Os dedos de Ryotaro, ásperos de tanto tocar guitarra, estavam quentes contra a pele de Aiko, que era macia — macia demais para alguém como ele tocar sem estragar. O mundo parecia ter encolhido para o espaço entre eles, onde só existiam eles dois. A menina sentiu um arrepio percorrer toda a sua coluna, não de frio, mas da intensidade daquele momento.
— Ryo-kun… — ela conseguiu sussurrar, sua voz embargada pela emoção. As lágrimas brotaram em seus olhos, mas não eram de tristeza.
Aiko sorriu, e Ryotaro também. O garoto quieto abaixou as mãos do rosto dela, e desviando o olhar, murmurou:
— Desculpa… eu acho que… passei dos limites…
…Como sempre.
— Não — Aiko disse rapidamente, segurando seus ombros com cuidado. — Não passou dos limites. Foi… lindo. De… de verdade.
Depois disso, Aiko e Ryotaro voltaram para o pátio, pois o intervalo já iria acabar. Enquanto caminhavam pelos corredores, encontraram dois garotos e uma garota juntos, conversando sobre alguma coisa envolvendo música, vocalista e uma música. Ao verem Aiko e Ryotaro, abaixaram a cabeça e fizeram silêncio, como se prestassem reverência aos seus veteranos.
— Hm? — Ryotaro fez, ao ver o movimento. — Não precisam se curvar assim, meninos.
— Vocês são novos aqui? — Aiko perguntou, com sua característica voz animada. — Bem vindos! Qual o nome de vocês?
Um dos meninos levantou a cabeça, e se apresentou, dizendo:
— Meu nome é Yuta. Yuta Sasaki.
— Me chamo Jun — disse o segundo garoto. — Jun Taniguchi.
— E… — a menina sussurrou, meio tímida. — Me chamo Natália. Natália dos Reis.
— Natália? — Aiko perguntou, o nome saindo estranho de sua boca. — Que nome peculiar!
— É que… eu sou brasileira — a garota disse, com um sorriso encabulado.
— Sério?! — Aiko disse, genuinamente impressionada. — Que legal! É a primeira vez que vejo uma ocidental!
— E… do que vocês estavam falando? — Ryotaro perguntou.
— É sobre o festival de música — Jun respondeu, coçando a nuca. — A gente queria participar. Eu toco bateria, o Yuta baixo e a Natália canta. Só que… não temos um guitarrista.
O coração de Ryotaro disparou na mesma hora. Precisavam de um guitarrista. Logo, o seu sonho de tocar no palco veio com força.
— Que músicas vocês estão pensando em tocar? — Ryotaro perguntou, curioso.
— A gente não decidiu ainda — Yuta respondeu. — Mas… a gente pensava em algo pesado. Algum hino do rock, talvez. Tipo…
— Master of Puppets? — Ryotaro completou.
Os olhos dos três jovens brilharam ao ouvir o nome da música. Como não tinham pensado nisso? Yuta levantou de um salto, e disse:
— Essa mesma! É perfeita! Você… ah, desculpa. Qual o seu nome?
— Ryotaro — o garoto quieto disse, com sua voz entediada. — Ryotaro Sato.
— E eu sou a Aiko Takane! — a menina disse, com sua voz animada.
— Você toca, Ryotaro? — Yuta perguntou, meio desconfiado. — Mesmo?
— Que foi? — ele perguntou em resposta. — Não parece que eu toco? Se quiser, eu provo pra você que toco E canto.
— Sério?! — Jun perguntou, impressionado. — Será que… você poderia nos ajudar?
Ryotaro hesitou por um momento. Porém, ao olhar para Aiko, viu seu olhar orgulhoso e todo o medo se dissipou.
— Se não for incômodo… — Ryotaro sussurrou.
— Incômodo?! — Yuta exclamou, seus olhos brilhando de entusiasmo. — De forma alguma! A gente tava quase desistindo!
Aiko, sentindo uma onda de orgulho tão grande por Ryotaro, deu um passo e se posicionou atrás de Ryotaro. Então, colocou as mãos em cima de seus ombros.
— Eu nunca vi ele tocar, mas já vi ele cantar — ela disse, olhando para os três calouros por cima dos ombros dele. — Sabiam que ele conseguiu cantar Given Up inteira no karaokê e tirar a nota máxima? Ele conseguiu até fazer o grito de 17 segundos!
Os olhos dos três amigos se arregalaram de forma quase cômica. Era como se tivessem acabado de ver uma lenda urbana se tornar realidade. Poucos alunos, se não nenhum, tinham esse recorde nem tinham coragem de tentar.
— Nem ferrando! — Natália exclamou, seu sotaque carregado de admiração. — Nem eu consegui aquilo!
— Pois é, ele conseguiu — Aiko confirmou, com um orgulho que parecia transbordar. — E foi incrível!
— Takane, não é pra tanto — Ryotaro sussurrou, meio corado e constrangido.
— Então, combinado? — Jun perguntou, estendendo a mão. — Você vai nos ajudar? Vai ser nosso guitarrista?
Ryotaro olhou para a mão de Jun, e deu um sorriso de canto. Então, apertou a mão dele, um aperto firme e decisivo.
— Combinado — ele respondeu, assentindo. — Mas se começarem de gracinha, eu vou embora na hora. Eu quero algo sério.
— Certo! — Yuta disse, fazendo um joinha. — A gente vai levar a sério! Prometo!
