Os dois foram direto para uma lan house onde disputaram sua infinita batalha no saudoso Bomba Patch. O primeiro jogo acabou por 7 a 5 para Pedro, o segundo um 8 a 6 para Castus e o terceiro um empate de 3 a 3. Nas três partidas Castus jogou com o gigante Vasco da Gama, já Pedro jogou com o soberano São Paulo.
O tempo que eles tinham não deu para uma disputa de pênaltis, então deixaram como um empate. Fora da Lan House, eles começaram a zoar um ao outro de como o estilo de jogo era diferente, mas sempre com os mesmos placares, “4 a 4”, “9 a 7” ou até mesmo um “12 a 7”. Apesar de sempre defenderem que “um a zero ganha jogo”, ambos fazem de tudo para marcarem o máximo que conseguirem, pois sabem que em algum momento o seu adversário vai conseguir empatar e virar.
-Um 3-4-3 é muito melhor que um 4-4-2, por que cê continua usando isso? – dizia Castus.
-Porque no momento que eu tô com a bola vai praticamente virar um 4-1-1-4, tendo consistência defensiva e um ataque com mais homens. – Argumentou Pedro. – E se eu estiver no 4-3-3 com os pontas espetados sua defesa fica em frangalhos.
-Falou bonito, mas falou besteira, é exatamente pra isso que um dos volantes se torna zagueiro quando tô sofrendo ataque.
Esse tipo de papo foi acontecendo enquanto eles andavam pelas calçadas. Era uma noite de sábado comum, em um 6 de abril comum, com pessoas comumente caminhando nas ruas vazias do bairro, vivendo suas vidas comuns. A luz dos postes era fraca, pois faltava manutenção naquela parte da cidade. Provavelmente haviam chamado a companhia de eletricidade a tempos, mas negligenciaram por não estar em ano de eleição.
Pedro imaginava que o prefeito estava, nesse momento, vendo um desenho feito por sua filhinha de 8 anos sentado em sua poltrona no primeiro andar de sua casa enquanto resolvia questões com sua secretária por telefone.
De repente, ele lembra de algo e para de andar.
-Ué? Que foi?
Castus o indagou.
-Castus.
O semblante em seu rosto que antes era mais inocente, voltou-se com uma seriedade que poderia assustar seu amigo, que o olhava com calma.
-Isso é só algo que tenho pensado a um tempo. – Continuou Pedro.
-...Você vai participar do festival de jogos.
-Você tem senti-
De forma inesperada, Pedro para o que ia falar.
-Pera...Quê? Como?! Tinham me proibido de ir pra esse tipo de evento.
-Agradece a Clara, ela deu uma força pra que isso fosse possível.
-...Eu... falo com ela segunda.
-Beleza. Vê se não desperdiça essa chance. Não decepcione ela.
Eu entendi, entendi o que ele quis dizer. Ele não quer me dizer, ele nunca vai me dizer. O seu rosto calmo e sereno ao dizer aquilo foi o que me fez ter certeza...
-...Vou me esforçar ao máximo.
...Me fez ter a certeza de o que você pensa sobre ela. Eu senti algo que não sentia fazia um tempo, foi nostálgico num primeiro momento, mas, em seguida, me veio uma dor aguda.
-Esse é o espírito!
Castus, não faça o mesmo que aquele cara.
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-Acho que vou vomitar...
A pobre professora de pequena estatura estava ali, de frente a um vaso com um homem muito bondoso que a levou para casa depois da festa de encontro da turma do fundamental.
-Você tá horrível, hahaha!
Talvez não tão bom assim, mas, ainda assim, um homem respeitável.
-Ô Gomis... Como você não tá pior que eu- BLEH!
-Ué, você que é muito fraca com bebida.
-Argh! Mas você tomou *soluço* umas sete garrafas de Vodka junto com o Gabriel!
-Nossa, tava uma delícia aquele frango com o coquetel de amendoim!
-BLEH!
