Não reconhecia as coisas escritas nos papeizinhos das bolsa de suas calças. Não entendia os rabiscos malucos no seu fichário de tarefas. Era tudo tão estranho.
Ela não se lembrava quando foi a última vez que sonhou com cores. Agora era tudo cinza. Um cinza aguado, esfarelado, como se até seus sonhos tivessem vencido.
Às vezes, babava.
Às vezes, esquecia o que era boca, o que era tempo e o que era um dia normal.
Às vezes, esquecia quem era Rafa e todos os outros pacientes. Às vezes… esquecia que existia.
Passava longos minutos, talvez horas, encarando a parede e o teto. Tentava lembrar se “Cláudia” era de fato um nome real ou apenas mais uma palavra inventada como “Cárpulo” ou “Verfelin”. Havia buracos na memória onde antes moravam lembranças simples, o gosto de um chiclete, o rosto dos parentes, a palavra para descrever o quadrado que fica na parede e dava pra ver o mundo lá fora. Janela.
Em uma reunião com os pacientes incentivada por uma campanha política, 23A foi levada para sentar diante da diretora da Luz Jovem. A sala era toda bege, como um cappuccino. A diretora falava baixo, com um sorriso ameno que lembrava um vendedor de caixão.
- A paciente número 23A está progredindo rapidamente. - Disse ela, lendo o relatório sem olhar para Cláudia. - Redução significativa de impulsos dissociativos. A sedação estabilizou seu padrão comportamental. Não apresentou quaisquer verbalizações simbólicas nas últimas 72 horas. Excelente evolução.
Cláudia tentou falar. Queria dizer que aquilo não era progresso, era esquecimento. Mas sua língua parecia embolada por conta da medicação.
Suas palavras dormiam sob um cobertor de olanzapina.
Rafa notou antes dela. Talvez por ama-la, talvez por ter o próprio apagamento em curso. Ele percebeu o sumiço de Cláudia dentro de si mesma. Tentou sacudi-la algumas vezes, com bilhetes codificados, gestos secretos e as palavras novas.
- Vederame. - Ele escreveu certa vez, num pedaço de fita adesiva que colou na sola do sapato dela. - Significa lembrar o que nunca foi dito.
23A não entendeu. Olhou em confusão por alguns segundos e logo depois que tomou sua medicação, se esqueceu.
Rafa, então, começou a arquitetar uma fuga.
Dizia que os mapas estavam nos galhos. Que a grade elétrica tinha horários para dormir. Que as formigas sabiam o caminho. Estava ainda mais magro, mais agitado, os olhos dele não paravam no mesmo lugar.
Até que o dia de seu sumiço chegou.
Por horas, ninguém notou. Os enfermeiros não davam falta tão cedo. Eram muitas pessoas na Luz Jovem. Cláudia soube no fim do dia, quando o protocolo de emergência foi acionado, sirenes baixas, portas travadas e vozes no rádio.
Encontraram Rafa horas depois, em um estacionamento próximo à rodovia. Estava apenas de cueca, em posição fetal, tentando conversar com uma antena parabólica em frente à uma caçamba.
- Eles falam comigo… falam comigo… por frequência baixa… são as baratas… dizem que ainda dá tempo para mim e ela… - Murmurava, com os olhos encharcados de uma melancólica fanática fé.
Foi pego pelos braços na hora e sedado brutalmente. Internado em um novo setor, “Nível Superior de Cuidado”, disseram. Claúdia um dia ouviu seguranças murmurando que os lençóis eram presos com velcro e o tempo passava mais devagar.
Claúdia nunca mais viu Rafa.
Cláudia soube, mas não soube. Ouviu de longe, como quem escuta uma notícia em outra língua. Parte dela chorou, mas era uma parte escondida, soterrada sob quatro camadas de estabilizantes.
À noite, olhou pela janela neutra do dormitório.
Tentou lembrar de seu rosto.
Só conseguiu lembrar do som da sua risada quando disse que “sonhar demais virou doença”.
O mundo havia apagado Rafa.
E agora apagava ela também.
De dentro pra fora.
Com calma.
Com técnica.
Com protocolo.

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