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Escamas em um Morcego

Após a Tempestade

Após a Tempestade

Feb 11, 2026

— Ajuda… Por favor, me ajuda… — As palavras saíam atropeladas.

As ondas castanhas cobriam seu rosto, enquanto seu pequeno corpo deixava claro o quanto as lágrimas doíam.

Os empregados da mansão se entreolharam e novamente os olhares preocupados estavam sobre a moça na porta, caída, cansada e ferida.

— Acolham a menina na sala de visitas, enquanto falo com o Lord. — A governanta sussurrou para uma das empregadas enquanto seu peito contraiu de pena pela jovem.

A governanta subiu as escadas apressada, passando pelo corredor escuro iluminado por arandelas, assim como toda a casa de poucas janelas. No final do corredor, ao lado do grande quadro que marcava o final do trajeto, a porta da biblioteca a encarava, a mulher endireitou sua postura e limpou seu vestido antes de bater na porta. Ao bater recebeu uma breve resposta, um "entre" baixo, não muito entusiasmado. A porta rangeu e a luz do corredor invadiu a singela, porém valiosa, biblioteca.

Lá estava ele, sentado em uma de suas cadeiras, vestido em seu roupão escuro enquanto lia um livro, e a trêmula luz que o iluminava, criava sombras que ocultavam sua feição. A governanta curvou-se enquanto se aproximava, e mantendo a sua postura, deixou seu Lord a par da "visitante".

— O que devo fazer? — Leni suspirou, apertando a saia, temendo pela moça.

Os olhos do Lorde se desviaram de seu livro enquanto seu rosto pálido ganhava uma expressão perplexa. Normalmente ninguém se aproximava de suas terras, território antigo que herdou. Por conta da grande parte dos casarões serem apenas um refúgio temporário para seus donos, muitas daquelas casas estavam abandonadas, e portanto, poucas pessoas transitam ou sequer pedem por ajuda em uma dessas casas, a sua inclusa. Então o fato de uma jovem bater por ali pedindo por abrigo o surpreendeu, e logo seu coração foi tocado por piedade.

— Há quartos o suficiente aqui para ela se abrigar — A voz grave e baixa e normalmente calma, havia ganhado um tom altruísta. — Permitam que ela entre.

A governanta não pôde evitar deixar um sorriso escapar de seus lábios enquanto ela se curvava novamente para deixar seus aposentos.

— Muito obrigada, Milorde.

Nos corredores, a mulher mais velha suspirou aliviada, e prontamente voltou ao cômodo onde havia indicado aos empregados onde eles deveriam acolher a jovem. Entrando na sala de visitas, ela a viu sentada em uma das namoradeiras, soluçando, e algumas empregadas a consolavam e enfaixavam alguns de seus machucados.

Era uma noite de verão, nublado, mas não tão frio para a moça tremer tanto, a governanta então, sentou em umas das poltronas e segurou as mãos da menina.

— Milorde permitiu que ficasse por aqui, então bem vinda. Eu me chamo Leni, qual é o nome da senhorita? — A mulher perguntou em tom dócil com um sorriso em seu rosto.

Ela acariciava os dorsos da mão da mais nova, tentando consolá-la.

Os olhos âmbar da jovem encararam Leni e seu peito ainda tinha espasmos por conta de seus soluços, depois de respirar fundo e engolir em seco, ela respondeu:

— Meu nome é Talih, muito prazer— Apesar do medo e do corpo trêmulo, a moça abriu um sorriso de gratidão.

Leni retribuiu o sorriso afável e logo após Talih se acalmar, ela achou que seria um bom momento para questionar o porquê de ela estar tão assustada, quem ou o que queria a fazer mal?

— Então, Talih, pode nos contar o que houve? Quem quer te fazer mal?

— Eu… eu vim de longe… — a voz da mais nova saiu quase como um sussurro enquanto apertava a barra de seu vestido. — De uma tribo em um arquipélago longe daqui… — A menina dava longas pausas,e às vezes tamborilava sobre seu colo para manter a calma— Eles não gostavam de mim e como minha mãe se foi, eles vieram atrás de mim… e eu fugi. — Ela disse em meio a sua respiração que ficava apressada a cada minuto.

A testa de Talih franzia, ao passo que ela se encolhia ainda mais na namoradeira.

— Eu quero agradecer a vocês e ao seu Lorde por me deixarem ficar aqui, muito obrigada. — O rosto da moça era alegre mas ainda carregava pesar, ela sorriu com os olhos inchados pelas lágrimas.

