Ryotaro engoliu em seco. Mahina era mesmo eficiente, e aquilo o assustou. Ao olhar o horário, viu que ainda eram sete da manhã. Tinha tempo para descansar um pouco. Porém, antes que pudesse fechar os olhos de novo, Aiko se mexeu, soltando um gemido fraco. Então, seus olhos dourados se abriram. No começo, ela ficou um pouco desorientada, mas se lembrou dos eventos do dia anterior.
— Bom dia, Ryo-chan — ela sussurrou, sua voz ainda rouca de sono.
— Bom dia, raio de sol — Ryotaro respondeu, beijando o tipo de sua cabeça.
Aiko afundou o rosto no pescoço de Ryotaro, soltando uma risada baixa e abraçando o namorado com um pouco mais de força.
— Raio de sol? — ela disse, após parar de rir por um momento. — Isso é tão brega.
— Não pensei em nada melhor — Ryotaro confessou.
— Bem, isso é melhor do que o “Princesa Dourada que todo mundo chama — e após um breve momento de silêncio, sussurrou:
— Sonhei com você.
— Sério? — Ryotaro disse, afagando sua nuca. — E como foi?
— Lindo. Um dos melhores sonhos que já tive. A gente tava mais velho, talvez com uns vinte anos. Nós morávamos juntos, em um sobrado. O pequeno Yahiko — o gatinho — também estava grandão, e você… virou um escritor de sucesso. Todo mundo lia seus livros.
— Isso é bem legal mesmo. O meu sonho foi um pouco mais… formal.
— É? — ela disse, olhando para ele, curiosa. — E como foi?
— Perfeito. A gente… a gente tava se casando. Debaixo de uma grande cerejeira.
A declaração fez Aiko congelar de surpresa, arregalando os olhos e ficando imóvel por um momento. Ryotaro já se posicionou para pedir desculpas, mas Aiko descongelou e murmurou:
— Você… sonhou com nosso casamento?
— Sonhei — Ryotaro respondeu, desviando o olhar. — E honestamente, queria não ter acordado só pra poder me casar contigo.
Aquilo foi mais que suficiente para ela. Aiko sorriu, um sorriso emocionado e muito feliz, e sussurrando um “Oh, Ryo-chan…”, o beijou em seus lábios, parecido com o beijo que trocaram no ofurô, porém um pouco mais lento e profundo, não tão exploratório mas ainda cheio de significado. Quando se separaram, estavam com a respiração levemente mais rápida.
— Então vamos trabalhar nesse sonho — ela disse, sua voz firme e clara. — Primeiro, vamos terminar o colegial. Depois, a faculdade. E aí… quem sabe?
— Quem sabe? — Ryotaro repetiu, sua voz carregada de uma esperança recém descoberta.
O celular de Ryotaro vibrou de novo, mais insistente e menos urgente. Aiko suspirou, e se espreguiçou como um gatinho, seu yukata azul cedendo levemente, fazendo Ryotaro desviar o olhar outra vez.
— Honestamente, alguém tem que fazer o Yuta parar de falar tanto — ele disse, em um tom de brincadeira.
— Verdade — Ryotaro concordou, dando uma risada curta, mas humorada. — Ele fala demais.
Os dois se trocaram, dobrando seus yukatas e vestindo suas roupas do dia anterior, e após se servirem de um café da manhã tradicional e se despedirem de Yumi, Ryotaro levou Aiko para casa. Ela andava dando pulinhos e balançando o braço que ele segurava a mão como uma criança feliz. A menina reparava em tudo, até mesmo nos pequenos detalhes, como uma libélula que voou velozmente à frente deles.
Ao chegarem na casa dos Takane, Misao já os esperava, com um olhar preocupado, mas que se aliviou ao ver os dois chegarem. Aiko correu até a mãe, e a abraçou. A mãe da menina logo começou a bombardear ela de perguntas sobre como foi a noite.
— Foi perfeita, mãe — Aiko respondeu, sorrindo suavemente. — O Ryo-chan foi incrível quando conseguiu o Ryokan.
— E ela se comportou? — Misao perguntou, se dirigindo para Ryotaro.
— Ah, se comportou sim — Ryotaro respondeu, assentindo. Então, teve uma ideia só pra brincar com a namorada que, em sua cabeça, foi genial. — Mas ela deu uma birra daquelas. Demorou pra acalmar ela.
— EI!!! — Aiko disse, corando furiosamente. — EU NÃO FIZ BIRRA!! VOCÊ TÁ MENTINDO NA CARA DURA!!
Ryotaro apenas manteve sua expressão neutra, mas seus lábios tremeram levemente. Misao notou isso, e decidiu entrar na brincadeira, fazendo uma carranca exageradamente teatral.
— É sério isso? — Misao disse. — Fazendo birra aos 16 anos, Aiko Takane? Vou ter que repensar esse namoro…
— MÃE!! — Aiko exclamou, seu rosto ficando vermelho como um tomate maduro. — É mentira dele! Eu não fiz birra, eu juro! Ele que quase deu Tela Azul quando eu… — e parou abruptamente, tapando a boca com as mãos, percebendo que iria revelar algo ainda mais constrangedor.
Ryotaro arqueou a sobrancelha, com um sorriso genuíno e malicioso surgindo em seu rosto.
