Aiko ficou chocada com o que via na sua frente. Ela colocou uma mão na boca, e seus olhos se encheram de lágrimas. Não era só um desenho. Era a mais pura representação dela, algo que ninguém, nem mesmo seus amigos artistas, conseguiram fazer. Ela soluçou duas vezes, e disse, sua voz embargada:
— Ryo-chan… isso… é lindo. É a coisa mais linda que eu já vi na vida.
— É… só um desenho — Ryotaro sussurrou, desviando o olhar. — Nem é tudo isso.
— É sim! Porque é como você me vê. E essa dedicatória… você lembrou do nosso anime!
— Como poderia esquecer? Foi a primeira coisa que compartilhamos em comum.
Aiko então colocou o desenho ao lado dela no parapeito, e o abraçou sem aviso, enterrando seu rosto no peito dele. Ryotaro ficou sem reação por um segundo, antes de também a abraçar. Por um momento, nada mais existiu. Só haviam eles dois, abraçados sobre o sol do meio-dia de um dia de primavera. Quando por fim eles se separaram, Aiko pegou novamente o desenho entre as mãos.
— Isso vai ficar na minha cabeceira — ela disse, deixando sem querer uma das lágrimas caírem sobre o vidro da moldura. — Para sempre.
— Que bom que gostou — Ryotaro disse, e um sorriso verdadeiro, que chegava aos olhos, iluminou seus olhos.
A felicidade de Aiko só aumentou ao ver aquele sorriso de seu namorado. Era uma luz que fazia seus olhos brilharem como prata polida. Porém, o som de alunos subindo as escadas os retirou daquele momento. Os dois decidiram ir de novo para debaixo da cerejeira, e assim o fizeram. A caminhada até lá foi silenciosa no começo, mas logo o grupinho de amigos se reuniu novamente, com exceção de Mahina e Natsuki, que provavelmente estavam fazendo seu trabalho de espionagem.
Debaixo da cerejeira, Aiko mostrou para os amigos o desenho de Ryotaro. Todos ficaram maravilhados com o talento do garoto. Até Kaito assobiou baixinho. E falando nele, houve um momento onde ele puxou Ryotaro para uma conversa mais pessoal.
— Seguinte, Sato — ele começou. — Eu… preciso de algumas dicas. Dicas românticas.
— Tá pedindo isso pro cara errado — Ryotaro retrucou. — Pede pro Yuta que ele sabe mais disso.
— É sério, cara! Só você pode me ajudar nessa! É com a Mahina.
Ryotaro congelou por um momento ao ouvir o nome de Mahina. Kaito queria dicas românticas envolvendo a garota mais enigmática e até assustadora do colégio? Ou ele havia perdido a cabeça ou era estupidamente corajoso. Ainda assim, Ryotaro perguntou:
— O que você quer saber?
Kaito coçou a nuca, desviando o olhar. O garoto, que sempre aparecia com uma coragem contagiante e até arrogante, agora parecia um garoto tímido.
— É que… ela é diferente, Sato. Você sabe disso. Ela não tá nem aí pra popularidade, ou pra aparência.
— Então, é sério mesmo — Ryotaro comentou.
— É que… assim, eu não sei chegar nela. Eu sinto que, se eu chegar com flores e chocolates, ela vai zombar da minha cara. Vai me achar uma piada.
Ryotaro pensou por um momento, se lembrando da Mahina que ele conhecia. Teatral, astuta, cheia de camadas. De fato, uma abordagem tradicional não funcionaria.
— Com ela, — Ryotaro começou, falando devagar. — você não pode fingir. Na verdade, nem tem como. Em vez de tentar impressionar… tenta entender.
— Entender? — Kaito perguntou, sem entender muito bem.
— Isso. Pergunta sobre as coisas que ela realmente gosta. Mostra que você presta atenção, que nota como ela é de verdade, não como você imagina. E o mais importante: seja honesto.
— Ser honesto…
— Mas tipo, muito honesto. Pra caramba. Ela valoriza isso mais do que qualquer coisa.
Kaito ficou quieto, processando as palavras dele.
— Então, levar em restaurante chique tá fora de cogitação… — ele murmurou,
— Bem fora, na verdade. Leva ela em algum lugar que signifique algo pra você. Ou em algum lugar que necessite usar o intelecto. Ela gosta dessas coisas.
— Então… tenho que levar ela num escape room?
— É, tipo isso.
— Hmmm. Isso já ajuda bastante — Kaito disse, um leve sorriso surgindo em seus lábios. — Valeu Sato. Você é um amigão mesmo.
— Só não me põe no meio se der errado — Ryotaro suspirou.
