Não foi por dinheiro.
Foi por silêncio.
Foi por trégua.
Foi por poder dormir sem o estômago doendo como se estivesse roendo a si mesmo por dentro. Foi para amaciar o mundo em volta.
As pessoas pensam que há um momento claro, um limite, uma linha que se cruza, como um botão que se aperta, e pronto. Virou isso ou aquilo. Mas não. A vida é feita de pequenas quedas, tropeços que ninguém vê, decisões tomadas no modo automático quando nossa mente embaça. E quando Cláudia se deu conta, já era mais fácil oferecer o corpo do que explicar por que chorava com o som de garrafas de vidro sendo jogadas num cesto de lixo.
Ela achava que ninguém notava, mas notavam.
Certo dia, uma mulher da feira olhou para ela e disse, como quem joga um balde d’água fria:
- Tá andando com a sombra dos outros nas costas, menina.
Não respondeu. Só abaixou rosto e seguiu andando.
A maioria dos homens que a procuravam não a chamavam pelo nome. Alguns a chamavam de coisinha linda, outros de vida. O apelido vida a incomodava mais que qualquer outro. Parecia uma provocação irônica e sutil. Ela queria poder perguntar. “Vida de quem?“. Mas nunca perguntou.
O ponto era uma esquina com uma banca de jornal prestes a falir fechada e uma árvore torta. O chão cheirava a urina e cerveja azeda. Às vezes, ficava horas ali e ninguém parava. Às vezes, vinham em fila, como uma horta de zumbis de cérebros esmagados e rostos deformados.
Quando voltava para o quartinho calabouço da tia Dora, o maior desafio era tomar banho, a água fria era um tapa da realidade e ela desistia. Enrolava-se no cobertor fino e com furos e ficava olhando o teto escuro, imaginando quantas camadas de tinta seriam necessárias pra cobrir o que ela sentia.
Rafa não sabia. Não ainda.
Ele estava desconfiado de sua recente ausência e pelo fato de Claúdia ter surgido com objetos e roupas novas sendo que ela não estava a trabalhar e não era mimada pela tia. Tinha olhos tanto atentos quanto fundos.
- Você tem andado por onde, Fóssil?
- Por aí.
- E o “por aí” tem cheiro de quê?
...
- Cheiro de esgoto e desinfetante.
Ele não insistiu. Em vez disso, sentou-se ao lado dela, puxou uma folha de caderno amassada e começou a desenhar uma barata com asas de anjo.
- Essa aqui vai pro céu direto, sem escalas. - Falou.
E ela riu. Uma risada seca e melancólica, mas ainda risada.
Sexta, fria como o resto da semana, porém mais barulhenta que as demais. Foi em uma dessas sextas que Claúdia conheceu Matias.
Estava sentada na praça, o vento mexendo nos cabelos e os postes estalando como se prestes a apagar. Ele apareceu de terno, belo como um galã de novela. Era limpo demais pra ser da rua. Claúdia tinha seu presentado alicate para a livrar de qualquer perigo. Tinha algo único no homem. Como se fosse feito de cera, mas respirasse.
- Tá esperando alguém, moça? - Ele perguntou com curiosidade.
Ela olhou, o avaliou e não respondeu.
Ele se sentou no banco ao lado dela, mas com uma distância. Acendeu um cigarro e deixou a fumaça ir na direção contrária pelo vento.
- Não se assuste - Disse. - Não vim “comprar” nada.
Ela arqueou a sobrancelha. Surpresa. Aquilo era novo.
- Vim oferecer uma saída - Continuou. - Pra longe daqui. Europa.
Ela riu. Essa fala era familiar para ela, mas a visão da fumaça embaçada sendo puxada pelo vento a distraía de lembrar de onde. Soltava uma risada tossida.
- Europa? Tu acha que minha cara dá visto? – Ela entra na brincadeira.
- Eu conheço gente, tenho meus contatos. Não é difícil como parece, é sério.
- Você parece um vendedor de colchão tentando me empurrar a cama cara dos sonhos.
Ele não sorriu.
Tinha o rosto sério e formal demais. E um detalhe que a perturbava: ele não piscava hora nenhuma.
- Quarto só teu, tudo pago, comida, roupas e tudo mais. Além de um bom ambiente com gente decente.
Ela quis acreditar.
É difícil não acreditar em alguém que não pisca. Dá a impressão de que está sempre dizendo a verdade, ou escondendo uma muito bem.
- Por que eu?
Ele respondeu de pronto, como um ator que decorou o roteiro. - Porque você tem cara de quem ainda acredita. E gente assim rende.
Ela sentiu um arrepio. Não sabia se isso foi elogio ou ameaça. Mas havia algo ali. Uma chance. Uma escada. Talvez falsa, talvez podre. Mas escada. E qualquer escada pra quem tá no fundo de um calabouço é lucro.
- Pensa. - Ele disse, se levantando. - Tô por aqui até sexta. Depois disso, perco o voo.
E saiu. Sem piscar. Sem olhar pra trás.
Cláudia ficou ali, sentada no banco, ouvindo o vento brincar com folhas secas. Tentou lembrar da última vez que alguém lhe ofereceu alguma coisa sem cobrar. Não lembrava. Mesmo aquele alicate de Rafa era uma cobrança simbólica - um chamado à fuga, à coragem, à reconstrução.
Voltou pra casa e se deitou sem banho.
A imagem de Matias ficou em sua cabeça como um quadro pintado à óleo, mas mal iluminado.
Pensou em contar ao Rafa, mas como contar algo que nem ela mesma entendia?
No dia seguinte, Rafa apareceu com uma nova palavra.
- "Zimpalheco."
- Quê?
- Zimpalheco. É o nome da sensação de quando você quer sumir, mas também quer ser achado. Eu senti hoje de manhã.
Ela sorriu, mas não na mesma intensidade de antes. Mas ainda podia entender que as palavras inventadas de Rafa diziam mais que as reais.
Talvez fosse isso. Talvez ela estivesse prestes a virar um zimpalheco. Ou pior.
Uma escada falsa.
Daquelas que sobem, sobem, e quando você olha pra baixo... percebe que está no mesmo lugar.
Ou mais fundo ainda.
Como desculpas pela sua ausência, Claúdia presenteou Rafa com um brinco preto de pressão.
Rafa ria com seus dentes tortos e comicamente posava no espelho.
- O que achou? – Ela perguntava timidamente, com medo de desaprovação.
- Agravoce. Agradecimento doce.
- Como brigado, né? Que soa como brigadeiro.
Os dois sorriam em sintonia.

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