A noite foi turbulenta para Ryotaro. Sonhos conturbados de abandono e humilhação. Quando acordou, com um sobressalto e com o peito apertando, o garoto sentiu uma coisa forte em seu peito, que ele não sentia há muito tempo: a sensação de vazio e solidão.
Com um esforço gigantesco, se levantou e foi até o banheiro, onde se olhou no espelho. Seus olhos cansados, marcados com olheiras profundas, suspirou. Então, olhou para o corredor, pensando em Aiko. Olhou novamente para o espelho, e suspirou.
— E se Aiko só estiver com pena de mim? — ele sussurrou, tocando o próprio rosto com a ponta dos dedos. — E se minha mãe estiver errada? E se… ela… for embora…?
Seu lábio tremeu, e seus olhos se encheram de lágrimas de novo. O medo crescia, e junto com ele, a culpa. Culpa por Aiko. Por tudo.
Ele saiu do banheiro, e olhou para dentro do quarto de hóspedes. A menina se mexia de um lado para o outro. Provavelmente em um sono inquieto. Assim, ele desceu as escadas até a cozinha. Lá, ele olhou para um suporte de facas de cozinha, e sua respiração acelerou, além das suas mãos começarem a tremer. Ele se aproximou do suporte, e pegou com a mão trêmula uma das facas. Olhando para o próprio reflexo na lâmina, seu choro começando a cair sobre ela.
— Isso… — ele sussurrou, sua voz embargada. — É o certo.
No andar de cima, Aiko acordou de seu sono inquieto. Sentia que algo estava muito errado. Algo com Ryotaro. Assim, ela levantou e foi até seu quarto. Ao chegar na porta de seu quarto, viu que ele não estava lá. Ao olhar para as escadas, viu que havia uma luz ligada. A luz da cozinha. Assim, ela foi até lá, e viu Ryotaro guardando uma faca no suporte.
— Ryotaro…? — Aiko sussurrou, aterrorizada. — O que… o que você fez?
Ryotaro estremeceu levemente ao ouvir a voz dela, e se virou. Seus olhos ainda estavam vermelhos do choro, mas ele parecia não ter feito nada consigo mesmo. Ele apenas sussurrou:
— Quase caí em um velho hábito.
E mostrou o polegar, que tinha um pequeno corte. Aiko arregalou os olhos, entendendo no mesmo instante do que ele estava falando. Ela se aproximou, e pegou a mão dele. Não haviam outros cortes nela além do polegar, porém ao olhar para seu pulso, viu cicatrizes. Cicatrizes velhas, de anos atrás.
— Ryo-kun… por quê? — ela sussurrou. — Por que há tantos cortes no seu pulso?
Ryotaro não respondeu. Apenas desviou o olhar, soltando o ar com um pouco mais de força. Aiko colocou as mãos em sua bochecha, o forçando a olhar para ela, e perguntou de novo o porquê daquilo. Ele apenas sussurrou, sua voz quase inaudível:
— A dor é forte, e… cada um tem um jeito de a aliviar. Esse é meu jeito.
Os olhos de Aiko ficaram lacrimejantes. Eram de tristeza, mas também de raiva. Ela pegou a mão dele com cuidado, como se a mão dele fosse feita de vidro, e olhou novamente para o pulso de Ryotaro. O menino continuou:
— Quando o Yahiko foi embora… tudo perdeu o sentido. Eu tentei aguentar. Mas não deu.
Os olhos de Ryotaro ficaram úmidos de novo, e fechando os olhos com força, ele continuou:
— Um dia, eu cortei com muita força. O corte foi profundo. Se meus pais não tivessem me achado, provavelmente eu teria morrido naquele dia. Depois disso, eu parei.
— Mas e agora? — Aiko perguntou, olhando para o pequeno corte no polegar dele. — Por que agora você quase…?
Ryotaro abriu os olhos. Ele não tentou se conter.
— Você — ele sussurrou, a palavra saindo como uma confissão dolorosa. — Foi você, Takane.
Ela ficou confusa, seu coração apertando.
— Eu? Eu fiz… você querer se machucar?
— Não! — a resposta veio rápida, quase como um grito abafado, e ele segurou a mão da menina com força. — É o oposto. É porque… você importa. Muito. E isso me assusta.
— Por que te assusta?
— Porque… eu tenho medo de ver o brilho nos seus olhos sumir por minha causa. Eu vi você indo embora, ouvindo eles… — e respirando fundo, sussurrou:
— E acreditando. E a faca… sempre trouxe clareza.
Aiko sentiu como se o seu coração tivesse sido esmagado. Ela então puxou Ryotaro para um abraço, envolvendo o garoto com força, enterrando seu rosto no peito dele. Ele ficou rígido por um momento, antes de se desmanchar sobre ela, chorando e soluçando.
— Eu… — ela sussurrou, sua voz fraca. — Eu não sei como te ajudar. Mas eu não vou embora. Você é amado, Ryo-kun.
