O silêncio que se seguiu após a música foi intenso, carregado de energia elétrica. A única coisa que se ouvia era a respiração ofegante e rouca de Ryotaro e o zumbido do ar condicionado. O microfone ainda pendia em sua mão, seu peso insignificante comparado ao vazio que ficou após o grito.
Aiko ficou paralisada, sua boca levemente aberta. A expressão no rosto de Ryotaro enquanto ele gritava aqueles intermináveis 17 segundos… isso ficaria gravada em sua memória para sempre.
— Ryotaro… — ela sussurrou, sua voz sumida.
Ele nem parecia ter ouvido. Seus olhos cinza estavam fixos na tela, onde a pontuação perfeita soava como um troféu irônico. 100%. Ele cantou até não sobrar nada. Mas agora, no vazio que sentia, tinha apenas a garganta ardendo e as pernas tremendo.
Com um movimento lento, quase robótico, Ryotaro se levantou, colocando o microfone no suporte com um click suave. Seu corpo ainda tremia.
— Miú… — ele tossiu, sua voz completamente destruída, apenas um fio áspero de som. — Acho… que eu exagerei.
Aiko finalmente se moveu, fechando a distância entre eles, e o alcançou uma garrafa de água que haviam pedido.
— Aqui, bebe.
Ryotaro pegou a garrafa com as duas mãos trêmulas, seus dedos se encontrando com os dela por um instante. Um choque quente percorreu todo o corpo de Aiko, mas não recuou. Ele abriu a garrafa e bebeu grandes goles, alguns escorrendo pelos cantos de sua boca e misturando-se ao suor do seu pescoço.
— Valeu — ele sussurrou, limpando a boca com as costas da mão.
— Eu que agradeço — Aiko respondeu, sua voz suave. — Por ter me mostrado isso. Por… ter confiado em mim pra isso.
— Não foi bem confiança. Foi… necessidade.
— Bom… que tal algo mais leve dessa vez? — ela disse, tentando mudar o clima. — Por mim?
Ryotaro olhou para a tela, depois para o microfone, e finalmente para Aiko. Seu rosto, antes uma máscara de dor, suavizou um pouco. Ainda havia um pouco de cansaço, mas havia também um resquício de algo novo — talvez alívio.
— Tá bem — resmungou o garoto quieto, sua voz ainda áspera. — Mas você escolhe. Nada de gritos, por ora.
Aiko sorriu, genuinamente aliviada, e foi até o painel. Escolheu uma música pop animada e descontraída, algo que ela sabia que Ryotaro normalmente desprezaria, mas que com certeza faria o ambiente ficar mais leve. Quando a música começou, ela puxou ele para o centro da sala, segurando o segundo microfone.
— Vamos! Não tem como errar essa!
— Miú?! — ele fez, um pouco assustado. — Tem certeza?
— Absoluta! Vamos!
A música era animada e descontraída, com uma letra açucarada. Aiko dava pulinhos no lugar, dançava e cantava com animação, ao passo que Ryotaro segurava o microfone como se fosse um espadachim segurando um buquê de flores. No começo, ele não sabia como agir direito, e Aiko teve que o animar, dizendo:
— Vamos, Ryotaro! Não precisa ter vergonha!
— Eu… não sei se consigo — sussurrou, desviando o olhar.
— Vai lá! Consegue sim!
Ryotaro engoliu em seco, e se juntou com ela. No começo, sua voz era baixa, mas não demorou muito para tomar força. Os olhos de Aiko brilharam ao ver ele conseguir juntar coragem, e logo suas vozes, a dela doce e aguda, e a dele áspera e mediana, combinavam perfeitamente. Ryotaro começou até mesmo a chacoalhar os ombros.
O resto da tarde no karaokê foi recheada de músicas J-pop, músicas de anime e terminou com o primeiro encerramento de Dragon Ball Super, outro anime que os dois também gostavam muito. Quando saíram do lugar, já era noite. Os dois caminhavam conversando sobre o anime recém descoberto quando viram, ao passar por um beco, uma figura humana caída ao chão.
— Ryo-kun? — Aiko disse, puxando a manga do moletom dele.
— Já vi — ele retrucou.
Os dois se aproximaram da figura, e ao verem de perto, perceberam três coisas: a primeira era que era um jovem, a segunda era que parecia que ele havia levado uma surra, e a terceira que não era qualquer pessoa.
