Cabelos castanho escuros encaracolados e pele morena. Lábios largos e olhos afiados. A menina se chama Cláudia, mas atende por “Fóssil”.
Ninguém se lembra direito de onde veio esse apelido. Alguns dizem que foi num desabafo emocionado em um bar, quando ela cuspiu no chão e disse que seu coração era mais antigo que os fósseis que vendem em museu. Outros juram que foi numa madrugada no telhado invadido da escola, quando ela confessou, com a voz torta de cansaço, que sua noção de tempo havia congelado desde os nove anos. A verdade é que foi em uma festa junina da escola, quando uma menina que não gostava dela a apontou o dedo e gritou. - Olha a cara dessa múmia! - Ela apenas respondeu. - Não sou múmia, sou fóssil. – Riram e depois se esqueceram. Todos, menos ela. Fóssil ficou. Soava certo. Soava velho. Soava mórbido. Combinava exatamente com ela.
Uma professora de História do ensino médio dizia que Cláudia tinha uma cabeça interessante, mas um comportamento disperso. Cláudia não discordava. Costumava desenhar cidades tortas e destruídas nas margens das apostilas. Uma vez, foi flagrada escrevendo uma carta para si mesma no futuro e a teve exposta para toda a turma pela professora de redação, uma humilhação que guarda no fundo das memórias.
Ela tinha 17 anos e a mente de quem já sobreviveu ao dobro disso. Nunca pode ver como era seu rosto sem olheiras. O cabelo desengonçado e uma mochila velha preta desbotada com um chaveiro de um coelho comicamente morto. Andava rápido, mas olhava devagar. Astuta, discreta.
A mãe, que se chamava Renata, era uma mulher de frases curtas e longos silêncios. Trabalhava como cuidadora de idosos e colecionava relacionamentos com homens que falavam alto demais ou batiam em paredes.
Quando tinha nove anos, Cláudia presenciou um escape da mãe. Não disse nada. A mulher saiu com uma mala azul-escura e voltou dois dias depois com os olhos fundos e escuros, segurando uma garrafa de vinho barato. Nessa época, Cláudia começou a esconder objetos dentro do armário. Figurinhas e bonecos minúsculos. Dizia para si mesma que, caso tudo sumisse, ainda teria seu mundo enterrado entre as roupas.
O mais recente era um tal de Zeca, que tinha um carro elétrico e as mãos sempre úmidas. Cláudia não gostava dele. Sentia as mãos dele mesmo quando ele não estava por perto. Aquela sensação de que alguém passa por você mesmo quando a sala já está vazia. Zeca gostava de ficar em silêncio perto de Cláudia. Sentava na ponta do sofá e a olhava como quem observa um animal indefeso. Nunca tocou nela, mas suas palavras vinham carregadas de malícia. Um dia, disse. - Você já é quase mulher, hein? - E riu com sua boca desdentada. A mãe, na cozinha, fingiu não ouvir.
Foi numa segunda-feira de nuvens quentes que a mãe chegou com a notícia:
- Vamos pra Lisboa, filha.
Cláudia franziu a testa. Nunca ninguém tinha mencionado Lisboa naquela casa. Mal mencionavam algo. A maioria das conversas era feita de sopros, ruídos e portas se abrindo. Mas ali estava: Lisboa. Cidade de azulejos e promessas com um nome bonito.
- Lisboa? – Indaga.
- O Zeca tem uma proposta lá. Trabalho fixo. A gente vai poder ter finalmente um apartamento com varanda.
Cláudia tentou imaginar o apartamento com varanda. Era uma imagem muito distante, difícil de projetar. Então, ela não conseguiu dizer nada. Apenas assentiu com um olhar esbugalhado.
Passaram três dias separando coisas.
A mãe a mandou escolher o que queria levar. Cláudia obviamente pensou primeiro nos sagrados bonequinhos e as figurinhas. Depois então colocou duas calças jeans, quatro camisetas, um casaco, a escova de dente, um porta-retrato de seu velho cachorro já falecido e o diário que ela escrevia em noites insones quando delirava saber escrever bem. Tudo que cabe numa sacola de mercado.
