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Cárpulo (PT-BR)

Capítulo 4: Janelas Fechadas

Capítulo 4: Janelas Fechadas

Jan 25, 2026

This content is intended for mature audiences for the following reasons.

  • •  Abuse - Physical and/or Emotional
  • •  Mental Health Topics
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Foi quase mágico. Um instante, ela ainda estava ali. Brasil, cheiro de fritura e roupa suada. E, no seguinte, sentada no aeroporto com cheiro de ar-condicionado e plástico novo.

Ouvindo as multidões de pessoas falantes rasgar pensamentos. O banco desconfortável e a atendente com sorriso profissional. Parecia um portal para um outro mundo. Como se a decolagem fosse anestesiar a lembrança de quem ela foi.

Ela ainda pensava em Rafa.

Queria ter dado um adeus. Queria ter deixado uma barata pra ele. Uma especial, com nome, causa mortis e com bilhete escondido, mas o tempo é brutal e escasso. E agora era isso, nuvens, plástico e Europa.

Na sua cabeça, Matias estaria no aeroporto. Com uma plaquinha talvez. Ou flores baratas. Ou só o mesmo rosto liso e o mesmo olhar que não piscava. Era estranho pensar que tinha sido convencida a aceitar isso por aquele olhar.

Mas não havia Matias.

O que havia era uma mulher de uns cinquenta anos, com roupas sociais e olhos de quem não acredita em magia desde os doze. Estava ao lado de um homem mais jovem que segurava uma prancheta.

Os dois se aproximaram, chamando pelo nome que quase já não era mais dela. - Cláudia Figueiredo?

Ela hesitou, sentiu calafrios. Quase não respondeu. Mas respondeu. - Sim.

- Você pode nos acompanhar, por favor?

Pensou em correr, mas pra onde?

Foi levada pra uma salinha com paredes brancas demais. Café instantâneo, mesa de metal e cadeiras frias.

Fizeram perguntas que doíam mais que exame de sangue. Nome. Idade. Onde estão seus pais. Onde está seu passaporte. O que veio fazer aqui.

Ela tentava responder. Mas a língua pesava. E os olhos deles nunca piscavam.

- Você é menor de idade. Não tem documentos válidos e está sozinha.

Cláudia mal podia lembrar que ainda tinha apenas 17 anos. - Eu vim com um amigo. - Tentou inutilmente argumentar. - Matias. Ele disse que…

- Matias quem?

...

- Ele disse que eu ia ter um quarto. Um trabalho decente. Ele…

- Cláudia, você está sob medida de proteção do Estado. Vamos cuidar de você agora.

A palavra “cuidar” a deu náusea.

Foi levada num carro escuro. Não sabia se era noite ou se só tinham coberto as janelas. Tudo tinha cheiro de desinfetante e ausência. Primeiro, um centro de acolhimento, onde as outras meninas pareciam bonecas jogadas. Umas desenhavam com lápis sem ponta. Outras lambiam a parede. Duas se beijavam com os olhos abertos. Cláudia tentou dormir, mas o colchão era de um plástico barulhento e o travesseiro cheirava a vômito seco.

Dois dias depois, a transferência.

Chamava-se Luz Jovem.

Um nome tão falso que doía. Porque ali, não havia luz alguma. Nem juventude. Só um branco hospitalar que feria os olhos e um silêncio imposto, como se cada som fosse uma ameaça.

Na entrada, rasparam suas unhas. Tiraram seus brincos. Levaram suas roupas e devolveram um uniforme azul-claro com etiquetas que pinicavam. Recebeu um número: 23A. Não mais Cláudia. Não mais Fóssil. Agora era isso, um código de barras com pernas.

 

Deram a ela uma ficha com um cronograma:

 

  • 06:00 – Acordar
  • 06:15 – Higiene
  • 06:30 – Café
  • 07:00 – Medicação
  • 07:30 – Sessão coletiva
  • 10:00 – Recreação supervisionada
  • 12:00 – Almoço
  • 12:30 – Descanso obrigatório
  • 14:00 – Sessão individual
  • 16:00 – Lanche
  • 17:00 – Medicação
  • 17:30 – Jantar
  • 18:00 – Tempo livre (restrito)
  • 20:00 – Medicação noturna
  • 20:30 – Dormir

 

Cláudia lia aquilo como se estivesse lendo a sentença de morte do próprio tempo.

As janelas estavam todas fechadas, lacradas com um tipo de película fosca. Não se via nada lá fora. Nem céu, nem sombra. Só uma luz falsa, difusa, como se o mundo tivesse sido desligado e colocado em modo neutro.

Os dias começaram a escorrer.

Um igual ao outro.

Todos envoltos na névoa dos remédios.

 

Começaram com ansiolíticos leves. Depois, haloperidol, risperidona, olanzapina. Cada dose a deixava mais mole, mais lenta, mais longe. Ela teve uma crise. Era previsível.

No terceiro dia, tentou gritar. Rasgar a gola do uniforme. Foi contida por dois enfermeiros e uma técnica. Recebeu uma injeção no glúteo que a fez apagar em menos de três minutos.

Acordou com a boca seca, a língua pastosa e o pensamento tão longe que não reconhecia o próprio nome.

Ali dentro o tempo não era contado em horas, era medido pelos comprimidos.

 

Ela começou a esquecer palavras.

Tentou falar com uma menina do quarto ao lado e não lembrava mais o nome da fruta que mais gostava. Tentou escrever num guardanapo, porém o lápis parecia fugir da sua mão.

Tentou sonhar, todavia os sonhos vinham em preto e branco. Filmes antigos, borrados e sem som.

 

Rafa.

Ela sonhava com ele, mas nem sempre o reconhecia. Às vezes ele era só um vulto moreno com um pote de baratas na mão. Às vezes era um ruído, uma sílaba, uma lembrança moída.

Ela tentava não ouvir, mas sonhava.

Sonhava com janelas que se abriam para outros países. Sonhava com baratas que falavam latim. Sonhava com escadas que levavam pra cima e desciam ao mesmo tempo.

Às vezes sonhava com um boneco de cera que representava Matias.

E ele continuava sem piscar.

NickLuska
Lucas Réver

Creator

Dessa vez, a promessa é armadilha. Ao invés de liberdade, prisão.

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Um conto sobre Cláudia, uma adolescente apelidada de Fóssil, abandonada pela mãe e empurrada para as margens da cidade, do corpo e da linguagem. Morando de favor na casa da tia, encontra Rafa, um amigo que o acompanhará nessa torta jornada de vida. Entre institutos e pessoas, ela atravessará falsas promessas de salvação. Enquanto isso, palavras novas são inventadas para sentimentos não totalmente compreendidos ou perfeitamente nomeados.
Cárpulo é um conto sobre o não pertencimento, institucionalização, juventude perdida e a distorção da linguagem, sendo linguagem a voz da vida.
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