-MEU DEUS, KHEFERA!
... E isso tudo porque só tomou três latas de cerveja.
Passado meia hora desse momento de fragilidade, Khefera estava deitada no sofá de uma pequena sala que apenas cabia uma mesa com seu notebook de 6 anos atrás junto a uma papelada da escola. Apenas um batente separava uma cozinha com um fogão de duas bocas, uma mesinha preta, duas cadeiras, uma pia com um copo d’água recém usado, uma geladeira de uma porta, um galão d’água e um pequeno armário. Seu quarto só tinha espaço para sua cama de solteiro e um guarda-roupa com duas portas e uma gaveta. De alguma forma, ela arranjou espaço para colocar seus sapatos (apenas 3 pares e duas sandálias).
Sentado em uma das cadeiras, Gomis observava a garota esparramada no sofá com o antebraço sobre os olhos. Apenas a luz da cozinha iluminava a casa.
-Ei, você tá acordada ainda?
-Hmm...
-Khefera?
-Hmm...
Ele suspirou e, meio zonzo por motivos óbvios, se levantou para ver como sua colega de trabalho estava.
-...Você não vai dormir aí, né?
-...la boca...
-Hein?
-...Cala boca... Tô tentando descansar um pouco...
-Aiai...
A moça estava com a barriga a mostra, com o cabelo despejado e com fios na boca, o zíper de sua calça estava aberto e um de seus pés ainda com meia.
Olhar para aquela pessoa daquele jeito, fez o ótimo professor Gomis se sentir mal por ter pensado no que pensou.
-...Vem fechar a porta.
-...Tá~
Relutante e tombando nos próprios pés, Khefera se levantou e andou até a porta. Gomis abriu a porta e estava pronto para ir embora, ele mora perto, então não seria problema ir andando. Já que eram três da manhã, não haveria perigo de ser atropelado e, por não ter nada de valor consigo, não tinha medo de ser abordado.
-Bem, eu vou indo.
-...Tchaaaauuuu...
-Tranca a porta direito e vai pra cama, ouviu?
-...uhum...
Ele suspirou, colocou os pés para fora da casa e começou a andar-
-Khefera?!
-Não...
-Ei...
-Não me deixa sozinha... Por favor...
A moça envolvia o homem em sua frente com suas pequenas mãos.
-Não me deixa aqui sozinha... De novo...
Ele sentiu algo molhado. Achando que era baba da garota em suas costas, ele se virou com raiva para ver que, na verdade, eram as lágrimas da mulher que parecia uma criança quando está brincando e cai, ralando o joelho e corre para a mãe. Mas ela não tinha uma mãe para descarregar o peso de sua dor, nem mesmo era uma criança a qual podia descarregar seus traumas em alguém. E ela estava ali, chorando na frente de Gomis, um homem de vinte e cinco anos que já estava na vida adulta a mais tempo que sua colega de trabalho.
-Ei, olha, eu ainda tô aqui, relaxa, agora me conta, o que foi?
-*Sniff*... Eu... não quero ficar sozinha... por favor...
Não seria errado dormir em sua casa, o maior problema para Gomis é que ele não estava sóbrio, mesmo conseguindo pensar coerentemente, não sabia se podia perder a cabeça mais tarde. Mas, ela estava chorando.
Esse dilema durou alguns minutos enquanto ele segurava os ombros de Khefera.
-Tudo bem, eu fico com você, tá? Mas você tem que dormir no seu quarto, vou ficar na sala, tudo bem assim?
-...Uhum...
O esquema foi feito. Gomis dormiria no sofá e Khefera em sua cama em seu quarto trancado. Desta forma, não haveria problema.
Em algum momento da madrugada, ele acordou ouvindo uma respiração forte em sua frente. Quando abriu seus olhos, Khefera estava de pé, sem a sua jaqueta de antes, com o rosto próximo ao de Gomis e o olhando.
- “Quê? O que ela tá fazendo?!”
