Ela virou um corpo com horário.
Tomava o café sem mastigar.
Passava o dia como quem assiste ao próprio velório.
O tempo ali era um animal cego, andava em círculos, sem pressa e compaixão. Às vezes, Cláudia chorava sem saber o porquê. Outras vezes ria sozinha no banho, sem saber de quê. A água era sempre fria. Os espelhos, embaçados permanentemente por um plástico fosco que a impedia de ver o próprio rosto.
Ela pensava que talvez esse fosse o tratamento.
Apagar.
Não havia janelas que abrissem, nem portas que se trancassem só por fora, mas também não havia dentro nem fora. Era um mesmo lugar, um só tempo. Uma única linguagem, o silêncio.
No dormitório havia três camas.
Uma delas ocupada por uma menina que falava dormindo. Seu nome era Maya, mas ninguém chamava assim. Os funcionários a chamavam de "Paciente 36T".
Maya tinha um cabelo longo demais para o protocolo da casa. Amarrava com um elástico que usava como anel durante o dia. Tinha olhos que não focavam em nada e falava sozinha, em voz baixa, como se cada palavra tivesse que passar por labirintos internos antes de escapar.
Na terceira noite, Cláudia acordou com a voz dela sussurrando. - A colher sumiu, mas a sopa continua.
Cláudia não respondeu. Não queria conversar. Só que não conseguiu voltar a dormir.
No dia seguinte, durante a sessão de “Reconexão Com o Eu Coletivo”, Maya desenhou uma escada em espiral com lápis preto. No fim da escada, uma boneca riscada com cicatrizes. Ao lado, a palavra "interromper".
Ninguém disse nada.
Na medicação, Cláudia reparou que Maya fingia engolir os comprimidos. Guardava na boca e depois cuspia no bolso. Ela os esmagava com a unha, fazia pequenos montes de pó colorido no chão do banheiro.
Cláudia pensou em fazer o mesmo, mas sentia medo. Medo do que aconteceria se voltasse a lembrar.
Naquela noite, Maya cochichou outra coisa. - O tempo não existe aqui. Aqui é o avesso de quando.
Cláudia perguntou, num fio de voz. - Como você sabe disso?
Maya não respondeu. Apenas apontou para o próprio peito e sussurrou. - Porque ainda sonho.
Havia tempo que nem mais sonhos a faziam companhia.
Cláudia não soube se era loucura ou resistência, mas desejou, pela primeira vez em muito tempo, sonhar também.

Comments (0)
See all