ele gastasse em um lugar meio caro.

— Se eles já saberem que estou com uma amiga, eles nem vão se importar — Ryotaro continuou.

O lugar que acharam não era exuberante, mas também não era mal cuidado. Era bonito, simples e bem cuidado, e isso já era suficiente. Ao pegarem uma sala em U, Aiko não perdeu tempo e já foi procurar uma música legal. Acabou escolhendo a música Harukamirai, da Kankaru Piero.

— Vai, escolhe uma, Ryotaro! — ela exclamou, estendendo um microfone para ela.

— Não, tá doida? — ele disse, se afastando. — Eu… prefiro assistir.

— Ah não! Aí não tem graça! — Aiko disse, fazendo biquinho. — Você tem que participar também!

Ryotaro olhou para o microfone, para a carinha de cachorro pidão de Aiko, e suspirou, indo escolher uma música. Nenhuma lhe chamava atenção muito bem, até que uma música lhe chamou a atenção, e muito: Given Up, do Linkin Park. Ao ver o score das outras pessoas, viu que todas as pontuações eram baixas. Isso só o atiçou ainda mais.

— Heh — ele fez. — Perfeito.

— Tem certeza, Ryo-kun? — Aiko perguntou, um pouco preocupada.

— Ué, por que não?

— É que… dizem que quem canta essa música fica mudo por três dias por causa daquele grito.

— Relaxe, Takane. Eu dou conta. Quer ir primeiro com Harukamirai?

— Hã… tá.

Aiko pegou o microfone e iniciou. Ryotaro esperava que Aiko tivesse uma voz angelical, perfeita. De fato, ela tinha uma voz afinada e bonita, mas diversas vezes ela tremia e desafinava. Mesmo quando isso acontecia, ela ria e fazia algumas caretas engraçadas. Sua energia era contagiante, e ele se viu diversas vezes pisando o pé no ritmo da música e até cantando baixinho. No fim, o score dela foi mediano, nem excelente nem horrível.

— Sua vez, Ryotaro! — ela disse. — Só cuidado pra não ficar rouco.

Ryotaro logo pegou o microfone, e iniciou. A guitarra distorcida de "Given Up" logo preencheu o ar, e Ryotaro começou. Aiko reparou que sua voz era muito boa, chegando a ser até mesmo melhor que ela. Quando chegou o refrão, porém, ela viu um lado que Ryotaro não havia mostrado: um lado mais gutural, agressivo. O refrão… era estranhamente familiar. Aiko ficou surpresa ao ver que ele acertava a entonação perfeitamente, mas ainda se preocupava com a temida ponte.

Foi quando, finalmente, ela chegou. O icônico grito de 17 segundos. Ryotaro, ao gritar, deixou todo o seu ódio por Kaito e pelas pessoas do colégio, sua confusão por Aiko e sua raiva pelo isolamento escapar. Aiko fechou os olhos, os tampando com as mãos, esperando o pior.

Mas ele não veio.

Quando a música terminou, Ryotaro caiu de joelhos, seus ombros subindo e descendo de forma ofegante. O garoto quieto olhou para Aiko, que baixou as mãos, e piscou algumas vezes. Os olhares deles se encontraram novamente, e por um momento, o silêncio reinou. Ryotaro então pigarrou.

— Fui bem?

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Isso foi épico, não é? Comente aí o que você acha vai acontecer agora!
ricaardovenancio
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