A sala era usada para as sessões de arteterapia. Tinta guache, cartolina dobrada, potes de plástico, canções inocentes tocando em volume baixo. Aquilo tudo parecia cruel demais para dois adolescentes que já tinham visto a sucataria.
- Rafa? - Ela arriscou, como se seu nome fosse uma palavra secreta que talvez ela não soubesse mais.
Ele virou devagar.
Usava óculos com aros grossos, algo que nunca tivera antes. Os olhos fundos, mas ainda vivos. Mesmo por trás da melancolia, havia uma faísca, ou um resto de incêndio.
- Aqui eles dizem que sou esquizoafetivo com ideação simbólica. - Respondeu, como se recitasse a própria lápide.
Cláudia franziu as sobrancelhas.
A resposta parecia um tipo de poema moribundo.
- E isso significa o quê?
Ele olhou pro chão. Segurou um sorriso com o canto da boca. - Que sonhar demais virou doença, Fóssil.
Ela riu. Pela primeira vez em semanas. Ou meses. Ou o tempo que fosse. Naquele lugar, as horas escorriam como xarope vencido.
Durante a sessão, fingiram desenhar. Era só uma desculpa para observar um ao outro. Os olhos de Cláudia passeavam por Rafa, buscando as marcas, gestos, rastros do garoto que colecionava baratas mortas.
Ainda havia algo dele ali, porém mais contido, reprimido. Um que já tinha sido apagado com álcool e redesenhado com tremores.
- Eu queria ainda estar com o brinco preto que você me deu, Fóssil. Mas me tiraram pelas regras daqui, para prevenir que nem eu e nem ninguém daqui engolisse.
Claúdia se alegrou silenciosamente ao saber que seu simples presente de tempos atrás ainda significava para ele.
Começaram a se encontrar nos intervalos entre as atividades. Debaixo das escadas de emergência, atrás do refeitório, num canto esquecido da lavanderia. Não podiam conversar demais, as câmeras, olhos dos monitores e os sensores de ruído. Então, começaram a escrever um para o outro.
Usufruíram da velha prática de inventar palavras.
Rafa passou o primeiro bilhete escrito com um lápis mordido. “Fóssil, hoje me sinto grísulo. É tipo quando o céu parece pesar mais que o chão.”
Cláudia respondeu no dia seguinte, com uma letra miúda no avesso de uma bula rasgada. “Eu tô cízima. Quando parece que o peito é um elevador indo pro subsolo.”
Assim, criaram sua língua de sobrevivência. Um idioma só deles, com o qual podiam nomear o que o sistema chamava de distúrbio, mas apenas o jeito deles existirem.
Havia também palavras para pequenas alegrias. Como:
"Bicléstico" – O gosto da sobremesa rara de gelatina que serviam no sábado.
"Voltrício" – Quando sentiam que o tempo passava menos devagar.
"Miúdofuso" – o som do silêncio entre dois olhares que sabiam tudo.
Foi Cláudia quem criou a mais importante de todas. Escreveu em letras grandes, numa página arrancada de um manual.
CÁRPULO
s.m.
1. Esperança que fede.
2. Vontade de melhorar mesmo quando tudo em volta apodrece.
3. Aquela coisa dentro de você que sobrevive apesar de tudo.
Rafa leu o bilhete como quem encontra uma relíquia em ruínas. Ficou parado por longos minutos. A palavra era feia, mas era a palavra mais perfeita para o que poderia sentir.
Na próxima sessão de arte, desenhou um caroço apodrecendo que brilhava por dentro. Chamou aquilo de “Cárpulo”.
Na semana seguinte, Rafa sumiu.
Disseram que ele tinha sido levado para avaliação externa. O motivo? Tentou se cortar com um clipe em um surto durante a medicação.
Cláudia passou a se instaurar no mórbido silêncio. Tinha muito medo de Rafa não voltar. Sua única distração era repetir em sua mente a palavra grudada. Cárpulo. Esperança que fede.
Ela começou a usar a palavra em pensamentos.
“Vou aguentar mais um dia porque cárpulo.”
“Ainda lembro quem eu sou porque cárpulo.”
“Vou me vingar do mundo, porque cárpulo.”
Ninguém percebeu, mas naquele hospital branco, cujas paredes fediam a água sanitária, a expressão mais sincera para Cláudia havia sido construída.
Uma garota que, por mais que quisessem dopar, apagar ou silenciar, ainda acreditava.
Mesmo que fedendo por dentro.
Rafa voltou depois de alguns dias, mas continuava sumindo ocasionalmente.
Apareceu no pátio com algo nas mãos.
- Olha. Ela é branca. Uma mutante, talvez. Era uma barata albina, ou quase. Pequenina, imóvel.
- Se ela sobreviver à luz daqui, a gente também sobrevive. - Disse, colocando a criatura dentro de uma caixa de papelão jogada pelo pátio.
No dia seguinte, a barata estava morta.
- Então tá decidido. - Cláudia sussurrou com tristeza. - A gente não sobrevive.
- Ainda não. - Rafa corrigiu. - Mas um dia a gente mata a luz antes que ela mate a gente.

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