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A Flor Negra da Cerejeira

A Primavera Antes da Noite

A Primavera Antes da Noite

Jan 22, 2026

A manhã seguinte chegou com um dia ensolarado de primavera. Ryotaro acordou sozinho, antes do despertador, e levantou de um pulo da cama. Olhou para o desenho, já em uma moldura preta e delicada e dentro de um pacote pardo de seda com uma fita dourada, e sorriu. Era o dia dela. Era o dia que ele entregaria finalmente o desenho, e cantaria a música que compôs.
Colocando um moletom vermelho vivo, uma calça de moletom preta e larga e tênis brancos, se admirou no espelho por um momento, vendo como ele era feliz agora. Ao descer as escadas, viu que seus pais ainda não haviam acordado, então decidiu grelhar um pouco de peixe e fez uma xícara de chá verde. Depois de comer, foi para a escola.
Enquanto caminhava, decidiu não colocar música nos fones. Em vez disso, olhou como a cidade acordava, e reparou no canto dos pássaros, que eram mais claros no início da manhã. Respirou fundo, e sorriu.
Chegando na escola, encontrou com seu grupo de amigos. Mahina, Natsuki, Kaito, Yuta, Jun, Natália e, no centro de todos, Aiko. Todos os outros desejavam feliz aniversário para a menina, que completava seus humildes 16 anos. Ela, ao ver Ryotaro, acenou de longe, o chamando pelo novo apelido. Claro que ele se aproximou do grupo.
— Oi, Aiko — Ryotaro disse, a abraçando. — Feliz aniversário.
— Obrigada, Ryo-chan — ela disse, retribuindo e dando um beijo na sua bochecha.
— Eu… quero te dar dois presentes. Mas não agora. O primeiro, lá no telhado, no intervalo. O segundo… de noite.
— De noite? — Aiko perguntou, curiosa. — Como assim?
— Eu quero… te levar pra jantar. Só nós dois. Conheço um lugar que você vai amar. Topa?
— Claro! — Aiko exclamou, alegre. — Vou adorar!
Assim, Ryotaro se afastou um pouco do grupo e pegou o celular. Nele, ligou para a mãe, que atendeu depois de três chamadas.
— Oi! — Megumi disse — Do que precisa, filho?
— Oi mãe — ele disse, se recostando a uma parede. — Será que você pode me ajudar numa coisinha?
— Claro. Do que precisa?
— Assim, eu pretendo levar a Aiko pra jantar. Mas quero algo longe dos olhares das pessoas. Sabe aquele campo perto de casa, com um pinheiro enorme?
— Sei.
— Então, eu preciso que você leve algumas coisas pra lá até às… 18 horas. 
— Pode falar — ela disse, pegando papel e caneta.
— Preciso de uma toalha bem grande, três pares de velas (de preferência aromáticas), o violão do pai e algumas comidinhas. Prioriza onigiri e sushi, e também vou precisar de um salmão grelhado. 
— Que mais?
— Hmmm… uma torta de canela com caramelo e um bolo de chocolate não seria nada mal. Se puder colocar isso na lista…
Só se ouviu o som de Megumi riscando o papel. Quando terminou, perguntou:
— Vem cá, filho. Por acaso você tá planejando um piquenique noturno ou um ritual de acasalamento?
A simples pergunta de Megumi fez Ryotaro corar até a raiz do cabelo e o fez se engasgar com o próprio ar. Seus cabelos roxos quase ficaram vermelhos de tanta vergonha.
— Mãe! — ele exclamou, tossindo. — Claro que não! De onde você tirou essa ideia? 
— Tô brincando, filho — Megumi disse, rindo. — Pode deixar que eu levo tudo pra vocês. Às 18 em ponto. 
— Obrigado — Ryotaro agradeceu, suspirando.
Ryotaro desligou o celular, e suspirou de novo. Olhou para cima, e viu as nuvens. Não conseguia entender o porquê de todo mundo fazer essas piadas com ele e Aiko. Os dois namoravam há duas semanas, e já queriam ver um mini Ryotaro ou mini Aiko? O sinal do início das aulas tocou, e respirando pesadamente, o garoto quieto foi para sua sala.
No caminho, passou perto do corredor do segundo ano, onde viu um garoto. Ele usava uma blusa de gola alta, calça preta de tecido leve e tênis pretos, além de possuir cabelos descoloridos e olhos azuis. Ele estava sentado de pernas cruzadas sobre um banco, de pernas cruzadas. “Quem é esse?”, Ryotaro se perguntou em pensamento. Logo, um grupinho de meninas, que o garoto quieto reconheceu como parte do círculo social de Aiko, deram oi para o garoto em uníssono, falando seu nome: Ren. 