— Quando você o que, Aiko?
— Nada! — ela disse, a voz abafada pelas mãos. — Nada, nada, nada!
Misao riu, um som claro e alegre que ecoou pela sala de entrada.
— Tá bom, tá bom. Não precisam brigar, crianças. Ryotaro, obrigado por cuidar dela.
— Disponha — Ryotaro disse, se curvando levemente. — Agora, se me permite, preciso ir.
— Tudo bem — Aiko disse, seu rubor diminuindo levemente. — Me avisa quando chegar em casa, ok?
— Vou tentar não esquecer.
Beijando a testa da menina, Ryotaro se despediu de Aiko e Misao e foi para a cafeteria. Ao chegar lá, Harumi, a gata preta arisca que dormia em cima de uma prateleira, apenas abriu um olho com desdém e continuou dormindo. O garoto quieto reparou que Mahina ainda não estava lá, então pediu o que ela havia pedido a ele por mensagem e se sentou em uma cadeira. Depois de uns dez minutos, exatamente às 11 horas, a garota chegou. Ela usava roupas diferentes das que estava habituada a usar, usando uma camiseta preta, jeans rasgados, tênis brancos, uma jaqueta de couro e luvas sem dedos de motoqueiro.
— Oh, olá Satozinho! — Mahina disse, acenando para ele e se aproximando. — Chegou adiantado. Muito bom!
— Oi Hoshina — ele disse, simplesmente. — Seu café.
— Muito obrigada — ela disse, se sentando a frente dele. — Muito bem, vamos direto ao assunto. Eis o seu dossiê completo. Ren Kiryu. Ou, melhor dizendo… Ren Shinazugawa.
A afirmação fez Ryotaro engasgar com o ar.
— Shinazugawa?! — ele disse, arregalando os olhos. — O mesmo clã do Takeru?!
— Exato — Mahina respondeu, entregando um pacote de papel vermelho. — Ele é um membro de alto escalão naquele clã, e ainda por cima é primo de terceiro grau de Takeru.
Ryotaro abriu o pacote, e viu as informações. Mahina era realmente meticulosa. Havia várias informações, desde transferências escolares até histórico criminal. Crimes de agiotagem, roubo e até assassinato.
— Eu não entendo — Ryotaro disse, após folhear algumas páginas. — O que um cara do clã Shinazugawa iria querer comigo e com a Aiko?
— Pela minha pesquisa, — Mahina respondeu. — o patriarca do clã não gostou nem um pouco de você interferir nos negócios. Primeiro o seu pai ganha um processo contra eles, e agora você banca o herói. Não é nem um pouco bom pros negócios.
— Mas e a Aiko? Você sabe o que ele quer com ela?
— Quinta folha, Satozinho.
Ryotaro folheou rapidamente até encontrar a quinta folha. Lá, com o título de Operação Supernova, estava o plano, que consistia em Ren se aproximar de Aiko, fazê-la duvidar de seus amigos e de Ryotaro, isolá-la deles e de sua família, para então a sequestrar. Um plano tático e mortal para atingir a família do garoto quieto.
— Desgraçado… — Ryotaro sussurrou, sentindo um embrulho no estômago. — Tudo por causa de dinheiro…
— Dinheiro move o mundo, fofucho — Mahina disse, bebendo um gole de café. — E quando se trata de separar pessoas, Ren Shinazugawa é especialista. Ele não é apenas força bruta como Takeru. O que o primeiro possui de força, ele possui de carisma e inteligência.
— Eu não vou deixar ele chegar perto da Aiko. Não posso deixar.
— Isso é bem audacioso, Satozinho — ela retrucou, com um sorriso de aprovação. — Mas como pretende deixá-lo longe de sua nova vida. Algum plano? Ah, e espancar ele em um beco é uma péssima ideia. Só vai comprovar o ponto dele.
— Pela primeira vez, eu estou sem ideias — ele disse, suspirando.
— Muito bem. Pois eu tenho uma ótima ideia — ela disse, com um sorriso lento e perigoso se desenhando em seu rosto. — Vamos expôr esse desgraçado.
— Miú? Como vamos fazer isso?
— Eu e o senhor Tanaka tivemos um pequeno encontro incoveniente com ele perto de minha casa. Pegamos posse de uma câmera que ele usou para fotografar vocês, e hoje de manhã, ele entregou o resto das coisas que ele tinha em sua posse.
A declaração fez uma nova fúria incandescente subir por seu rosto, mas ele a conteve. Não era hora de um surto.
— Tá, mas você não explicou ainda como vamos expôr ele — Ryotaro disse, cruzando os braços.
— Com os arquivos que tenho, eu só preciso de um dos meus inúmeros títulos — Mahina disse, dando de ombros. — O de jornalista amadora! Aí, é entregar para o Yomiuri Shimbun e para a CNN, e deixar o caos rolar.
— Você tem certeza disso? E se isso só colocar um alvo maior em nossas costas?
— Eles não vão saber quem enviou. Vou enviar anonimamente. Isso vai fazer o clã recuar para as sombras viscosas deles de novo, e vão nos deixar em paz.
— Só espero que essa paz seja definitiva.
— Será, Satozinho. Confie em mim.
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