O quartinho da Tia Dora ficava no fundo de uma casa com madeiras podres e um cachorro histérico. Era um espaço improvisado, como uma dispensa que alguém desistiu de organizar. A janela fora pintada de preto com spray.
- Luz demais atrapalha o raciocínio, menina! - A tia Dora, que a acolheu, decretava com um cigarro apagado pendendo do canto da boca.
Cláudia passou os primeiros dias sentada no colchão murcho no chão, de costas para a parede, observando os rabiscos antigos no reboco que pareciam pinturas rupestres. Nomes riscados, datas sem século e frases mal formuladas. Estava ali, realocada. A palavra “acolhida” parecia bonita demais para a situação. Era como se alguém tivesse varrido uma sujeira para debaixo do tapete da cidade. Ela era a sujeira.
Tia Dora não era má, apenas excêntrica. Viúva de dois maridos, dizia que não tinha tempo para “problemas de jovem”. Apesar disso, oferecia comida, teto e avisos. Era o suficiente.
- Pode ficar aí até resolver tua vida - Ela disse na primeira noite. - Só não me aparece grávida, drogada ou roubando minhas calcinhas.
Cláudia respondeu com um aceno quase invisível. Não sabia o que dizer.
Logo soube que não voltaria pra escola. Oficialmente, “não havia mais matrícula”. Extraoficialmente, haviam lhe tirado da lista depois de uma denúncia de furto — uma mochila com livros e chocolates caros. Não foi ela, mas num mundo onde o culpado era sempre o rosto mais triste, Cláudia era campeã.
A diretora a aconselhou. - Alguém como você precisa de internação psiquiátrica, não de provas bimestrais.
E pronto. Se tornou um nome riscado dos documentos. Uma página arrancada.
Passava os dias zanzando por ruas laterais e calçadas rachadas.
- Você tem cara de quem já morreu e voltou! - Disse um menino chupando pirulito.
- Só voltei porque esqueci minha dignidade. - Respondeu.
O garoto riu sem entender, no futuro entenderá.
Claúdia se sentia um pouco mais leve fora da casa de sua tia Dora, assim a incomodava menos com sua presença. Descobria os buracos da cidade como quem mapeia a si mesma: uma depressão interna de danos, rachaduras e vazios.
Foi nessas andanças que conheceu Rafa.
Rafa tinha 16 anos, mas falava como quem já viveu em dois séculos diferentes. Tinha o rosto chupado e moreno, cachos desalinhados e as bochechas com cicatrizes de acne. Sempre usava a mesma blusa listrada caipira que parecia ter passado por guerras. Seus olhos, fundos como poço.
Se conheceram numa sucataria abandonada, onde Cláudia costumava sentar para desenhar na terra e observar as formigas carregando folhas.
- Opa! – Rafa apareceu, como se fosse um cumprimento natural e ela já fosse uma conhecida.
Cláudia se manteve em silêncio.
Rafa carregava dois potes de azeitona. Ao invés de azeitonas, dentro havia corpos de baratas.
- Olha essa aqui. Morreu de amor. Vê a pose.
A barata estava de lado, as patinhas levemente erguidas.
- Essa parece que levou um choque - Ele apontou para outra. - Aquela ali tentou fugir da morte, mas tropeçou. Um mártir.
Cláudia riu. Uma risada tímida, quase tossida. A primeira desde o surto no banheiro da rodoviária.
- Você coleciona isso?
- Claro. Eu sou o necrocurador das pequenas causas. Cada uma tem nome, causa mortis e um epitáfio. Essa aqui, por exemplo, se chamava Dandara e morreu porque cansou da humanidade. Eu a entendo.
Rafa falava como se cada frase estivesse sendo improvisada para ser mais absurda que a outra. E talvez estivesse. Havia algo na presença dele que quebrava o ar denso, mas sem trazer leveza. Era como um ventilador velho empoeirado que apenas empurrava o calor para outro canto.
Começaram a se encontrar sem combinar. Nas praças vazias, na sucataria, na frente de uma igreja onde o pastor desafinado achava que sua fé o conceberia o dom de cantar bem num volumoso microfone. Às vezes, desenhavam juntos com lápis redondos e desgastados em folhas amassadas. Outras vezes, só ficavam em silêncio. E era um silêncio bom, cúmplice.
- Sabe - Ele disse certa tarde. - Tem gente que acha que inseto é praga, mas inseto é só pequeno demais pra ser ouvido. Igual gente como a gente.
Cláudia contou a ele sobre o apelido Fóssil, sobre o abandono da mãe, seu ausente pai, os padrastos, o falecido cachorro e tudo mais que poderia lembrar.
- Puxa, Fóssil. Te largaram que nem se larga um cachorro velho na beira da estrada... - Rafa disse franzindo a testa, simpatizando com a história de Cláudia. - Mas tu tem cara de quem morde se alguém tentar te atropelar. – Tentava a descontrair.
Ela ria de novo. - Eu não mordo. Eu corro.
- Eu também. Por isso minhas pernas vivem cansadas.
