Aiko, ao ouvir aquela simples pergunta, deixou as lágrimas transbordarem. Sua respiração acelerou, e um sorriso, lento e trêmulo, iluminou seu rosto. Ela soltou uma das mãos, e colocou ela na bochecha dele.
— Ryotaro… — ela sussurrou, seu nome saindo como um hino, uma ovação em seus lábios. Ela então perguntou, sua voz embargada mas carregada de uma infinita doçura:
— Por que você acha que eu te diria não a essa oferta? Depois de tudo? Depois que você mostrou quem você realmente é?
Ryotaro arregalou os olhos, seu coração disparando. Aiko continuou:
— Eu também te amo, Ryo-kun. Desde o dia que você salvou o pequeno Yahiko, ou até antes disso. Eu amo o seu silêncio, o seu “miú”, a sua gentileza disfarçada de indiferença, como você se derrete ao ver um gato se esfregar em sua perna. Eu amo tudo em você!
O garoto quieto parou de respirar por um momento, não acreditando de primeira no que Aiko havia achado de lhe dizer.
— Então… você…? — ele sussurrou, seu coração acelerando.
— Sim! — Aiko exclamou, dando um pulinho. — Sim! Mil vezes sim! Eu aceito! Eu aceito ser sua namorada! Mais que tudo na minha vida!
Ele soltou um suspiro, seus olhos também se enchendo de lágrimas. Então, ele sorriu. Um sorriso genuíno e lindo, maior que muitos que ele já havia oferecido. Com o coração alegre de uma forma que ele nem se lembrava de que havia sentido, o menino a abraçou, deixando enfim suas lágrimas caírem.
Eles ficaram abraçados só por cinco minutos, mas pareceu durar cinco horas. Por um momento, nada mais existiu. Só havia eles dois, abraçados, sentindo o calor um do outro. Foi então que Aiko se afastou, só o suficiente para olhá-lo nos olhos.
— Então… — perguntou, meio tímida. — Agora a gente é mesmo um casal?
— Com certeza — Ele enxugou as lágrimas. — A gente tem que contar isso pros nossos pais.
— Minha mãe vai pirar ao saber disso.
— A minha também. Então… pra quem a gente conta primeiro?
— Hmmm… acho que os meus.
— Você quem manda.
Assim, os dois seguiram para a casa dos Takane. Enquanto caminhavam, deram-se as mãos e caminharam com elas entrelaçadas pelas ruas iluminadas pelos postes recém acesos e pelo crepúsculo. Ao chegarem na porta da casa, deram uma última olhada um para o outro antes de entrarem.
Dentro de casa, Misao estava sentada no sofá, vendo TV. Masahiro estava junto dela, e Kenji também. Ao verem os dois entrarem, Misao perguntou:
— Filha! Onde você estava? Estava começando a me preocupar… — e parou ao ver a filha e Ryotaro de mãos dadas. — Aiko? O que aconteceu? Você parece… mais feliz que o normal.
— E por que o tio Ryotaro tá de mãos dadas com você, maninha? — Masahiro perguntou, curioso.
Ryotaro e Aiko se olharam de novo, e respirando fundo, a menina disse:
— Mãe, pai, maninho… esse é o Ryotaro. Vocês o conhecem como meu amigo e até mesmo herói. E é verdade. Ele é tudo isso. Mas hoje, ele é muito mais do que isso. Se tornou alguém muito especial pra mim.
— Espera… — Misao disse, começando a entender.
— Família, eu quero que dêem as boas vindas ao novo membro da família. Ryotaro Sato, o meu namorado!
A declaração de Aiko, dita em voz não tão alta, ressoou como um trovão em dia claro. Por um momento, um silêncio pesado reinou e ninguém se moveu. Misao arregalou os olhos, a boca meio aberta, completamente em choque. Kenji, que quase não demonstrava surpresa, ergueu as sobrancelhas, seu rosto cheio de uma surpresa genuína. Masahiro apenas piscou lentamente, processando a informação. Foi então que o irmão mais novo de Aiko pulou do sofá e gritou:
— O QUE???!!! A MINHA IRMÃ TEM NAMORADO?!! E É O TIO RYOTARO?!!!
A pergunta inocente de Masahiro fez a tensão se quebrar, como um raio de sol depois de uma chuva forte. Misao suspirou profundamente, e um sorriso lento e terno surgiu em seu rosto. Ela colocou o controle da TV na mesa de centro e se levantou.
— Ryotaro — ela chamou, sua voz mais suave que o habitual. — Pode me acompanhar, por favor?
