Como Ryu havia dito, o apartamento era bem mais perto dali do que Aiko imaginava, com a viagem levando apenas cinco minutos. O prédio era enorme, com quase sessenta andares. Quando chegaram ao apartamento, Megumi os esperava, lendo um livro de arquitetura.
— Finalmente chegaram… — Megumi começou, mas parou ao ver Aiko. — Hã? Ryotaro, quem é essa?
— Mãe, essa é a Aiko Takane — Ryotaro respondeu. — Ela é minha amiga. O pai convidou ela pra passar a noite aqui.
— Muito prazer, senhora Sato — Aiko disse, fazendo uma leve reverência.
Ao ouvir a palavra “amiga”, Megumi ficou muito surpresa. Deixando o livro de lado, caminhou até a menina com um olhar doce e feliz, e segurou as mãos dela. Seus dedos eram finos e eram um pouco frios.
— Amiga do meu filho? — Megumi disse, sorrindo. — Isso é tão bom. Qualquer amigo do Ryotaro é mais que bem vindo aqui. Filho, mostre o quarto de hóspedes. Eu vou preparar um chá.
Ryotaro guiou Aiko até o quarto, que ficava no terceiro andar do apartamento. O quarto era uma suíte ampla, com uma cama queen-size, uma TV enorme, além de cobertores confortáveis e macios e uma vista para os arranha-céus de Marunouchi. Aiko ficou impressionada ao ver como o lugar era limpo e muito bem arrumado.
— É aqui — Ryotaro disse. — Fique à vontade. Qualquer coisa, vai lá no meu quarto. Não tenho o costume de dormir cedo.
— É muito longe? — Aiko perguntou.
— Não muito. É a terceira porta do corredor.
Megumi logo apareceu com uma bandeja, com três xícaras de chá fumegante. Aiko pegou uma xícara, e os outros repetiram o gesto. Enquanto bebiam, a mãe de Ryotaro perguntou muitas coisas para a menina, tentando não ser intrusiva. Aiko respondeu tudo com gentileza, embora ainda sentisse uma pontinha de medo dela. Quando a menina mencionou a sua autofobia sem querer, Megumi inclinou a cabeça, interessada.
— Oh, agora faz sentido — Megumi disse, olhando para Ryotaro. — É por isso que você sempre quer… estar perto de alguém. Já pensou em fazer terapia, querida?
Aiko engasgou com o chá.
— Não… tem necessidade, senhora Sato — Aiko disse, tossindo. — É só… uma coisa bobinha.
— Nada que nos afeta é “bobinho” — Megumi corrigiu. — Acho que você devia lembrar disso às vezes, Ryotaro.
Ryotaro ficou quieto, observando a interação entre as duas mulheres mais importantes da sua vida naquele momento. As duas eram completamente diferentes, com Aiko sendo calor e Megumi precisão fria de inteligência e empatia.
Finalmente, Megumi se levantou e pegou as xícaras.
— Vou deixar vocês dois descansarem. Ryotaro, me faz um favor?
— Claro — Ryotaro respondeu. — Do que precisa?
— Cuide bem da senhorita Aiko, caso ela tenha uma crise de sua fobia — Megumi respondeu, fazendo um cafuné em seus cabelos roxos.
— N-não precisa disso, senhora Sato! — Aiko disse, corando levemente. — E-eu… vou ficar bem! Garanto!
Megumi e Ryotaro olharam para Aiko, depois se entreolharam. Ryotaro deu de ombros, e os dois desejaram boa noite.
Na cozinha, enquanto Megumi lavava as xícaras, um silêncio se instalou. Ela quebrou primeiro:
— A Aiko é muito especial, não é?
Ryotaro desviou o olhar.
— É.
— Eu vi o jeito que ela te olha.
Ele franziu o cenho.
— Como?
Megumi soltou um riso baixo.
— Do mesmo jeito que eu olhava para seu pai, antes de namorarmos.
Ryotaro ficou em silêncio, encarando a mãe com um olhar incrédulo. Por um instante, nada. Depois, como se uma lâmpada acendesse sobre sua cabeça, ele sussurrou:
— Tá me dizendo que a Takane…
Megumi apenas sorriu.
— Você já sabe a resposta.
