Lá dentro, todos eram vagos. Mesmo os adultos disfarçados de enfermeiros. A vaguidão era uma epidemia ali, uma febre baixa que não curava. Um estado de suspensão, como estar entre um pensamento e outro, só que sem fim.
Com as ausências repentinas de Rafa, Cláudia começou a prestar atenção nos outros pacientes. Como ela chamava em pensamento.
Havia um garoto pequeno, franzino, que passava o dia inteiro de cócoras perto das paredes, sussurrando para o chão.
- O que ele faz? - Perguntou uma vez a um monitor.
- Fala com formigas - Respondeu o homem, sem levantar os olhos do celular. - Acha que são a família dele.
O menino se chamava Dico. Às vezes, dava risada sozinho e chamava as formigas por nomes. Jorge, Tâmara, Seu Vando, Princesa Lúcia. Outras vezes, chorava alto quando alguém pisava em alguma sem querer.
Havia também uma menina de tranças tortas e dedos inquietos. Seu nome era Amélia, ninguém tinha certeza. Ela não falava. Não por timidez, por decisão. Seu silêncio era um voto. Um ato de resistência que deixava os profissionais desconcertados.
Diziam que Amélia não emitia uma palavra desde que a internaram. Nem um som. Seus olhos falavam por si. Ela só mexia os dedos, como quem digitava para um Deus cego. Cláudia tentou fazer contato algumas vezes. Sentava perto, desenhava, deixava um bombom roubado ao lado. Amélia nunca respondeu, mas um dia dobrou um papelzinho origami em forma de cisne e colocou no bolso de Cláudia. Nele, havia um único rabisco. Um buraco preto com três pontas.
O terceiro era um rapaz alto, encurvado, com o olhar sempre fixo em algum ponto que ninguém conseguia enxergar. Chamava-se Paulinho, mas queria ser chamado de “Vermelho-11”. Dizia que, todas as noites, sonhava que era um extintor de incêndio.
- Um desses de parede, sabe? Vermelho, com mangueira. Mas não sirvo pra nada. - Disse, uma vez, durante uma atividade em grupo. - Todo mundo corre pro extintor achando que vai salvar, mas quando puxam, tô vazio. Não tem nada, nem gás, nem espuma.
Cláudia ficou em silêncio. Pensou que talvez todos ali fossem extintores vazios, de algum incêndio que o mundo nem lembrava mais que começou.
Ela voltou a desenhar. Não como nas aulas infantis impostas pela terapeuta, mas escondida com os lápis de cera que conseguiu roubar da sala de materiais. Criou um caderno falso, disfarçado de fichário de tarefas, onde fazia o que chamava de “auto anatomia emocional”.
Desenhava o próprio cérebro em várias versões. Às vezes, como um balão murcho. Outras, como um labirinto bagunçado e sem abertura. Em todas as imagens havia um buraco no meio. Um buraco grande, escuro, intransponível.
“Aqui ficava o amor.” escreveu na primeira.
“Aqui morava a mãe, mas ela se foi.” na segunda.
“Cárpulo. Um vazio que ainda sonha com cheiro de pão.”
Com o tempo, os pacientes vagos passaram a fazer parte do seu mapa. Ela andava pelos corredores e criava definições para eles em silêncio.
Dico: verbo transitivo. Aquele que conversa com o invisível por desespero, não por fé.
Amélia: substantivo secreto. Silêncio que grita através das mãos.
Vermelho-11: adjetivo extinto. Quando a alma ainda é útil, mas o mundo esqueceu de abastecer.
Ela anotava isso em papeizinhos escondidos nos bolsos da calça, nos forros da camiseta, em lugares onde os enfermeiros não bisbilhotariam. Era uma forma de lembrar. De nomear o mundo. De afirmar que tudo ainda tinha significado, mesmo dentro daquela prisão branca.
Cláudia ganhou um pedaço de giz colorido durante uma atividade. Foi até o banheiro, trancou a porta e começou a desenhar um cérebro no azulejo. Era o dela. Desenhou a parte da fome, a parte da ausência, a parte que queria morrer e a parte que queria gritar. No centro, desenhou um buraco preto.
Em cima, escreveu: “a parte que sente saudade.”
Rafa.
Depois apagou tudo com água fria. O azulejo ficou manchado. Como ela.
Num fim de tarde, Cláudia sentou no pátio, encostada na cerca alta que separava o gramado da mata. Dico apareceu, sem ser chamado, e ficou em silêncio ao lado dela.
- As formigas disseram que você tem buraco na cabeça. Mas não é defeito, é passagem. – Disse após minutos de silêncio.
- Passagem pra onde?
Ele olhou para o céu. - Não sei. Elas também não sabem, mas é melhor ter buraco do que estar todo cheio de pedra.
Ela sorriu.
Sentiu algo entre o riso e a náusea. Um tipo de ternura bruta. Como se estivesse segurando uma flor murcha que ainda tentava perfumar.
Talvez, pensou, os pacientes vagos fossem tudo o que restava de verdadeiro naquele mundo. Ela era uma deles.
Mesmo com buraco.
Mesmo com cheiro de formiga.
Mesmo com a esperança fedendo no peito.
Cárpulo.
Sempre Cárpulo.

Comments (0)
See all