— Meu Deus — Aiko disse, tapando a boca ao ver quem era.
— Kaito? — Ryotaro disse, engolindo em seco.
Kaito, quase sem forças, abriu o olho esquerdo, e em um sussurro rouco, murmurou:
— Por favor… me ajuda, Sato…
Ryotaro olhou para Kaito com um olhar analítico, vendo onde ele podia estar ferido. Viu que seu olho estava roxo e seu nariz quebrado, além de um rasgo sangrento em sua perna.
— Quem fez isso com você, Kaito? — ele perguntou.
— O… Takeru… — ele tossiu, seu corpo começando a tremer.
— Takeru? — Aiko disse, pasma. — O mesmo que saiu do colégio e foi pra Yakuza?
— É, esse merdinha mesmo… — Kaito respondeu, tossindo mais.
Ryotaro não pensou. Agiu. Retirou a mochila das costas, e rapidamente tirou de dentro dela gaze, esparadrapo, faixas e álcool. Com precisão cirúrgica, limpou o ferimento de Kaito e o enfaixou. Seus movimentos eram firmes e decisivos. Depois disso, ele estava mais ou menos limpo.
— A gente chama uma ambulância pra você — Ryotaro disse, sua voz firme. — Aiko, chama ela aí.
Aiko assentiu, e pegou o celular. Enquanto ela falava com o atendente, Ryotaro manteve a guarda na boca do beco, caso Takeru resolvesse voltar. Quando Aiko desligou, ela disse:
— Eles chegam em cinco minutos.
— Beleza — Ryotaro retrucou. — Eles já chegam, Kaito. Aguenta firme.
Kaito só grunhiu em resposta. Ryotaro olhava de um lado para o outro, seus olhos atentos procurando por qualquer pessoa suspeita. Um sedã preto passou por eles e parou alguns metros à frente. Dele, saiu um homem, um pouco mais velho que Ryotaro, usando um terno de cor vinho. Tinha uma cicatriz na sobrancelha, e era bem mais alto que Aiko, embora fosse mais baixo que Ryotaro.
— Takeru… — Ryotaro disse, seu olhar calmo e frio olhando no fundo dos olhos dele.
— Ryotaro Sato — Takeru disse, sorrindo de canto. — Faz tempo, não é?
— Faz sim. Você fez isso com o Kaito? Por quê?
— Esse moleque me deve uma boa quantia há dois meses. E eu não gosto nem um pouco de caloteiros.
Ryotaro suspirou.
— E se ele não pagar?
— Ah, sabe como é, Sato — Takeru respondeu, dando de ombros. — Digamos que… acidentes acontecem. Um curto circuito, uma queda desajeitada… uma gravidez indesejada.
Ao ouvir aquilo, Ryotaro entendeu na hora o que aquele nojento faria. E ele ousou dizer a última parte olhando diretamente para Aiko. Ryotaro deu um passo à frente, inclinando a cabeça, e sussurrou:
— Chegue perto da Takane… e nem toda a sua família de criminosos vai me impedir de te mandar pro fundo da terra.
Aquilo fez o sorriso de Takeru desaparecer. Ele não estava acostumado a receber ameaças, principalmente vindas de um estudante. Geralmente era ele quem dava as ameaças. Ele estalou o pescoço, e disse, sua voz raivosa:
— Tá achando que eu sou qualquer um, Sato? Eu sou um Yakuza! Um dos mais respeitados! Eu…
— Você é um babaca — Ryotaro interrompeu. — Um babaca nojento, que me dá ânsia só de olhar. Some da minha frente, antes que eu te faça se arrepender.
Aquilo foi o gatilho para Takeru. De fato, ele não tinha muito controle emocional. Ele tentou acertar um soco no rosto de Ryotaro. Aiko, ao ver o movimento, tapou os olhos com as mãos. Porém, o garoto quieto nem se mexeu direito. Nem ao menos tirou as mãos do bolso. Apenas inclinou a cabeça para o lado oposto do golpe, o punho raspando o seu rosto. Um golpe no pescoço. O yakuza caiu na mesma hora.
— E depois dizem que os animes não ensinam nada — Ryotaro disse, limpando a poeira da roupa.