As aulas da tarde passaram em um ritmo bem mais tolerável. Aiko não tinha coragem de colocar o presente no armário, então o carregava pra todo canto. Ryotaro também começou a prestar mais atenção no que os professores diziam, e reparou que Mahina havia voltado, e parecia anotar algo e falar algo baixinho com Natsuki.
Por fim, o sinal final tocou. Ryotaro saiu rapidamente, e esperou Aiko no portão. Enquanto se recostava ao muro do lugar, viu Mahina e Natsuki indo para fora. Elas pararam na porta da saída, e Ryotaro pode ouvir o que Mahina falava para a companheira:
— Ele tá vindo. Quer relembrar, Natsuki?
— Pode ser — Natsuki respondeu, sua voz inesperadamente firme.
— Muito bem. Nessa missão, você usa a regra 50, 0, 20. Como ela é?
— Cinquenta metros de distância, zero contato visual e vinte anotações.
— Perfeito. Toma muito cuidado com ele. Nunca se sabe o que ele vai fazer.
No exato momento que Mahina parou de falar, Ren passou por elas. Elas se despediram cordialmente do garoto, e ele também se despediu de Ryotaro, que só respondeu com um grunhido. Quando Ren tomou certa distância, Mahina liberou Natsuki, que seguiu o mesmo caminho que ele. Depois que ela foi, Aiko apareceu, conversando com Yuta, Jun, Natália, Mika e Ayase. Assim que ela o viu, se despediu dos amigos e foi até o namorado.
— Pronta pro seu segundo presente? — Ryotaro perguntou.
— Pronta! — Aiko respondeu, animada, enganchando seu braço no dele. — Vamos!
Assim, os dois saíram do colégio, caminhando tranquilamente. Os outros amigos observaram eles irem embora, com um sorriso.
— É tão bom ver o Satozinho feliz — Mahina comentou.
— Eu não sei como ele era, — Jun disse, depois de um bocejo. — mas eu fico muito feliz por ele.
— Eu também — Natália disse, com um sorriso carinhoso.
Atrás deles, Kaito observava as costas de Mahina. Ele havia pensado em tudo que Ryotaro havia lhe dito, e ao observar a garota enigmática, ele começou a sentir que não era muito digno de alguém como ela. A garota era profunda, cheia de camadas. E ele? Ele não era nem 10% dela.
Enquanto isso, Ryotaro levou Aiko para sua casa, dizendo para ela colocar uma roupa mais confortável. Dentro da casa dos Takane, Ryotaro esperou a namorada descer conversando com Misao e Masahiro. Kenji ainda não havia chegado em casa.
— O seu presente é muito bonito, Ryotaro — Misao disse, já que Aiko havia mostrado para ela também. — Você desenha muito bem.
— Obrigado, Misao — Ryotaro agradeceu, modesto. — Não é perfeito, mas… é alguma coisa.
— Para ela é perfeito — Misao retrucou. — E é isso que importa, não é?
— Com certeza — Ryotaro respondeu, dando um sorriso pequeno.
— Aí tio — Masahiro chamou, mostrando um jogo de cartas. — Quer jogar?
— Se não for muito demorado — Ryotaro respondeu, dando de ombros.
Depois de um tempinho, Aiko apareceu novamente. E ela estava linda. Havia trocado seu moletom branco e grande e suas botas pretas por um vestido de primavera simples, de cor azul profundo, e um par de sapatilhas brancas. Seus cabelos estavam soltos, e uma parte estava presa por um grampinho prateado. Além disso, ela usava um perfume de cheiro de mel, que Misao reconheceu como o seu melhor perfume e mais caro.
— Você tá linda, Aiko — Ryotaro elogiou, se aproximando dela.
— Você também tá bonitinho — Aiko retribuiu, pegando sua mão.
— Nah. Com essa roupa, tô me sentindo um mendigo. Aguenta a gente ir na minha casa e eu me trocar?
— Claro que sim.
Assim, eles se despediram da família de Aiko, e foram até Marunouchi, na casa dos Sato. Lá, Megumi já os esperava. Ela abraçou a futura nora, e desejou feliz aniversário para ela, a convidando para se sentar no sofá enquanto esperava Ryotaro se trocar. No seu quarto, o garoto quieto trocou o moletom vermelho por uma camisa social preta, a calça de moletom por uma calça jeans também preta, mas manteve os sapatos brancos. Penteou os cabelos e manteve a corrente de prata no pescoço, mas colocou também uma pulseira de metal no braço direito. Por fim, também passou um perfume.
Assim, com o casal pronto e bem arrumado, os dois foram para o campo. Ryotaro pegou um caminho diferente do habitual, para que ela não soubesse aonde estavam indo. As ruas urbanas começaram a esmaecer, e logo surgiu o campo com o pinheiro japonês. E lá, após subirem um morrinho, uma cena mágica os aguardava.