Ryotaro engoliu em seco. Soltou a mão de Aiko, relutante, e seguiu Misao até a cozinha. Aiko até quis o seguir, mas Kenji a impediu, balançando a cabeça negativamente.
Ao chegarem na cozinha, Misao se apoiou no balcão, olhando para Ryotaro. A luz fluorescente da lâmpada iluminava o seu rosto sério.
— Ryotaro — ela começou. — Eu confio muito em minha filha. E sou grata, infinitamente grata pelo que você fez por ela. Você a salvou, verdadeiramente, mais de uma forma.
Ryotaro não interrompeu. Misao, examinando o rosto do garoto, continuou:
— Acontece que ser amigo dela é uma coisa. Ser um namorado… isso é algo muito maior. A Aiko… ela é intensa. Quando decide se apegar, se apega mesmo, com todas as forças. E ela tem medos, medos que nem ela entende direito.
— Eu sei como é, senhora Takane — Ryotaro assentiu, mantendo o contato visual. — Eu também tenho os meus demônios.
— Exato — Misao concordou, cruzando os braços. — Então, eu peço que me prometa uma coisa.
— Qualquer coisa.
— Me prometa que vai proteger ela. Não só de carros ou de criminosos. Que vai cuidar do coração dela. Quando a autofobia bater, quando ela sentir que o mundo inteiro está desabando porque está sozinha… prometa que vai estar com ela. Mesmo que seja só ficar ao lado dela.
Ela parou por um momento, sua respiração ficando trêmula. Quando voltou a falar, sua voz ficou embargada:
— Ela precisa de alguém que esteja com ela, mas também saiba se cuidar. Alguém que ela possa cuidar, e ele cuide também — ela então pegou as mãos de Ryotaro, e com lágrimas nos cantos dos olhos, perguntou:
— Você pode ser esse alguém, Ryotaro?
Ryotaro respirou fundo, sentindo o peso daquela pergunta, um peso assustador e honroso ao mesmo tempo. Ele pensou em Aiko, em seus olhos amáveis cheios de lágrimas e esperança. Ele engoliu em seco, olhando para as mãos de Misao, e sussurrou, meio hesitante:
— Eu prometo… senhora Takane. Eu… não sou bom com palavras, nem sei ser muitas coisas. Mas estar lá… isso eu posso fazer. Isso eu vou fazer. Eu não vou deixar nada nem ninguém apagar essa luz. Nunca.
Misao o observou por um momento, antes do seu rosto sério se dissolver em um sorriso maternal e cheio de alívio.
— Aiko fez uma ótima escolha — ela disse, e então o abraçou, um abraço rápido mas sincero. — Bem vindo à família, Ryotaro.
— Obrigado, senhora Takane — Ryotaro disse, também sorrindo.
— Pare com essa história de “senhora”! — ela disse, rindo e fazendo um cafuné na cabeça do menino. — Me chame só de Misao mesmo. Pode até me chamar de mãe também, se quiser.
Ryotaro piscou algumas vezes. Chamar outra pessoa que não fosse Megumi de mãe? Isso parecia demais para ele.
— E-eu… vou tentar… Misao — Ryotaro gaguejou, coçando a nuca.
Misao ampliou um pouco mais o seu sorriso ao vê-lo meio embananado daquela forma. “Ele é um bom garoto”, pensou ela. “O melhor de todos.”. Assim, ela disse que seria melhor voltarem para a sala.
— Se eu conheço bem minha filha, — ela disse. — ela deve estar quase escalando pelas paredes de tanta ansiedade.
Assim, os dois voltaram para a sala, onde Kenji e Aiko tomavam um chá. Dava pra ver de longe que Aiko estava bem ansiosa, e assim que viu a expressão tranquila de Misao e a aliviada de Ryotaro, sua ansiedade sumiu.
— Tudo bem? — Aiko perguntou.
— Tudo ótimo, minha filha — Misao disse, olhando para Aiko. — O Ryotaro é um ótimo garoto. Ele tem a minha benção.
— Oh, que bom! — Aiko exclamou, deixando a xícara de chá na mesa de centro e abraçando Ryotaro. — Eu sabia que vocês iam gostar dele.
O resto da noite na casa dos Takane foi, por assim dizer, uma chuva de emoções. A tensão inicial se dissolveu em risadas quando Masahiro começou a fazer perguntas para o casal sobre o que eles fariam, agora que estavam oficialmente juntos. Ele chegou até a perguntar se eles iriam morar na casa na árvore que ele havia acabado de planejar de construir.
Ryotaro, com uma paciência que nem ele próprio sabia que tinha, respondeu a todas as perguntas do pequeno. Enquanto isso, Aiko ajudava Misao a lavar a louça, e soltava para ele olhares rápidos e sorrisos secretos.