A palavra “amado” ecoou estranha nos ouvidos dele, mas de certa forma, completamente certa. Era tudo que ele queria, e tudo que sempre ansiou. E ele sabia que, agora, ele era amado por alguém. Alguém cujos olhos eram como ouro puro e polido.
— Obrigado… — ele murmurou contra seus cabelos. — Obrigado por me amar, Aiko. Muito obrigado.
O abraço parecia durar uma eternidade. Ryotaro sentiu o peso do mundo se desfazendo em seus ombros, dissolvido pelo calor e pelos braços firmes de Aiko. Ela não o soltava, e ele não queria soltar. Pela primeira vez em anos, alguém não o abraçava por obrigação ou pena, mas sim por escolha. Por algo que era parecido com… amor.
Quando o pranto dele finalmente cessou, deixando um cansaço profundo e uma paz esquisita. Aiko se afastou o suficiente para olhar em seus olhos. Seus dedos, ainda tremendo um pouco, subiram até seu rosto, limpando os rastros úmidos das suas lágrimas.
— Você não está sozinho, Ryo-kun — ela disse, sua voz um sussurro firme na quietude da madrugada. — E eu não vou deixar você se machucar de novo. A gente vai encontrar outra maneira de trazer as cores para o seu mundo. Juntos.
Ryotaro engoliu em seco, sua garganta doendo de tanto chorar. Ele assentiu, sem nenhuma palavra saindo da sua garganta. Porém, seus olhos cinza, agora limpos e vulneráveis, diziam mais que mil palavras: gratidão, medo e esperança.
— Quando isso acontecer de novo, — Aiko disse, a voz suave. — você vem falar comigo, tá bom?
— Tá — ele sussurrou, finalmente. A promessa saiu áspera, mas era sincera.
— Então vamos lá pra cima — Aiko sugeriu, o puxando para as escadas. — Você precisa descansar. E eu… não quero muito voltar para aquele quarto sozinha.
Ryotaro não protestou. Os dois subiram as escadas até chegarem nos quartos, o som de seus passos abafados pelo carpete grosso da casa. Na frente da porta do quarto de hóspedes, Aiko hesitou.
— Ryo-kun — ela começou, desviando o olhar. — Você acha que… eu posso dormir no seu quarto? Só por hoje. Eu acho que… nós dois precisamos disso.
O coração dele deu um salto. O medo antigo de proximidade e vulnerabilidade voltou por um momento, mas foi rapidamente abafado pelo conforto que a presença dela oferecia.
— Tá bem — ele concordou, sua voz fraca.
Entraram no quarto dele. Aiko fitou o lugar com uma curiosidade suave, seus olhos passando pelos mangás organizados, pelas action figures e seu computador. Nada tinha poeira, exceto uma guitarra esquecida no canto. Ao ver ele pegar um cobertor extra e arrumar um espaço no chão, disse:
— Não precisa dormir no chão.
— É que… — ele começou, mas ela o interrompeu suavemente.
— A cama é bem grande. E eu confio em você.
Aquelas simples palavras fizeram o resquício de resistência desaparecer. Assim, Ryotaro guardou o cobertor no armário, e os dois deitaram na cama, mantendo uma distância respeitosa, porém o espaço entre eles parecia vibrar com uma nova compreensão.
A luz da lua entrava pela janela, iluminando o perfil de Aiko. Ryotaro a observava, a forma como seus cílios longos projetavam sombras em suas bochechas, a suave elevação e queda do seu peito.
— Takane — ele chamou, sua voz um sussurro.
— Hm?
— Obrigado. Por não ter medo de mim.
Ela virou a cabeça no travesseiro, seus olhos âmbar encontrando os dele na penumbra.
— Eu nunca tive medo de você, Ryo-kun. Só tive medo de que você se afastasse.
Ele estendeu a mão, hesitante, e encostou em uma mecha de seu cabelo, tingido de loiro. Era macio como seda.
— Eu não vou me afastar — ele prometeu, dessa vez acreditando em cada sílaba. — Nunca mais.
Ela sorriu, um sorriso pequeno e sonolento, e fechou os olhos. Pouco depois, sua respiração se tornou lenta e regular. Ryotaro sorriu suavemente, e pousou um beijo em sua testa. Ele então olhou para um canto esquecido do seu quarto, para a guitarra preta de design agressivo que seus pais compraram para ele. O menino acabou lembrando de um evento de música que sempre acontecia de três em três meses no colégio. Pela primeira vez, ele não queria desviar o olhar. Enquanto olhava para o instrumento, um ritmo, que começou baixo e aumentou de volume, começou a tocar. Um riff pesado, preciso e viciante ficou mais forte em sua mente. Um riff que ele sabia de cor.
Enquanto se imaginava em cima do palco do auditório do colégio fazendo o solo da música, vendo Aiko o aplaudir de pé, ele enfim adormeceu.
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Que bom que Aiko ajudou o Ryotaro, não é verdade? Será que o Ryotaro vai se apresentar nesse festival? Comente aí!

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