Havia uma toalha xadrez vermelha e preta, pesada nas pontas por velas aromáticas, de pinho e lavanda, os aromas favoritos de Aiko. Na toalha, bem distribuído e de forma organizada, estavam onigiris muito bem feitos, sushis variados, um salmão grelhado ainda quente e no centro havia uma torta de canela com caramelo e um bolo de chocolate com morangos e glacê, com uma única vela no centro. O violão de Ryu estava escondido atrás do pinheiro.
Aiko ficou encantada ao ver a cena, colocando as duas mãos na boca. Seus olhos começaram a marejar de novo, e ela sussurrou:
— Ryo-chan… isso é lindo. Você fez tudo isso?
— Com uma ajudinha da minha mãe — Ryotaro admitiu, meio envergonhado. — Mas a ideia foi minha. Tá com fome?
— Muita!
Os dois se sentaram sobre a toalha, e começaram a comer. A comida estava muito boa, e os dois se deliciaram com aquela refeição farta. O casal conversou sobre tudo e nada, riram muito e aproveitaram o crepúsculo naquela visão privilegiada. Quando o céu começava a se encher de estrelas, Ryotaro soube que estava na hora do segundo presente. Era tudo ou nada.
— Aiko — ele chamou.
— Hm? — ela fez, enquanto comia um pedaço de bolo.
— Eu… tô com o segundo presente aqui. Mas não é algo que eu possa embrulhar.
— Então, o que é?
Ryotaro pegou o violão atrás do pinheiro, e afinou rapidamente as costas. Aiko entendeu na mesma hora o que ele faria, e colocou as mãos na boca.
— Você sabe que eu não sou muito bom com palavras — ele disse, desviando o olhar. — Então… eu compus algo pra você. Uma música. É a primeira e última vez que eu canto isso, então… ouve com carinho, ok?
Aiko abraçou os joelhos, e assentiu. Assim, Ryotaro respirou fundo, e começou a tocar. A melodia de “Lindo Jesus” ressoou no pinheiro silencioso, e até mesmo os grilos pareciam parar de cantar para ouvir. E então, ele começou a cantar:
“O que existe em mim, entrego a ti
Pois sei que não me deixarás
Todo o meu ser
Meu viver eu quero te dar porque tu és”
O coração de Aiko começou a disparar outra vez. Seus olhos começaram a se encher de lágrimas outra vez, e ela pôs as mãos no coração. Ryotaro fechou os olhos, e continuou cantando, chegando ao refrão:
“Doce Aiko, doce olhar
Meu coração por ti palpita
Me cativou
Me encontrou primeiro, tu és meu abrigo”
A voz de Ryotaro tomou força, e ele fechou os olhos, ainda sem coragem para ver a reação da namorada. As lágrimas de Aiko escorreram livremente, e um sorriso emocionado surgiu em seu rosto. Por fim, o refrão final chegou:
“Linda Aiko, doce olhar
Meu coração por ti palpita
Me cativou
Me escolheu primeiro…
Tu és meu lar”
O último acorde ecoou na vastidão do lugar, e Ryotaro enfim abriu os olhos. Por dentro, sua insegurança dizia que havia sido brega, que ela não havia gostado. Porém, ao levantar o olhar, viu os olhos cheios de lágrimas não derramadas de Aiko, o rosto manchado pelas lágrimas já derramadas e, principalmente, viu seu sorriso emocionado. E aquilo valeu por tudo.
— Ryo-chan… — ela sussurrou, sua voz embargada. — Isso… foi a coisa mais linda que alguém fez por mim.
— Você… gostou? — Ryotaro perguntou, sua voz meio sumida.
— Se eu gostei? Eu amei! — ela exclamou, balançando a cabeça. As lágrimas que eu estavam acumuladas em seus olhos voaram, brilhando como estrelas à luz das velas. — Ninguém nunca… ninguém nunca fez nada disso por mim!
— É porque ninguém te ama o quanto eu te amo — Ryotaro disse, deixando o violão de lado e engatinhando até ela. Ao chegar bem perto, enxugou suas lágrimas com os polegares. — Feliz aniversário, minha Kaoru.
Aiko pôs suas mãos sobre as dele, e deixou mais algumas lágrimas escorrerem. Então, sem hesitar e sem temor, a garota se inclinou para frente, dando a Ryotaro todo o tempo do mundo para recuar. Porém, ele não recuou. Ao invés disso, ele também se inclinou em sua direção. E assim, sob a luz das velas e da lua cheia, com uma chuva de meteoros acima deles, os dois se beijaram pela primeira vez.
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