Cláudia acordou diferente. Não com um grito, nem um susto, mas com leveza.
Uma leveza perigosa para os protocolos daquela prisão. Como se flutuasse por dentro da própria cabeça. Como se seus ossos tivessem se tornado vidro e a alma estivesse, por fim, cansada de se esconder.
Sentou-se na cama.
Olhou para as mãos e jurou ver os próprios ossos através da pele. As veias eram finas linhas azuis, como se tivessem sido desenhadas por uma criança com medo de errar.
Por um momento, pensou já estar morta. Então ouviu.
Veio do teto. Ou do chão. Ou de dentro de si.
Era a voz de Rafa, distorcida, como um rádio mal sintonizado, como uma fita velha de VHS.
- Fóssil, você ainda tá aí? Se tiver, pisca duas vezes. Mas por dentro.
Ela não sabia se era alucinação ou memória. Mas sorriu como quem sente alegria.
Alegria, tinha esquecido essa palavra. Talvez a palavra “alegria” não fosse o suficiente para o que estava sentindo nesse momento. Só Rafa poderia inventar uma nova que descrevesse exatamente o que ela sente.
Um sorriso pequeno. Um movimento tão discreto que os remédios não perceberam. E naquele sorriso, houve um tipo de renascimento.
Levantou-se da cama sem pensar. O chão estava frio. As câmeras piscavam luzes vermelhas. O corredor parecia um intestino, úmido e pulsante. Cláudia percorria.
Chegou até a sala dos arquivos, onde ficavam os prontuários. Conseguiu lembrar o caminho. Tinha decorado no tempo eterno que andava por lá fingindo estar dopada. Usou a técnica de Maya.
Encontrou a gaveta com o seu número: 23A.
Lá estava ela. Em folhas amareladas, com grampos enferrujados. Descrições clínicas frias, como:
“comportamento inapropriado”,
“ideação poética simbólica”,
“quadro compatível com distúrbios severos de identidade”.
E um diagnóstico final:
Personalidade Dissolvente com Traço Psicótico Latente.
Ela leu aquilo com um riso mudo. Pensou que talvez fosse um elogio. Uma espécie de poema dedicado à sua pessoa. Em seguida, pegou a pasta e subiu em uma cadeira.
Tirou a lâmpada do teto e usou a lente da própria luminária como lupa. O truque que Rafa ensinou, dizendo que era o que usavam para queimar formigas no quintal da tia Dora. Colocou fogo no papel devagar. Viu as letras se contorcendo como as baratas em agonia. Um cheiro ácido invadiu a sala. Uma fumaça doce, libertação.
Nada mais restava ali.
Voltou pelo corredor e quebrou a enorme janela com fortes socos. Não sabia qual andar era. As grades estavam enferrujadas e frouxas - alguém já havia tentado fugir antes. Talvez Rafa. Talvez alguém outro.
Cláudia hesitou por um segundo.
Depois pulou.
A queda foi breve.
Aterrissou de costas em uma lixeira lotada de sacos de lixo macios e restos de comida. Um alarme disparou ao longe, mas já era tarde.
Ela estava do lado de fora.
Livre.
Quebrada, mas inteira.
Sangrando, mas viva.
Uma enfermeira correu, gritou, mas Cláudia já sumia por entre os arbustos. Então notou os pés cortados, o joelho ralado. A boca, pela primeira vez em meses, aberta em gargalhadas escancaradas.
Enquanto corria, ouvia a voz dele de novo. Mais limpa agora. Menos rádio, mais Rafa.
- Tá vendo, Fóssil? Ainda dá tempo. A gente não nasceu pra estrutura, a gente é inventado.
E Cláudia seguiu em frente rindo, ferida, solta, plena.
Esperança que fede, mas esperança.
Cárpulo.

Comments (0)
See all