Na sexta-feira, acordaram cedo. A mãe estava estranhamente animada, algo raramente visto. Passou batom e perfume. Sorria como uma modelo de anúncio da Colgate.
No caminho pra rodoviária, Cláudia não disse uma palavra. Seu mundo parecia afundar devagar ao seu redor. Os ônibus, os postes e até mesmo o raso céu. A mãe mastigava chiclete e cantarolava uma música sertaneja popular.
Zeca não foi.
Chegaram ao guichê.
A mãe comprou uma passagem só de ida. Entregou o bilhete para si mesma. Não havia outro nome. Não havia segundo destino.
Cláudia esperou. Olhou em volta. Os bancos azuis da rodoviária enferrujados, alguém dormia tentando se deitar no banco e escorregando aos poucos.
- Toma - disse a mãe, entregando a ela uma nota de cinquenta reais. - Compra uma pizza, se quiser.
Depois, abaixando-se devagar, beijou a testa da filha. O beijo não foi carinhoso, foi como um carimbo. Um rito de passagem. Algo protocolar e frio.
- Agora tu vira gente. – Concluiu, enquanto ia embora.
Cláudia ficou parada, com a nota na mão trêmula. Com a sacola de mercado em seu colo. Seu mundo afundando de vez.
Não chorou. Ela nunca chorava quando os outros queriam que ela chorasse. Só chorava de noite, quando ninguém poderia ver. Quando a tristeza pedia alguma saída. Em outras horas, chorava só por dentro. O olho seco, o peito ainda destruído.
Sentada ali no banco com a sacola no colo, começou a divagar entre as lembranças. A vizinha festeira da casa ao lado. A canela de arroz doce da Dona Mira. O sangue do joelho ralado de quando caiu da bicicleta que seu ausente pai jogou fora. Tudo vinha junto, uma enxurrada de coisas miúdas que pareciam não fazer sentido no momento.
Pensava em encarar a mãe mais uma vez e perguntar. - Se tu não soube cuidar de mim, por que me fez? Foi por raiva? Tédio? Ego? Ou fui um acidente?- Ela só pensa que seria capaz disso, mas suas palavras engasgariam e ela sairia correndo em tal situação.
No banco ao lado, um homem de meia idade com um boné "Jesus Salva" mastigava amendoins como se estivesse roendo ossos. Olhou pra ela com olhos miúdos, quase escondidos entre as rugas.
- Fugiu de casa, foi? - perguntou, a voz áspera como um fósforo riscado.
Cláudia demorou a perceber que era com ela. Engoliu seco. Fez um “não” com a cabeça.
- Ah, pensei. - Ele mastigou mais um punhado e limpou os dedos no jeans encardido. - Quando minha filha fugiu, deixou um bilhete dizendo “Vou atrás do meu sonho”. — Ele mastigou alto, com gosto. — Voltou dois dias depois porque descobriu que “sonho” em São Paulo custa sete reais no boteco e ainda vem frio.
Ela soltou um risinho fraco, sem conseguir evitar.
- Boa sorte aí, ó – O homem dizia enquanto ia embora levantando com dificuldade e batendo no joelho como quem acorda um osso.
Cláudia olhou em volta de novo. A rodoviária parecia uma caverna iluminada demais. O teto rangia, os alto-falantes sibilavam nomes de cidades como se fossem feitiços mal pronunciados.
Ficou ali no banco um tempo incalculável de cabeça baixa, sentindo o sol morno se depositar sobre os ombros. Um casal discutia baixinho. Um pombo mancava entre migalhas e cigarros esmagados.
Depois levantou. Andou torta até o banheiro, com as pernas doendo.
Vomitou.
Depois riu.
Depois chorou.
Jogou a nota de cinquenta no lixo. Depois voltou, pegou de novo e a dobrou bem pequena e colocou dentro do chaveiro do coelho morto. Decidiu carregar aquilo com ela.
O recibo do abandono.
E saiu andando. Sem mapa. Sem destino. Só com o nome novo martelando dentro da cabeça:
Fóssil...
Fóssil.
Fóssil!

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