Não parecia que ela estava sonâmbula, mas também ele não tinha certeza, podia ser muito bem alguma alucinação ou engano causado pela ressaca e sono.
-Khe-Khefera?
Ele falou. A resposta veio cinco segundos depois de um silêncio amedrontador.
-Júlio...
-...
-Eu não quero ficar só no quarto...
-...A gente combinou-
-Você sabe do que eu tô falando...
Seu rosto estava vermelho e ofegante. Ela tirou sua camisa e Gomis a vestiu de volta, tentando colocar o bom senso na cabeça da jovem embriagada e sonolenta em sua frente.
-A gente não tem esse tipo de relacionamento. – Ele insistiu.
-Mas... Você não quer ter?
-... Vamos dormir, Khefera.
Ele a puxou para dentro da coberta que usava e a abraçou.
-...Você sabe que isso não é certo.
-...Júlio...
Os dois se olharam e ela tentou o beijar, apenas tentou, pois ele não deixou.
Foi um dia agitado e uma noite mais agitada ainda, o dia posterior foi pior, foi uma bagunça completa, a Khefera é realmente muito fraca com bebida.
Surpreendentemente, o sábado de Khefera foi melhor do que seu domingo, já que pelo menos dormiu e acordou no mesmo lugar. Para Gomis foi o mesmo, com a adição de um cansaço a mais.
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Boing-boing-boing!
-É grandão...
Boing-boing-boing!
-E macio...
Boing-boing-boing!
-Também peludo...
Boing-boing-boing!
-Que cachorrinho fofinho!
Um cachorro que provavelmente comeu três sacos de ração apenas no fim de semana estava deitado de frente a um banco de uma praça enquanto sua dona o observava e tomava um gole d’água nessa manhã de domingo.
Sentindo a brisa e o sol que não conseguia esquentar aquela manhã fria, Linda sentou-se no banco e começou a ler um livro de romance com fantasia e mistério.
-Queria que as coisas fossem simples assim... Brrrrrh! Que frioooo!
-A.
-Hã?... Oh!
Linda olhou para a pessoa que ali apareceu de repente, uma pessoa que ela viu apenas uma vez, mas que a marcou por um simples motivo:
-O carniceiro!
-Hein? Carniceiro?
-Ah! Desculpa, é Petersen, né?
-Isso. Como você sabe meu nome?
-Acabei ouvindo algumas pessoas falando de você. Cê é bem famosinho né não?
-É, talvez.
Ela se levantou e estendeu a mão.
-Meu nome é Linda Morrison, é um prazer te conhecer!
-...Prazer.
Ele, meio sem jeito, segurou a mão dela. A garota de óculos sorriu para ele. Por um momento, a garota sentiu a mão dele tremer.
-ATCHUM!
Mas quem estava sem roupas adequadas para o frio era ela.
-Ei, não seria melhor ir pra casa não?
-...Nessas horas o homem tem que dar o casaco pra a moça nas histórias. – ela falou com convicção.
-É sério?
-Hehe, é uma pia-
O rapaz a envolveu com o casaco a qual ele estava usando a pouco.
-Agora pode voltar pra casa sem correr muitos riscos, certo?
-...Uhum...
Foi a primeira vez que um rapaz havia feito algo do tipo com Linda.
-Esse seu cachorro...
-O Seu Bola? Ele é muito gordo né não? Parece que vai explodir, hahaha!
O rapaz se ajoelhou para fazer carinho no animal.
-Seria uma pena se ele explodisse...
-Eh?
-Você é malvada por pensar desse jeito.
-EH???
Linda se viu como uma condenada por um juiz vestindo calças largas e um suspensório, sem camisa e com um boné do Framengo.
-E-era uma piada!
-Uma piada?
-Isso!
-... Então eu retiro o que disse, você não é malvada, desculpa.
-Tudo bem, tudo bem... “Qualé a desse cara?”
-Acabei te segurando aqui, foi mal por isso. A gente se vê por aí, Linda Morrison.