Rubor subiu pelo pescoço de Ryotaro, chegando às orelhas. Aiko, que mal o conhecia, apaixonada por ele? Não fazia sentido.
Megumi secou as mãos no pano de prato.
— Eu sei o que ela viu em você. Agora me diga: o que você vê nela?
A pergunta o atingiu em cheio. Lembranças vieram em turbilhão: a coragem dela ao enfrentar os valentões, a voz desafinada no karaokê, o amor por Rurouni Kenshin, o jeito boboca de inclinar a cabeça, os olhos dourados, o sorriso que iluminava tudo. Ele demorou, por fim disse:
— Perto dela… me sinto diferente. Mais leve. Como se tudo fizesse sentido.
Hesitou. Cinco segundos.
— Eu… amo quem ela é.
Megumi inclinou a cabeça.
— Você…?
Ryotaro suspirou, longo.
— Eu gosto dela. De verdade. Eu… a amo. Amo como amei o Yahiko, mas… além da amizade.
Megumi sorriu com suavidade, os olhos marejados. Ryotaro ia perguntar o que havia, mas ela o abraçou antes — um abraço forte, que fez suas costelas rangerem.
— Finalmente — disse ela, a voz embargada. — Você encontrou quem te complementa, meu pequeno fantasminha.
— Ai — ele gemeu.
Megumi o soltou, enxugou os olhos com as mãos, depois levou as mãos ao rosto do filho e lhe deu um beijo na testa. Ryotaro sentiu um nó na garganta.
— O que eu faço, mãe? Se ela for recíproca? Eu não sei nem ser amigo direito. Quem dirá um… algo a mais.
A palavra "namorado" ficou presa. Megumi afagou seus cabelos.
— Continue fazendo o que já faz. Sair, conversar, essas coisas. Quando a hora chegar, você fala o que sente.
— E quando vai ser a hora certa?
Ela deu de ombros.
— Pode ser amanhã, mês que vem… ou até hoje.
— Hoje? — ele repetiu, meio ansioso.
— Sim.
Ryotaro balançou a cabeça.
— Hoje não é o melhor momento.
— Eu sei. Você está exausto, e eu também. Que tal irmos dormir?
— É uma boa.
Subiram as escadas em silêncio. Ao passarem pelo quarto de hóspedes, Ryotaro ouviu o som da TV ligada. Acabou desviando o olhar.
Na porta do próprio quarto, deu um beijo na mãe.
No seu quarto, Ryotaro, após retirar seu moletom preto e sua camiseta preta, só ficando com sua calça, se sentou na cama, meio pensativo. Tudo ainda estava bem fresco em sua mente, e o peso do interrogatório e do confronto com Takeru ainda repousava sobre ele. Ele pressionou as têmporas por um instante, e foi até sua escrivaninha. Abrindo uma gaveta, pegou algumas folhas de papel, três lapiseiras, uma borracha e vários lápis de cor.
Olhando para a folha, pensou no que iria desenhar. Um personagem de anime? Era muito superficial. Um cenário de videogame? Muito difícil. Então, ele só conseguiu pensar em uma coisa. Com a lapiseira na mão e um estilo de arte em mente, começou a desenhar. Um risco ali, outro aqui, apaga de lá e desenha de cá, logo os rabiscos formaram uma garota. Os olhos dourados, o sorriso característico, a leve inclinação da cabeça.
Quando terminou, quis escrever uma dedicatória. Mas não sabia ao certo o que escrever. “Para Aiko”? Muito simples e chato. Assim, escreveu, com a sua melhor caligrafia:
“Para a minha Kamiya Kaoru, que trouxe luz e cores para o meu mundo, Aiko Takane. Do seu Kenshin Himura, Ryotaro Sato.”
Ao ver seu trabalho finalizado, Ryotaro sorriu, tocando levemente o papel com a ponta dos dedos. Ele precisava dar aquele desenho para Aiko. Ao olhar o calendário do seu celular, olhou para o mês de junho, para o dia cinco. O aniversário dela, justamente daqui duas semanas. Ainda com um sorriso no rosto, ele sussurrou:
— Já sei.
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Um desenho para Aiko? Que presentão! E agora, o que será que acontece? Comente aí!

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