Aiko abaixou as mãos lentamente, esperando pelo pior, e viu o yakuza troglodita caído no chão, sobre os pés de Ryotaro, que o olhava com desprezo, como se tivesse acabado de pisar em uma barata. Cheia de alívio, seus olhos se encheram de lágrimas, e ela correu até ele, o abraçando com força. Ryotaro ficou completamente surpreso e paralisado com o gesto, e ela disse, sua voz embargada:
— Você podia ter se machucado!
O cheiro dela, um perfume delicioso de cerejeira, invadiu as narinas e os sentidos de Ryotaro. Ele não sabia o que fazer com aquilo.
— Eu… eu tô bem, Takane — ele sussurrou, sentindo suas mãos tremerem. Sua voz era suave. — N-não… precisa se preocupar.
Aiko se afastou um pouco, as lágrimas ainda brilhando nos seus olhos dourados, mas um leve rubor subiu por seu rosto ao perceber a intensidade de seu gesto e o local.
— Desculpa, é que… você podia ter se machucado, Ryo-kun!
— Relaxa, não se preocupe com isso. Esse cara não tinha chance nenhuma contra mim.
Não demorou muito para o som das sirenes de uma ambulância e um carro da polícia soarem na noite escura, fazendo Aiko dar um pulinho no lugar. Ryotaro colocou novamente as mãos no bolso, e viu os carros chegando em alta velocidade. Ele acenou para eles, e pararam perto dali. Paramédicos pularam da ambulância, e colocaram Kaito em uma maca. Ao mesmo tempo, dois policiais saíram da viatura, e chegaram perto de Ryotaro e Aiko.
— O que houve por aqui? — perguntou um policial mais velho, com um bloco de notas.
— Esse cara machucou ele — Ryotaro respondeu. — E tentou me machucar e ameaçar minha amiga.
A explicação de Ryotaro foi direta, rápida e entregava Takeru de bandeja. Aiko, ainda meio abalada, confirmou tudo com um aceno firme, embora a sua voz ainda tremesse. Os policiais, ao verem o sujeito desmaiado no chão, trocaram um olhar sério. Eles conheciam o clã. Aquele beco tinha acabado de se tornar um ponto de interesse deles.
Enquanto os policiais discutiam entre si sobre Takeru, Ryotaro e Aiko se afastaram um pouco. A menina segurava as próprias mãos, e olhava ocasionalmente para Ryotaro. O silêncio reinou até que um dos policiais disse para eles irem até a delegacia.
— Você me assustou, Ryo-kun — Aiko sussurrou, após eles pegarem um táxi até lá.
— Desculpa — foi tudo que Ryotaro disse.
Alguns minutos após chegarem na delegacia, os pais de Aiko e o pai de Ryotaro chegaram. Eles haviam sido avisados pelos policiais. Misao e Kenji estavam pálidos e preocupados e Ryu mantinha a expressão calma. Os dois primeiros, ao verem Aiko ilesa e Ryotaro com ela, a tensão em seus rostos diminuiu um pouco, mas a preocupação permaneceu.
— Esse garoto… sempre no centro das confusões, não é? — Kenji sussurrou para a esposa, mas havia um resquício de respeito em sua voz.
— Quem é esse? — Misao perguntou ao ver Ryu.
Ryotaro, ao vê-los, cumprimentou os pais de Aiko e apresentou Ryu para eles, além de apresentar Aiko para o pai. A expressão dele se suavizou ao ver Aiko e descobrir que ela era sua amiga. Quando diziam tudo que sabiam para os policiais, as mãos da menina tremiam constantemente, e o garoto quieto mordeu o lábio mais de uma vez.
Quando terminaram, já era quase uma hora da madrugada. Quando Ryotaro foi se despedir de Aiko, ele viu que ela ainda permanecia ao lado dele, mesmo os pais a chamando. A menina ainda o olhava, mesmo que de relance.
— Takane — ele chamou. — Quer passar a noite na minha casa.
— Hã?! — Aiko fez, pega de surpresa. — E-eu… não quero incomodar…
— Não se preocupe com isso — Ryu disse, com um sorriso gentil. — Minha esposa vai entender, e minha casa é mais perto daqui.
Aiko olhou para os pais, esperando o que eles diriam. Misao e Kenji se olharam, os olhares cúmplices, e Kenji disse:
— Eu confio no Ryotaro. Por mim, tudo bem.

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