Cláudia nunca foi encontrada.
A polícia a registrou como “fuga de menor institucionalizada”, arquivou entre tantos outros papéis que ninguém mais lê. Um boletim sem testemunhas, sem imagens e sem resolução. Com o tempo, o caso foi esquecido. Como se ela tivesse evaporado, certas pessoas parecem feitas de neblina.
Disso, só restaram os rumores. Histórias que andam de boca em boca entre assistentes sociais, adolescentes internados e andarilhos de praça. Dizem que Cláudia mora agora num terreno escondido entre casas, esquecido por Deus e pelo Google Maps. Um lugar onde o vento assobia como se ainda procurasse por nomes perdidos.
Perdoe-me. Cláudia não, Fóssil.
Fóssil permite fotos das tatuagens que faz no galpão no fundo do terreno esquecido que habita, mas não aparece nas fotos. Usa um celular velho para consultas, ganha a vida fazendo tatuagens, profissional em tatuar palavras e sempre troca histórias com seus clientes.
Usa agulhas únicas e tintas marcantes, cada desenho que marca na pele dos outros contém uma parte dela.
É seu registro no mundo.
Há quem diga que ela tatua palavras inventadas para os que querem. Outros dizem que são códigos, sigilos mágicos ou preces ocultistas.
Fóssil escreve em diários Moleskines que ganhou de um cliente barbado que parecia um personagem da mitologia grega.
Diz que é pra lembrar que ainda existe.
Escreve frases curtas, sem pontuação, como se a gramática fosse coisa do passado. Poesia.
No canto do galpão, uma parede de concreto foi pintada. Tinta vermelha, escorrida, quase viva.
“Sonhar é perigoso,
mas esquecer é fatal.”
Em um muro do terreno esquecido, colada com fita adesiva transparente, está uma barata morta seca e com patinhas inclinadas.
Debaixo das patas, um papel pequeno com cuidado. Nele, escrito com marcador preto.
“Rafa vive aqui.”
Ninguém sabe quem escreveu. Ninguém sabe quem colou a barata. Mas quem passa por ali e presta atenção diz que, às vezes, dá pra ouvir uma música baixa vindo de dentro do galpão. Uma música forte e enérgica, que soa a força da saudade. E, caso olhe pela fresta da janela, pode ver uma luz acesa.
Uma luz forte.
Inesquecível.
Viva.

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