Leni retribuiu o sorriso e com doçura falou para a jovem:

— Pode ficar por aqui o tempo que precisar.

Algo clicou na mente de Talih, ela rapidamente buscou na mochila que havia trazido consigo as coisas de valor que havia acumulado com o tempo.

— Eu…Eu tenho dinheiro, pedras, algumas coisas que valem bastante, eu quero pagar a bondade de vocês de algum jeito! — Ela disse estendendo em suas mãos um saco de pedras preciosas que ela havia achado e cédulas de dinheiro que havia guardado.

— Não, não, minha pequena, isso não é necessário. — Disse Leni empurrando calmamente as mãos estendidas da mais nova.

— Apenas uma dúvida, senhorita, como você veio parar por aqui? Como disse, você veio de um arquipélago, e o mais próximo pelo que eu possa me lembrar, não tem um caminho de terra. — Questionou uma das empregadas.

— Eu vim pela água. — Talih revelou calmamente, não entendendo os súbitos sobressaltos dos empregados.

Dali, o coração dos serviçais se penderam ainda mais de compaixão, e no meio dos burburinhos ouviu-se coisas como:“Pobrezinha! ela deve ter sofrido tanto!”; “Deve ter sido tão difícil chegar aqui, pelo mar traiçoeiro então?!”; “Soube de histórias de pessoas próximas que já perderam alguém para o mar…”; “Se marinheiros experientes já têm problemas com a água, imagina uma mocinha tão pequena?!”. Então, prontamente alguns cobertores foram postos sobre Talih, e uma das empregadas serviu uma quente e reconfortante xícara de chá.

Mal eles sabiam que a menina por sua vez entendia patavina de suas reações, foi um trajeto árduo? Sim, mas não tão complicado assim, já que ela havia vindo das águas, e as conhece desde que se entende por gente… Ou peixe como ela era.

— Por favor, nos conte seu trajeto! — A empregada que sentava ao seu lado e que a havia trago para aquela sala perguntou.

— Bom, eu nadei pelo mar até chegar ao porto, e então eu fui me afastando dos píeres para que ninguém me visse… — Talih foi contando sua trajetória até que ela parou achando que seria o bastante, mas viu os rostos curiosos das pessoas à sua frente, então continuou — Até que eu achei a foz! Então fui nadando por ali até chegar no rio, e depois eu fiquei escondida pela margem e o restante do caminho eu fiz a pé, até chegar aqui! — Ela contou o final de seu caminho com um sorriso e novamente foi recebida pela surpresa dos seus ouvintes.

Não era exagero dizer que os funcionários estavam encantados pela senhorita, ela tinha trejeitos tão suaves e uma voz doce, e um sorriso muito belo.

Já Talih sentia a calmaria soprando em seu corpo, apesar da atenção estar concentrada nela e em sua história, o carinho dos funcionários a deixava em paz, além de sentir uma aura mística no local, única, que a deixava confortável apesar da sua inicial timidez.

A comoção criada por ela alertou certa pessoa no andar de cima, e seus passos gatunos descendo as escadas não foram ouvidos pelos serviçais que ainda estavam encantados pela história de Talih. O dono da casa não queria causar uma comoção e deixar a convidada desconfortável, então absteve-se de se apresentar de supetão.

— Senhorita, as suas roupas parecem não ter secado completamente. Se precisar, temos peças extras, assim a senhorita não ficará doente. — Disse preocupada uma das empregadas.

— Agradeço muito, mas não se preocupe, eu tenho alguns vestidos extras comigo, não quero incomodar. — Ela negou sorridente.

— Ah, a senhorita é uma leitora também? — Comentou outra empregada ao perceber livros na bolsa de Talih. — Sinto que a senhorita e o Lorde Manfred se darão muito bem! — Completou ela, animada.

Ao ouvir seu nome sendo citado, o homem decidiu espiar a sala de visitas, escondido na escuridão de seu corredor, ele observa a sala, tentando ver a tal menina.

— Essas são obras do meu escritor favorito! Infelizmente a água deve ter estragado algum deles, mas sinto que ainda estão legíveis— Ela comentou abraçando sua bolsa. — Pelo menos espero.

A voz suave dela o atraiu, como um eco invadindo seus ouvidos, entoando uma sinfonia magnética… Mesmo que ela não estivesse cantando… E quando ele finalmente consegue vê-la, seus olhos simplesmente não podiam crer no que via.

Ele vivera muitas décadas e vira muitas coisas, mas ele podia dizer com toda certeza: Nem mesmo em seus mais sublimes devaneios, havia se deparado com uma dama de tal beleza.