-Tá bom, até algum dia.
O rapaz continuou sua caminhada e sumiu da vista de Linda, que ficou parada tentando entender o que diabos acabou de acontecer. Só que... Ué? E esse casaco aí Linda?
-AH! O CASACO!
O Seu Bola latiu, parecendo chamar Robert, que possivelmente já estava a mais de meio parque do animal e sua dona.
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Já era segunda, o intervalo de almoço chegou e Carol iria para o terraço como de costume. Porém, sentado na escada, Pedro disse que ali não seria mais seus locais de encontro. Ela o olhou. Ele assentiu com a cabeça seguido de um joinha. A moça parecia estar feliz. Então, eles começaram a caminhar, ombro a ombro, até um outro local.
Chegando no tal lugar, era a novíssima sala do Clube de Artes e estavam ali esperando os dois: Castus e Linda.
-Eae, Pandarim! – falou Castus.
-Osu! – disse Linda .
-Então foi por isso que cê não voltou mais pra sala depois de ir ao banheiro! – disse Carol apontando para sua amiga.
-Hehe!
-O que você tá fazendo aqui, Morrison?! – disse Pedro.
-Primeiramente, oi presidente Pedro; segundamente, me chama de Linda porque Morrison é másculo demais; e terceiramente, euzinha aqui ajudei a limpar essa bagunça!
-Certo, certo, muito obrigado por seu trabalho prestado... Agora vaza.
-Qué isso Presidente!
Ela andou até Pedro e segurou em sua camisa com olhar de gato pidão.
-Urgh! Olha, se a Khefera ou o Gomis me pegar trazendo quem não é do clube pra cá vão achar que só tô matando o tempo aqui!
-Então... ME FAÇA SUA FERRAMENTA, PRESIDENTE!
-...
-...
-...
O silêncio constrangedor após um grito desses ampliou ainda mais os ecos pelos corredores. E então, em uni e bom som, os três ali presentes gritaram:
-HEIN?!!
Era óbvio que eles teriam essa reação.
-Ah! B-bem, digo, eu quero fazer parte do clube e tals... – disse Linda tentando limpar a burrada que acabou de fazer.
Pedro se abaixou um pouco até conseguir deixar sua boca perto do ouvido de Carol e disse:
-Essa sua amiga... Ela usa alguma coisa?
Carol se virou lentamente para olhá-lo.
-Talvez.
Ela voltou seu olhar para Linda.
-Depois de uma dessa eu realmente tô com dúvidas.
-H-hein...
Castus, de repente, fechou o livro que estava lendo naquele momento... na real, era uma revista de produtos daquele centro de comércio ao qual eles foram no mês passado.
-Bem, deixa ela aí, por enquanto, depois cês se resolvem quanto a ela entrar no clube ou não. A gente precisa se concentrar no que realmente importa.
-É mesmo. Carol, se senta aqui.
Ele apontou para a cadeira vazia a sua frente que ficava de cara com a janela fechada. Ela sentou-se e ele, em seguida, foi para o assento de costas para a janela.
Parecendo uma cena de reunião de vilões nas grandes HQs, Pedro cruzava os dedos a frente de seu rosto enquanto os outros dois estavam com um semblante sério.
- “Tá parecendo até um interrogatório.” – pensou a vice.
-Carol...
-Desembucha.
-Não acaba com o clima, sua android.
-Tá.
-Carol Pandarim...
-O que vocês querem de mim?
Com um semblante seriamente sério, Pedro a encarou.
-Eu quero...
E então sua mão se moveu para apontar para o rosto de Carol.
-...Quero que você...
Parando numa posição digna de um “OBJECTION!!!”, ele falou, com determinação:
-FAÇA O CARTAZ PARA CONVIDAR MEMBROS!
A garota o olhou, levantou-se de sua cadeira, pegou seu estojo, tirou um lápis de dentro dele e apontou para o presidente.
-Sim, senhor!

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