O beijo do casal não era de paixão desenfreada, mas sim tímido e até hesitante. Era um teste de lábios, uma pergunta singela. A sensação dos lábios de Aiko era macia como algodão, e tinham um sabor de canela e caramelo, além de mel e morango.
Quando os dois se separaram, um pouco ofegantes, os olhos úmidos encontrando os radiantes de Ryotaro. A distância entre os dois era de poucos centímetros.
— Ryo-chan… — ela sussurrou, sua voz um sopro morno e agradável contra os lábios dele.
— Foi bom? — Ryotaro perguntou, encostando sua testa contra a dela.
— Bom? Foi perfeito — Aiko respondeu, com uma risadinha baixa e cheia de emoção. — Tá um pouco frio. Pode… me beijar de novo?
Ryotaro não precisou que ela pedisse duas vezes. Se inclinou na direção dela novamente, e a beijou novamente, sem mais hesitação. Suas mãos desceram do rosto dela para a cintura, abraçando seu quadril. Aiko passou seus braços pelo pescoço dela, como se temesse que ele poderia desaparecer.
— Mais um? — Ryotaro perguntou, se separando o mínimo possível para poder falar.
— Sim — Aiko respondeu, sua voz sumida.
E se beijaram outra vez, e o beijo se tornou mais confiante e profundo. Os dois se perderam tanto naquele gesto que acabaram caindo sobre a grama, com Ryotaro por cima de Aiko. Ainda assim, os dois não se separaram. Eles só queriam que aquele momento não acabasse.
Quando, por fim, se separaram, ambos estavam sem fôlego, como se tivesse corrido uma maratona. Seus rostos estavam em chamas, mas seus olhos brilhavam de contentamento genuíno.
— Eu te amo, Ryotaro — Aiko sussurrou contra os lábios dele. — Nunca amei ninguém como eu te amo.
— Eu também te amo, Aiko — Ryotaro respondeu, sua voz doce e suave. — Mais do que todas as estrelas no universo.
Ryotaro se apoiou nos cotovelos, para evitar que esmagasse Aiko com seu peso. A chuva de meteoros acima deles já havia terminado, e os dois só se admiraram por alguns minutos, antes do garoto quieto rolar para o lado dela.
— Sabe, — Aiko sussurrou, olhando para ele. — se me dissessem que eu iria namorar com o Fantasma Negro há alguns meses atrás, provavelmente eu não acreditaria.
— Nem eu acreditaria se me dissessem que eu namoraria a garota mais radiante do colégio — Ryotaro retrucou, pegando a mão dela. — E olha onde estamos.
— Pois é… — e então, pareceu lembrar de algo. — Ih! Tem o bolo ainda! A gente não cantou parabéns!
— Eu já cantei uma música pra você. Não conta?
— Não. Tem que seguir a tradição, amorzinho — ela disse, fazendo biquinho.
Ryotaro soltou um suspiro exagerado e teatral, e se levantou. Pegou uma vela, a colocando no centro do bolo, e a acendeu com um fósforo. Ryotaro cantou parabéns para ela, fazendo Aiko quase chorar de novo, e pediu para ela fazer um pedido. A garota fechou os olhos, suas feições sérias por um momento, antes de um sorriso gentil iluminar seu rosto e ela assoprar a vela com toda a força.
— O que você pediu? — Ryotaro não resistiu.
— Se eu contar, não se realiza — Aiko disse, com uma piscadela. — Mas, se eu posso te dar uma dica, tem a ver comigo, com você e com um futuro muito feliz.
Ryotaro não precisou que ela explicasse mais. Apenas sorriu, um sorriso tímido e íntimo, reservado só a ela, e cortou um pedaço de bolo, dando a Aiko, e também pegando um pedaço para si. Os dois se encostaram ao pinheiro, e comeram, conversando sobre tudo e nada. O garoto quieto contou sobre o interesse de Kaito por Mahina, fazendo a garota radiante rir, e a menina contou algumas histórias engraçadas envolvendo o professor de história do segundo ano.
Enquanto isso, um pouco mais longe de lá, na região de Ginza Ren caminhava com uma câmera nas mãos. Seu sorriso perfeito havia se tornado levemente perigoso e venenoso, e ele transferia as fotos para o celular. As fotos? Eram simplesmente dos momentos de Aiko e Ryotaro debaixo do pinheiro. Por fora, ele se mantinha sereno, mas por dentro se contorcia de rir. Foi quando que, ao passar por um arranha-céu residencial, ele ouviu uma voz atrás dele, uma voz masculina e determinada:
— Ren Kiryu?
O garoto, ao olhar para trás, viu duas pessoas. Não era ninguém mais, ninguém menos que Kaito e Mahina. A garota morava no prédio, e Kaito a acompanhou até em casa. Kaito tinha os olhos estreitos, e Mahina o observava por cima dos ombros do garoto, com seu típico sorriso de raposa.
— Oh, senhor Kaito e senhorita Hoshina — Ren disse, interpretando muito bem o papel de calmo e sereno. — Que surpresa agradável. O que fazem por aqui?
— Eu moro nesse prédio, senhor Kiryu — Mahina respondeu, saindo detrás de Kaito. — A questão é: o que você faz por aqui? Até onde sei, você mora em Shinjuku.
— Sim, é verdade — Ren afirmou, dando de ombros. — É que eu aprecio muito uma caminhada noturna. Tóquio é ótima à noite.