Apesar do ambiente confortável que a sala de visitas havia se tornado, ele pôde perceber que tal dama era um tanto tímida, com suas mãos sobre seu colo enquanto sorria timidamente para os espectadores de tal musa.

Ele nem sabia por onde começar a descrevê-la, talvez por suas curtas ondas castanhas que o lembravam o mar em tormenta em uma noite sem lua e que emolduravam seu adorável rosto, com cachos que caíam sobre sua testa que a deixavam ainda mais etérea.

Ou ainda pela sua estrutura frágil semelhante à de uma boneca delicada de porcelana, movimentos brandos e ainda trêmulos que despertavam nele o desejo de aconchegá-la e guardá-la para que nada a fizesse mal.

Quiçá por sua pele escura e aparentemente quente por conta do calor que emanava e, um tom que o lembra uma xícara de chá bem forte com dois fios de mel, coincidentemente o exato jeito como ele gosta de sua bebida favorita, ela reluzia lindamente a luz das velas, brilhando como bronze polido.

Ah… mas seu rosto tão angelical, as íris de um profundo castanho dourado, encobertas por olhos de raposa, caídos e puxados, semelhante as gravuras dos nativos do "Novo Mundo" como ele ouviu fala. Mas logo seus pensamentos foram distraídos pelos lábios da jovem, cheios, assemelhando-se a pétalas, e que tomavam uma forma tão encantadora cada vez que ela sorria.

Tudo nela parecia vir de um sonho, e Manfred com toda certeza não queria acordar dele.

O rosto pálido assumiu um tom rubro rapidamente, suas orbes púrpuras assumiram um fulgor hipnotizado, ele sentia seu coração querendo explodir em seu peito e seu estômago formigava como se estivesse dançando dentro de si.

Sem perceber, um pequeno sorriso ia nascendo em seu rosto, revelando os protuberantes caninos; após lentamente despertar de seu transe , o homem se encostou na parede do corredor, voltando para a escuridão do cômodo, e lentamente pôs a mão sobre seu peito, sentindo seu interior queimar e pulsar violentamente.

Ele fechou os olhos encostando a cabeça na parede, bagunçando os seus fios loiro pálidos, as novas sensações brotando dentro de si o fez encarar a penumbra da casa de forma perdida, enquanto um sorriso frouxo estampava seu rosto.

Apenas uma última olhada, só vê-la por mais uma vez… Era o que ele pensava, e espiando novamente a sala de visitas, viu que ela parecia mais confortável, suas mãos deixaram o colo de seu belo, mas surrado, vestido amarelo com pequenas flores azuis, e seu sorriso continuava encantador.

A voz da tal dama continuava tendo algo diferente…atrativo e por algum motivo que ele desconhecia, ele queria a ouvir cantar… Após um tempo processando sua atitude, ele se recompôs, afinal não era cortês encarar uma convidada desse jeito, além de ser desrespeitoso. Porém ele se sentiu confuso… Por que ela chamava tanto a sua atenção? Como se tudo nela sussurrasse uma canção nebulosa, sim… não era apenas a sua voz, tudo nela cantarolava uma canção que o atraía para ela, tal qual marinheiro se lançando ao mar ao canto de uma sereia, mesmo sabendo qual seria seu trágico fim.

Ele pôde sentir as ondas lambendo seus pés, a maré subindo e seu coração inundado pelas frias e cruéis águas do oceano.

Respirando fundo, ele se acalmou, mas seu interior continuava clamando insistentemente para mergulhar novamente, para ter a jovem musa em seu campo de visão novamente…

Até que ele pensou um pouco: Eles estariam na mesma casa, eles com certeza se veriam de novo, além disso, ele faria questão de pedir a Leni que desse o melhor quarto da casa a ela.

— A senhorita gostaria de comer algo antes de deitar? Temos Dampfnudeln! — Ofereceu uma das empregadas, levantando a senhorita da namoradeira.

Talih abriu um sorriso reluzindo um brilho em seus olhos.

— O que é isso?

— É um pãozinho alemão recheado, sinto que a senhorita irá gostar. — Riu a empregada.

— Então eu gostaria de experimentar se não for muito incômodo.

Talih direcionou seus olhos a Leni, tentando buscar na mulher algum indicativo de inadequação sua.

— De forma alguma! Venha! — Respondeu Leni, guiando a empregada.

A bela senhorita foi acompanhada pelas empregadas e a governanta que carinhosamente a levaram até a cozinha.

Manfred ficou por ali por mais um tempo, até a sua ausência interromper a incessante canção que vinha da tal dama.

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#romance #mystery #drama

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