Ryotaro arqueou a sobrancelha. Ele não conhecia esse nome. O garoto cumprimentou as garotas com um sorriso perfeito, simétrico. Seus lábios se curvaram de forma perfeitamente alinhada, e seus olhos brilhavam de alguma forma que chegava a ser de alguma forma enfeitiçadora. O garoto quieto apenas resmungou um “ótimo, um perfeitinho”, mas não esperava que o garoto olhasse para ele e iria em sua direção.
— Ah, olá Ryotaro! — Ren disse, se curvando de forma respeitosa. — Bom dia.
— Hã… bom dia — Ryotaro respondeu, também se curvando respeitosamente, embora ainda estivesse meio desconfiado. — Você deve ser o Ren, não é?
— Isso mesmo. Ren Kiryu. Sabe, fiquei sabendo sobre você e a Aiko. Fico muito feliz por vocês.
— Obrigado… eu acho.
— Bom, eu tenho que ir. Se não, a professora Hayashi me dá um sermão. Sabe como ela é, não é?
— É, sei…
Ryotaro viu Ren se afastar, e cruzando os braços, pensou: “Por que eu tô sentindo que esse cara vai ser um problema?” Com esse pensamento em mente, foi para sua sala. O tempo pareceu ter descoberto a fórmula de passar mais devagar, e Ryotaro estava a ponto de fugir das aulas. E… na verdade, foi bem isso que ele fez. Quando o sinal da segunda pra terceira aula tocou e o professor ainda não chegava, o garoto quieto, com a ansiedade roendo seus ossos, saiu da sala o mais rápido que pôde, com o objetivo de ir até a quadra. 
Enquanto isso, com Aiko, a ansiedade também começava a corroer ela por dentro. Seus dedos, cujas unhas estavam em um tamanho razoavelmente grande, faziam um barulhinho ao tamborilar na mesa. Mika e Ayase repararam na ansiedade dela, e a primeira estalou os dedos, tendo uma ideia. Assim, escreveu um bilhete para a amiga, e entregou para ela. Nele, estava escrito: “Topa matar aula e ir lá na quadra?”
Aiko, ao ler o bilhete, olhou para Mika, que sorria de canto para ela. A menina olhou para Ayase, e apontou discretamente, perguntando com seu olhar se ela também iria. Mika assentiu. Aiko ficou pensativa por um momento. Não gostava muito de matar aula, e só fez isso uma vez na vida. Mas era melhor ficar fora da sala com as amigas do que lá dentro, sendo corroída pelo tédio e pela ansiedade. Assim, ela assentiu freneticamente. As três logo saíram da sala, com a desculpa de irem ao banheiro. O professor não fez objeção.
As três andaram pelos corredores, se escondendo de inspetores e de outros professores. Foi quando apareceu Ren no corredor, e assim que o viram, Mika e Ayase o cumprimentaram, dizendo em voz baixa para não alertar os inspetores:
— Bom dia, Ren.
— Oi — Aiko disse, simples e modesta.
— Bom dia, meninas — Ren disse, com seu sorriso perfeito. — Feliz aniversário, senhorita Aiko. 
— Muito obrigada.
O garoto logo foi embora, indo para sua sala. Mika e Ayase se olharam, e cochichavam entre si sobre Ren. Aiko apenas suspirou.
— Do que vocês tanto cochicham? — Aiko perguntou, a voz meio seca. — É sobre o Ren?
— É… — Mika disse, com um ar encantado. — Ele parece ser tão legal…
— E tão bonito… — Ayase completou.
— Aff — Aiko fez, revirando os olhos. — Ele nem é tudo isso.
— E o Fantasma é? — Mika disse, sem pensar. Na mesma hora, tapou a boca e arregalou os olhos.
Aiko lançou um olhar glacial para Mika, que sentiu um arrepio por todo o corpo, como se tivesse acabado de olhar para um espírito.
— O que você disse, Mika Hotaru? — ela sussurrou, sua voz fria como uma faca.
— N-nada! Nada, senhorita Aiko! — Mika gaguejou, assustada.
— Hm. Acho bom — Aiko disse, estreitando os olhos. — Que fique bem claro para as duas: eu não vou aceitar comentários maldosos sobre o Ryotaro ou sobre o nosso relacionamento. Do contrário, vão se ver comigo. Entenderam bem?
— Sim senhora! — Mika e Ayase disseram em uníssono.
