Please note that Tapas no longer supports Internet Explorer.
We recommend upgrading to the latest Microsoft Edge, Google Chrome, or Firefox.
Home
Comics
Novels
Community
Mature
More
Help Discord Forums Newsfeed Contact Merch Shop
Publish
Home
Comics
Novels
Community
Mature
More
Help Discord Forums Newsfeed Contact Merch Shop
__anonymous__
__anonymous__
0
  • Publish
  • Ink shop
  • Redeem code
  • Settings
  • Log out

Cárpulo (PT-BR)

Capítulo 9: Despertar

Capítulo 9: Despertar

Jan 25, 2026

This content is intended for mature audiences for the following reasons.

  • •  Abuse - Physical and/or Emotional
  • •  Mental Health Topics
Cancel Continue
Aconteceu em uma noite comum. Talvez não tenha sido uma noite. O tempo apagado, as luzes nunca apagavam por completo, o silêncio não era silêncio. Era um zumbido constante, como um motor que não engasgava.

Cláudia acordou diferente. Não com um grito, nem um susto, mas com leveza.

Uma leveza perigosa para os protocolos daquela prisão. Como se flutuasse por dentro da própria cabeça. Como se seus ossos tivessem se tornado vidro e a alma estivesse, por fim, cansada de se esconder.

Sentou-se na cama.

Olhou para as mãos e jurou ver os próprios ossos através da pele. As veias eram finas linhas azuis, como se tivessem sido desenhadas por uma criança com medo de errar.

Por um momento, pensou já estar morta. Então ouviu.

Veio do teto. Ou do chão. Ou de dentro de si.

Era a voz de Rafa, distorcida, como um rádio mal sintonizado, como uma fita velha de VHS.

- Fóssil, você ainda tá aí? Se tiver, pisca duas vezes. Mas por dentro.

Ela não sabia se era alucinação ou memória. Mas sorriu como quem sente alegria.

Alegria, tinha esquecido essa palavra. Talvez a palavra “alegria” não fosse o suficiente para o que estava sentindo nesse momento. Só Rafa poderia inventar uma nova que descrevesse exatamente o que ela sente.

Um sorriso pequeno. Um movimento tão discreto que os remédios não perceberam. E naquele sorriso, houve um tipo de renascimento.

Levantou-se da cama sem pensar. O chão estava frio. As câmeras piscavam luzes vermelhas. O corredor parecia um intestino, úmido e pulsante. Cláudia percorria.

Chegou até a sala dos arquivos, onde ficavam os prontuários. Conseguiu lembrar o caminho. Tinha decorado no tempo eterno que andava por lá fingindo estar dopada. Usou a técnica de Maya.

Encontrou a gaveta com o seu número: 23A.

Lá estava ela. Em folhas amareladas, com grampos enferrujados. Descrições clínicas frias, como:

 

“comportamento inapropriado”,
“ideação poética simbólica”,
“quadro compatível com distúrbios severos de identidade”.
E um diagnóstico final:
Personalidade Dissolvente com Traço Psicótico Latente.

 

Ela leu aquilo com um riso mudo. Pensou que talvez fosse um elogio. Uma espécie de poema dedicado à sua pessoa. Em seguida, pegou a pasta e subiu em uma cadeira.

Tirou a lâmpada do teto e usou a lente da própria luminária como lupa. O truque que Rafa ensinou, dizendo que era o que usavam para queimar formigas no quintal da tia Dora. Colocou fogo no papel devagar. Viu as letras se contorcendo como as baratas em agonia. Um cheiro ácido invadiu a sala. Uma fumaça doce, libertação.

Nada mais restava ali.

Voltou pelo corredor e quebrou a enorme janela com fortes socos. Não sabia qual andar era. As grades estavam enferrujadas e frouxas - alguém já havia tentado fugir antes. Talvez Rafa. Talvez alguém outro.

Cláudia hesitou por um segundo.

Depois pulou.

        

A queda foi breve.

Aterrissou de costas em uma lixeira lotada de sacos de lixo macios e restos de comida. Um alarme disparou ao longe, mas já era tarde.

Ela estava do lado de fora.

Livre.

Quebrada, mas inteira.

Sangrando, mas viva.

Uma enfermeira correu, gritou, mas Cláudia já sumia por entre os arbustos. Então notou os pés cortados, o joelho ralado. A boca, pela primeira vez em meses, aberta em gargalhadas escancaradas.

Enquanto corria, ouvia a voz dele de novo. Mais limpa agora. Menos rádio, mais Rafa.

- Tá vendo, Fóssil? Ainda dá tempo. A gente não nasceu pra estrutura, a gente é inventado.

E Cláudia seguiu em frente rindo, ferida, solta, plena.

Esperança que fede, mas esperança.

Cárpulo.

NickLuska
Lucas Réver

Creator

Algo acende no meio do apagamento. Fóssil lembra quem é e luta por si.

Comments (0)

See all
Add a comment

Recommendation for you

  • The Sum of our Parts

    Recommendation

    The Sum of our Parts

    BL 8.8k likes

  • The Spider and the Fly

    Recommendation

    The Spider and the Fly

    Drama 4.2k likes

  • Blood Moon

    Recommendation

    Blood Moon

    BL 47.9k likes

  • Arna (GL)

    Recommendation

    Arna (GL)

    Fantasy 5.6k likes

  • What Makes a Monster

    Recommendation

    What Makes a Monster

    BL 76.6k likes

  • Earthwitch (The Voidgod Ascendency Book 1)

    Recommendation

    Earthwitch (The Voidgod Ascendency Book 1)

    Fantasy 3k likes

  • feeling lucky

    Feeling lucky

    Random series you may like

Cárpulo (PT-BR)
Cárpulo (PT-BR)

1 view2 subscribers

Um conto sobre Cláudia, uma adolescente apelidada de Fóssil, abandonada pela mãe e empurrada para as margens da cidade, do corpo e da linguagem. Morando de favor na casa da tia, encontra Rafa, um amigo que o acompanhará nessa torta jornada de vida. Entre institutos e pessoas, ela atravessará falsas promessas de salvação. Enquanto isso, palavras novas são inventadas para sentimentos não totalmente compreendidos ou perfeitamente nomeados.
Cárpulo é um conto sobre o não pertencimento, institucionalização, juventude perdida e a distorção da linguagem, sendo linguagem a voz da vida.
Subscribe

10 episodes

  Capítulo 9: Despertar

Capítulo 9: Despertar

0 views 0 likes 0 comments


Style
More
Like
List
Comment

Prev
Next

Full
Exit
0
0
Prev
Next