O sinal do fim do intervalo acabou tocando, interrompendo o clima eufórico. Os três jovens anotaram seus números em um papelzinho e entregaram para Ryotaro e Aiko, e disseram para combinar o primeiro ensaio pelo celular. Assim, os três voltaram para as suas salas. Ryotaro olhou para os números, e depois para Aiko, que lhe disse:
— Eu tô muito orgulhosa de você, Ryo-kun. De verdade.
— Espero não ter cometido um erro — Ryotaro sussurrou, suspirando.
— Não cometeu, não! Você vai arrasar!
E deu um leve beijo em sua bochecha. Ryotaro corou violentamente, arregalando os olhos, e desviou o olhar. Aiko deu um sorrisinho, e os dois andaram pelo corredor para voltar para suas salas. Porém, acabaram encontrando com quatro pessoas. Quem? Mika e Ayase, as amigas de Aiko, além de Mahina e Natsuki.
— Satozinho! — Mahina disse, acenando de leve. — E a Princesa Dourada. Que surpresa agradável, não?
— Aikozinha! — Mika disse, com os braços cruzados. — Onde você tava? Eu e a Ayase estávamos te procurando por todo lugar! E por que você tá junto do Fantasma Negro?
— Oi amigas! — Aiko disse, com seu sorriso social, mas com um brilho de alerta nos olhos. — É que eu e o Ryotaro estávamos conversando no telhado. Aí um grupinho de calouros chamou o Ryotaro pra uma banda pra tocarem no festival. Tem até uma brasileira! Não é legal?
— Não é a toa que esse colégio parece um zoológico — Ayase sussurrou, revirando os olhos. — Quem que colocou uma macaquinha nesse lugar?
— Ayase! — Mika e Aiko disseram em uníssono.
Ayase arregalou os olhos, e tapou a boca. Por um minuto, ninguém falou nada. Ryotaro olhou para todas ali com uma expressão de apreensão contida, apertando levemente a mandíbula e o punho.
— Eu já falei sobre isso com você! — Aiko disse, com um olhar de reprovação e voz irritada. — Já são dois strikes. A próxima, eu conto pro diretor!
— Tá, desculpa migucha — Ayase disse, desviando o olhar.
— Nada disso — Aiko disse, firme. — Já sabe como me chamar nas próximas três semanas.
— Sim… desculpa, Aiko-sama — ela disse, fechando os olhos.
Mahina apenas deu um sorriso de canto, como um imperador assistindo a uma luta no coliseu. Colocando as mãos nas costas, disse:
— Você deveria medir suas palavras, Ayase Yamaguchi. Xenofobia é algo bem feio. Principalmente em um lugar público. Não acha Natsuki?
— S-sim! — a menina disse, com seu típico tom assustado. — Muito feio!
— Vem Ayase — Mika disse, a puxando pela touca da sua blusa. — A gente tem muito o que conversar.
E foram para sua sala. Mahina e Natsuki continuaram com eles.
— Sabe, querida Aiko — Mahina disse, inclinando a cabeça. — Algumas amizades suas deveriam ser… repensadas. Preconceitos aqui não deveriam ser aceitos.
— Eu sei, senhorita Hoshina — Aiko disse, cruzando os braços. — Obrigada pelo conselho, mas eu lido bem com minhas amizades.
— Você quem sabe — Mahina disse, dando de ombros. — Ah, e Satozinho, parabéns pela banda. Estarei torcendo por vocês no festival.
E assim, ela e Natsuki sumiram, voltando para a sala. Ryotaro e Aiko se olharam novamente, de relance, e voltaram a caminhar, com os dois voltando para suas salas. Antes de se separarem, combinaram de se encontrar no portão do colégio.
De volta a sua sala, Ryotaro continuava não prestando atenção na aula. Sua mente vagava em desenhos de Aiko, acordes de guitarra e imagens de ele e sua nova banda se apresentando e com todos os alunos os ovacionando. Por sorte, os professores não quiseram chamar sua atenção.
Por fim, o sinal final tocou. Ryotaro pegou suas coisas com movimentos quase mecânicos, e quando se virou para sair, viu Natsuki indo em sua direção.
— Senhor Ryotaro? — ela perguntou, com a voz tímida.
— Já disse, só Ryotaro está bom — ele respondeu, sua voz um pouco suave e áspera ao mesmo tempo. — Do que precisa, Natsuki?
— E-eu… só queria entregar… uma coisa — ela respondeu, retirando uma caixa de sua bolsa. — É… um presente da senhorita Mahina.
Ryotaro arqueou uma sobrancelha, e pegou a caixa. Era bem leve, de cor prateada, e tinha um laço branco bem amarrado só de enfeite. Ele olhou para o lado, tentando achar Mahina, mas Natsuki disse:
— Hã… a senhorita Mahina já foi embora. Ela… estava com pressa.
— Sei — Ryotaro retrucou.
Ele então abriu a caixa, e dentro havia uma corrente de prata com um pingente de raposa. Era igual ao que Mahina usava, mas de um modelo masculino. Era realmente feita de prata, e os olhos do pingente de raposa eram de diamantes amarelos. As pedras preciosas pareciam dois olhos, que olhavam no fundo da sua alma. Ryotaro inclinou a cabeça, levemente incomodado.
Não parecia ser só um presente.
Parecia que ele tinha sido escolhido.
Havia ainda um pequeno bilhete, que ao ler, dizia:
Para dar sorte a você, Satozinho. Use na sua apresentação. Tenho certeza que vai te dar mais confiança para tocar um heavy metal muito bom no palco, e eu vou ficar muito feliz em te ver usando.
Tenho certeza que você vai brilhar com ele. E eu AMO coisas brilhantes.
M.H.
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Um presente? Da Mahina? O que será que ela está planejando? Comente aí o que você acha!

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