Por fim, chegou a hora de Ryotaro voltar para casa. Os Takane insistiram para que ele ficasse um pouco mais, mas ele tinha que contar para os pais. Eles também mereciam saber. Na porta da casa, a despedida dele e de Aiko foi diferente de todas as outras.
— Então… até amanhã, namorado? — Aiko perguntou, inclinando a cabeça do seu jeito bobo característico
— Até amanhã… namorada — Ryotaro disse, assentindo e dando um sorriso secreto para ela.
Ele então se inclinou, e depositou um beijo suave na bochecha dela, o que fez a menina corar e sorrir. Ryotaro então prometeu ligar para ela assim que chegasse em casa. Aiko não saiu da frente de casa até o perder de vista, acenando para ele. Quando entrou em casa, entrou em seu quarto se jogou na cama, e abraçando uma de suas almofadas, olhou para o teto com um sorriso no rosto.
Ryotaro, ao chegar em seu apartamento, viu Megumi lendo um livro, enquanto Ryu mexia em alguns processos. Ao verem o filho chegar, Megumi disse:
— Finalmente, Ryotaro. Isso são… — e parou ao ver o rosto do filho, que ainda insista em mostrar um sorriso apaixonado. — Filho? Tudo bem?
— Eu tô ótimo, mãe! — ele disse, seus olhos brilhando.
— Você parece mais animado que o normal — Ryu notou, seu olhar curioso. — Aconteceu algo?
— Era exatamente o que eu queria contar. Mãe, lembra que você disse que a hora certa chegaria cedo ou tarde?
— Lembro — Megumi respondeu, um sorriso começando a se formar. — E ela chegou?
— Chegou. Eu… eu me abri para a Aiko. E ela correspondeu! Agora a gente tá namorando!
Um silêncio absoluto recaiu sobre a casa dos Sato, quebrado somente pelo som do tique taque do relógio na cozinha. Ryu fechou o computador, e Megumi fechou seu livro com um clique suave. Os dois pais olharam para o filho, cujo sorriso tímido e apaixonado ainda iluminava seu rosto, um sorriso que não surgia desde Yahiko.
Megumi foi a primeira a reagir. Como se houvesse uma mola no sofá, ela levantou rapidamente, seus olhos marejando imediatamente, e com um sorriso orgulhoso, andou até o filho e o abraçou, um abraço tão forte que suas costas até estalaram.
— Oh, meu fantasminha — ela disse, sua voz embargada contra o peito dele. — Finalmente! Eu sabia que esse dia chegaria!
Ryu se aproximou, e fez um cafuné na cabeça do filho, com um sorriso raro e emocionado no rosto.
— Então falou pra ela, não é? — ele perguntou.
— Falei — Ryotaro confirmou, sua voz ainda meio rouca pela emoção. — E ela disse sim.
— Claro que ela disse — Megumi disse, se afastando e secando as lágrimas com as costas da mão. — A senhorita Aiko olha pra você como se fosse a única estrela no céu. Isso merece uma comemoração! Fala com a Aiko e chama ela e os pais dela pra jantar aqui em casa!
— Miú?! — Ryotaro engasgou. — Tem certeza, mãe?
— É claro! — Megumi exclamou, dando um beijão na bochecha do filho. — Preciso ver a minha futura nora! E quero muito conhecer os pais dela! Vai lá, vai lá!
E empurrou Ryotaro até as escadas, e correu de volta para Ryu, o abraçando com toda a força. Ryotaro sorriu, e subiu as escadas até seu quarto. Lá, se jogou na cama, e pegou o celular. Haviam algumas mensagens, dentre elas de um grupo da banda que Yuta havia criado, de sua mãe e até de Kaito. Ryotaro, porém, não deu muita importância logo de primeira. Foi logo para o contato de Aiko, e ligou para ela. A menina atendeu quase instantaneamente.
— Oi! — ouviu-se a voz de Aiko do outro lado. — Chegou em casa?
— Cheguei — Ryotaro respondeu. — Contei pros meus pais sobre a gente.
— E o que eles disseram?
— Ficaram muito felizes. Inclusive, minha mãe já tá querendo marcar um jantar. Falou para eu convidar você e sua família.
— A minha mãe ia adorar a sua. Iam se dar super bem.
— E o meu pai ia gostar do seu.
— Será que ainda tá cedo pra chamar seus pais de sogros?
Ryotaro riu.
— Bom, minha mãe já tá te chamando de nora, então… acho que tá valendo.
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E ELES SE AMAM!! Como será que o nosso novo casal vai lidar com essa linda fase? Comente aí!

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