— Sei disso — Mahina retrucou, sua voz seca disfarçada. — E quanto a essa câmera?
— Oh, isso? — ele fez, levantando levemente a câmera. — É que eu soube de uma chuva de meteoros, e fui tirar algumas fotos. O pinheiro solitário é o melhor, não é?
— E fica melhor quando você tira fotos de um casal debaixo do manto de estrelas, não é? — Mahina disse, seu sorriso de raposa ficando mais afiado e perigoso.
— Hã? Não sei do que você está falando — Ren disse, tentando manter sua voz firme, mas ela tremeu levemente. Estava sendo jogado contra a parede.
Mahina olhou para Kaito de relance, que a olhou e assentiu. Assim, Mahina se aproximou, e estendeu a mão, perguntando:
— Você permitiria que eu visse essas fotos dos meteoros, senhor Kiryu?
— Ah, eu… — Ren disse, recuando. — Eu vou imprimir as fotos. Aí… você poderá ver melhor.
Era a deixa que Mahina esperava.
— Senhor Tanaka — Mahina ordenou. — Por favor.
Kaito avançou, e arrancou a câmera das mãos de Ren. O garoto até tentou resistir, mas o ex valentão era muito mais forte que ele. O ruivo apertou os botões, e logo viu as fotos, que eram de qualidade profissional e dariam um bom portfólio se tiradas com boa intenção. Mahina se inclinou para ver as fotos, e disse:
— Bem como eu previa. Ren Kiryu é o stalker do ano.
— Stalker? — Ren disse. — Não! Isso foi só uma coincidência!
— Uma coincidência bem fotografada, diga-se de passagem — Kaito rebateu, entregando a câmera para Mahina. — Você é um merda, Kiryu.
— Você acha que pode me julgar, Tanaka?! — Ren exclamou de repente. — Você, um valentão grande e burro?!
— Heh. Posso ser o valentão grande e burro — Kaito retrucou, estalando o pescoço. — Mas pelo menos eu tenho uma coisa que você não tem: honra. E eu odeio quem não tem honra.
Kaito então o agarrou pelo colarinho, o erguendo alguns centímetros do chão, e com um olhar faiscante e furioso, rosnou:
— Me escute bem, Ren. Você vai sumir de vez, e não vai se meter na vida dos nossos amigos. Pra sempre. Entendeu bem?
— Ou o que, Tanaka? — Ren disse, com o pouco de coragem que lhe restava.
Kaito olhou para Mahina, que apenas assentiu, e sussurrou no ouvido de Ren:
— Que tal uma demonstração?
E sem esperar resposta, deu um soco pesado na barriga de Ren. O garoto, ainda erguido no ar, soltou todo o ar que tinha nos pulmões de uma vez, a dor vindo rápida e cortante. Kaito o soltou, e o garoto caiu de joelhos, curvado e com as mãos no estômago.
— Muito bem, senhor Kiryu — Mahina disse, se ajoelhando e olhando em seus olhos. — Vamos fazer um acordo. É simples: amanhã, na praça central aqui de Ginza, você me dará tudo que você tem envolvendo a Princesa Dourada e o Satozinho. Diários, fotos, gravações… tudo na minha mesa. Inclusive, eu declaro essa câmera como minha propriedade. Entendeu bem?
— E eu acho bom você cumprir esse acordo — Kaito complementou, estalando os dedos. — Do contrário, você ganha a experiência completa. Entendeu bem?
Ren engoliu em seco. Sua mente praguejava maldições contra os dois, mas ele não tinha para onde correr. Sabia que, se negasse, levaria uma surra de Kaito. Assim, engolindo o orgulho pela própria integridade, sussurrou:
— Está bem. Eu trago.
— Ótimo — Mahina disse, dando tapinhas no topo da cabeça de Ren. — Bom garoto. Só não tente nenhuma besteira, ok? Agora, por favorzinho, suma daqui, ok? Sua mera presença polui o ambiente e me ofende.
Lançando um último olhar mortal para Kaito e Mahina, ele se levantou e saiu correndo, meio cambaleando. O ex valentão observou o garoto sumir entre as pessoas, e assim que o viu desaparecer, soltou o ar que nem sabia que estava segurando.
— Caramba, senhorita Hoshina — Kaito disse, olhando para ela. — Você sabe ser assustadora.
— E você sabe ser bastante eficiente, senhor Tanaka — Mahina disse, olhando para ele com seu sorriso teatral. — Rapidez e brutalidade, tudo no mesmo pacote. Têm a sua utilidade.
— Valeu, eu acho… — Kaito disse, coçando a nuca.
— Gostaria de entrar, senhor Tanaka? Talvez você ainda tenha algumas… perguntas.
Kaito corou, esfregando ainda mais a nuca. O clima mudou tão drasticamente de tensão violenta para intimidade constrangedora que ele ficou sem reação por um momento.
— É… tá, por que não? Acontece que… olha, não sei se é uma boa ideia. Você… deve me achar um animal.
Mahina deu uma risadinha suave, não tão dramática e sim mais genuína e contida.
— Talvez um pouquinho, eu admito. Mas é um animal bem útil e interessante — ela então se virou, e caminhou até a entrada do prédio. — Me acompanhe, senhor Tanaka. Meu tio viajou a negócios, então a casa está bem silenciosa. Poderemos conversar muito bem. Afinal… você realmente sabe como conquistar uma garota enigmática.
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