Enquanto isso, com Ryotaro, as coisas eram mais tranquilas. Sentado na grama, recostado a uma cerejeira meio envelhecida, ele desenhava com uma caneta azul em um caderno de linha que não usava mais nas aulas. Já havia feito alguns rascunhos, mas não tinham dado certo. Naquele momento, fazia um rascunho de Aiko vestida de maid. Enquanto desenhava, cantava uma música que Natália havia mostrado para ele em um dos ensaios que falava de noite, introspecção e desejo.
“Será que a Aiko ia gostar desse desenho?”, ele pensou, dando umas batidinhas leves com a caneta no queixo. Logo, veio uma imagem de Aiko como uma versão Chibi dela, dando pulinhos e balançando os braços de forma infantil, dizendo como Ryotaro era incrível. “Bom, tudo que eu faço ela acha uma obra de arte. Então, acho que sim.”, pensou em seguida, com um sorriso, enquanto dava os toques finais nas sombras.
Quando terminou, olhou para o desenho finalizado, girando a caneta nos dedos com habilidade. Então, folheou uma das páginas para trás, vendo outro desenho que havia feito de Aiko, dessa vez com uma roupa de coelhinha. Sentiu as bochechas corarem um pouco ao ver o desenho, e desviando o olhar com um sorriso meio bobo, sussurrou simplesmente:
— Acho que esse eu não mostro…
Ele olhou para o desenho da Aiko coelhinha, e colocando o caderno contra o peito ainda aberto, fechou os olhos ainda com o sorriso bobo e apaixonado. “Nunca pensei que pensaria isso, mas eu amo minha namorada.”, ele pensou. Foi quando ouviu um riso atrás dele, bem baixinho e um pouco distante. Era uma risada feminina, que ele desconfiava que conhecia. Quando abriu um dos olhos, só viu a quadra. Foi aí que ouviu uma voz familiar e aguda atrás dele:
— Oi Ryo-chan!
Ryotaro se eriçou todo na mesma hora que ouviu a voz de Aiko. Ao olhar para trás, viu a menina atrás dele, com um sorriso maroto, e suas amigas estavam mais atrás, se olhando de relance e sorrindo.
— Miú?! — Ryotaro fez, apertando com mais força o caderno contra o peito. — Aiko?! Tá fazendo o que aqui?
— Eu pergunto o mesmo, Ryo-chan — ela disse, sentando ao lado dele na árvore. — Eu vim aqui porque a Mika me salvou. E você?
— Eu… vim porque eu estava ansioso — ele disse, desviando o olhar.
— Entendi. E tava desenhando de novo, né? — Aiko indicou, apontando para o caderno. — Posso ver?
— Não! — Ryotaro disse, rapidamente, mas sem grosseria. — É… pessoal.
— Ah, vai guardar segredo de mim? — Aiko disse, fazendo biquinho. — O que a gente falou sobre isso?
— “Não guardar segredo um do outro”? — Ryotaro sussurrou.
— Exato. Então… posso ver? — Aiko disse, seu sorriso mais curioso e se aproximando mais do seu rosto.
Ryotaro suspirou, quase de forma teatral. Aquele biquinho que ela fazia o desarmava quase quanto o seu inclinar de cabeça. Assim, ele abaixou levemente o caderno, não sem antes virar rapidamente a página onde estava o desenho mais constrangedor. Se ele ia mostrar aquele desenho, que fosse o último a ser mostrado. Assim, mostrou para ela o desenho onde ela estava de maid. Aiko, ao ver o desenho, ficou bem surpresa e tapou a boca com as pontas dos dedos.
— Ryo-chan! — ela exclamou, puxando o caderno mais pra perto para ver melhor o desenho. — Que coisa mais fofa!
— É só um rascunho… — Ryotaro sussurrou, desviando o olhar.
— Besteira! Você poderia facilmente vender isso.
— Talvez…
— Mas vem cá: não foi esse desenho que te deixou com aquele sorrisinho, né?
— Miú?
— Nem vem com “miú”. Eu sei que não é.
Ryotaro engoliu em seco. Ele sabia que não tinha como fugir. Ele estava completamente dividido: um lado dele dizia para ele confiar tudo à Aiko, que ele podia confiar totalmente nela. O outro lado? A simples e pura vergonha adolescente.
— É… algo meio íntimo — Ryotaro tentou uma última vez.
— Você já mostrou suas cicatrizes, Ryo-chan — Aiko rebateu, suavemente. — Não pode ser mais íntimo que isso.
O garoto quieto respirou fundo, e folheou as páginas, passando por desenhos dele próprio, de personagens e cenários aleatórios, até chegar no temido desenho. Ele olhou para ela de relance uma última vez, e murmurando um “aí vai”, mostrou o desenho.

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