Certa vez, enquanto observavam formigas tentando carregar uma barata morta, Rafa falou. - Você já tentou se esconder dentro de um armário até todo mundo esquecer de você?
Cláudia não respondeu, porém sabia do que ele falava.
- Às vezes não tenho palavras para como descrever o que sinto. – Cláudia muda de assunto.
- Entendo, Fóssil. Eu às vezes invento palavras que ainda não existiam para descrever sentimentos muito específicos. Sabe, tipo esse negócio de não querer morrer, mas também não saber viver. – disse Rafa, deitado com a cabeça encostada no muro da sucataria.
- Tipo... quando você respira, mas é só por obrigação?
- Isso.
Rafa parava pra pensar por alguns segundos. - Podia ser... respensar.
- Gostei. Eu sou uma respensadora compulsiva.
Rafa sorriu, pegando uma graveto de galho quebrado de árvore seca e desenhando um círculo na terra.
- Vamos fazer um dicionário pessoal. Palavras que não existem porque ninguém teve coragem de expressar.
- Primeira palavra: Respensar. - Disse Cláudia. - Substantivo. Ato de continuar vivo por falta de opção fácil melhor.
- Boa. – Os olhos de Rafa brilham. - Segunda: Segurnão. A falta de segurança. Aquela sensação de quando você tá num lugar onde era pra se sentir seguro... mas não tá.
- Tipo o quarto da Tia Dora?
- Tipo o mundo inteiro.
...
- Terceira palavra. Infelículia. É quando a tristeza gruda tanto no olho que você começa a achar bonito o que machuca. Como síndrome de Estocolmo.
- Ótimo. – Rafa elogia.
O sol batia oblíquo na sucataria. Um gato sem olho passou mancando pela rua. O dia seguia. Eles também.
- Fóssil, sabe qual a parte ruim de inventar palavras? - Perguntou Rafa, mais tarde.
- Qual?
- É que depois que você nomeia um sentimento, ele fica impossível de ignorar.
- Melhor do que fingir que ele não existe. - Respondeu Cláudia.
Ficaram em silêncio, colecionando os nomes novos como coletavam as baratas. Palavras que ninguém mais diria. Mas que, para eles, moldavam seus interiores.
As tardes se empilhavam umas sobre as outras.
O tempo virou um tijolo úmido.
Nenhuma notícia da mãe.
Nenhuma palavra sobre Lisboa.
Tia Dora às vezes batia na porta e deixava pratos com arroz, feijão e um bife duro. Às vezes, ao mastigar o arroz duro da tia Dora, Cláudia lembrava dos sanduíches de presunto e requeijão que a mãe fazia quando as duas estavam “de bem”. Outras vezes, a Tia Dora só trazia o prato com biscoitos Cream Cracker.
A renda da casa era mínima, aposentadoria.
Rafa apareceu certa vez com um presente, alicate.
- Pra cortar qualquer coisa que te prenda, Fóssil. - Explicou.
Cláudia segurou o objeto com estranheza.
- É velho, mas funciona. Dá pra cortar arame, corrente e até essas algemas invisíveis que a gente tanto carrega.
- Tá me dando uma arma, Rafa?
- Tô te dando uma fuga. Nem que seja simbólica.
Ela guardou o alicate dentro do chaveiro do coelho morto. Agora, ali dentro, havia cinquenta reais dobrados e um alicate ferrado. Um manual e incentivo à sobrevivência simbólico.
E assim seguiam: dois jovens perdidos entre as ruínas contemporâneas. Rindo pouco, mas rindo juntos. Sobrevivendo aos dias seguintes como se caminhassem pelo campo minado.
Em uma de suas brincadeiras, jogavam “a pior frase do mundo”. Cada um tinha que inventar uma frase que faria alguém desistir de viver.
- Você foi promovido a estagiário vitalício.
- Seu parente vai te processar.
E por aí iam.
Rafa até trouxe um caderno sem capa com os cantos comidos pelo tempo e fez dele o dicionário entre eles.
A primeira página: “Palavras são casulos. Quando o mundo ficar insuportável, entra dentro de uma e espera.”
Cláudia virou algumas folhas. Lá estavam.
· Sarnúvio: saudade que coça.
· Grelívia: medo de acordar com a alma de outra pessoa.
· Luzúndio: barulho que o peito faz quando ninguém mais acredita em você.
· Carovento: abraço de alguém que você queria esquecer.
Ela pegou um lápis e criou uma.
· Traquerão: lugar dentro do cérebro onde moram os abraços que não aconteceram.
Os dois riram. Não foi uma risada alta. Foi uma daquelas que parece espirro contido, que sai pelo nariz.
- Acho que a gente é tipo um museu de bizarrices sentimentais. Cada um com suas exibições de seus traumas.
- E as baratas?
- São os visitantes, Fóssil. Observam, julgam e depois morrem também.
E os dois riram. Dessa vez, uma risada mais forte.
Quase viva.
- Não sou creche de órfã. - Murmurou a tia, certa manhã ao entregar ao botar um prato de Cream Cracker na mesa de madeira, achando que sua sobrinha ainda estava dormindo.
Cláudia pensou naquilo como um lembrete de prazo invisível.

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