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Escamas em um Morcego

Águas Calmas pt 2

Águas Calmas pt 2

Feb 11, 2026

Leni e Talih saíram da sala de jantar que logo teve seu nome corrigido.

— Aquela sala é designada como sala de jantar informal, na qual a maioria das refeições são usualmente servidas. A imponente sala de jantar principal, por outro lado, está localizada no piso inferior e é reservada para ocasiões mais solenes e requintadas.

Os olhos de Talih brilharam ante descrição grandiosa, e sua mente logo a levou para dentro dos livros que adorava ler, pensando nos banquetes e bailes que por ventura ocorreriam por ali, ou mesmo até as tramas maliciosas sussurradas entre os convidados.

— Espero um dia vê-la em toda sua magnitude.

— Certamente irá, senhorita.

Após isso, elas caminharam pelo corredor com pinturas, onde Talih pode novamente se encantar com os belos quadros.

— Ao andar por aqui, eu achei alguns quadros desses tão bonitos… Gostaria de um dia chegar nesse nível. — Talih ri para si.

— Oh, a senhorita é habilidosa com os pincéis?

— Não tanto quanto gostaria, como esses artistas maravilhosos… Infelizmente não conheço muitos artistas, principalmente os deste corredor. — Talih oscilou, encabulada.

Leni abriu um dócil sorriso e tomando a mão da menina a guiou pelo corredor.

— Esse quadro é de John Everett Millais, Apple Blossoms, de 1859.

Os olhos de Talih brilharam, admirando os detalhes nas árvores primaveris, a calmaria das moças aproveitando o belo dia rodeadas das mais belas flores, mesmo o cenário sendo de felicidade, algo incomodava a menina. As feições caídas e até moribundas das jovens retratadas pareciam até transmissíveis, pois, de admiração, seus olhos tornaram-se opacos, era estranho expressões tão tristes em um cenário tão belo.

Porém ela ponderou, que aquilo era algo comum para ela. A ilha em que morava junto com sua tribo era belíssima, com flores, árvores e água cristalina banhando a costa, porém, após tantas maldades e más palavras dirigidas a ela… era impossível manter um sorriso ali, não importando a beleza do lugar.

Antes que os olhos de Talih pudessem se afundar em sua melancolia, a voz de Leni a despertou, a guiando para outro quadro.

— Já esse é bem famoso, Ofélia, também do mesmo pintor. — Os olhos azuis da governanta pairavam na pequena dama ao seu lado — Lindo, não é?

— Sim… Muito belo, apesar de soturno. — Talih sorriu levemente.

Por trás de seus olhos, a figura feminina no rio não trazia uma sensação de desespero, mas sim de conformismo, liberdade. Os juncos ao seu redor pareciam formar a imagem que a natureza estava dando-lhe um abraço final, e as flores lhe prestavam o luto. De uma forma agridoce, a possível canção que Ofélia cantava, tocava em sua mente como uma canção de ninar.

Um fim tão único para uma voz tão única, Talih pensa.

— Sinto que Ophelia gosta muito desse. — Talih comentou, arrancando uma risada de Leni.

— A senhorita tem toda razão, Ophelia tem muito orgulho de seu nome por conta desse quadro.

Guiando a moça para uma outra parte, Leni exclamou:

— Ah! Frederic Leighton! A lua de mel do pintor… Bem íntimo não acha?

— O jeito que se encostam é tão singelo, dá para sentir a união do casal, eles olham a tela com tanta paixão.

Uma imagem que poderia estar em um conto de fadas, Talih pensa.

A dama recostada em seu suposto marido, olhava para o fruto de seu trabalho com admiração. O pintor por outro lado parecia ensiná-la onde cada pincelada ia, onde cada ponto de tinta tocava, e onde cada sentimento transbordava. A mulher retratada na pintura admirava o quadro em seu colo, mesmo antes dele alcançar toda a sua glória, o pintor mostrava o processo do quadro a sua amada, enquanto parecia lhe explicar cada detalhe e o que ele simboliza ali, as vestes simplórias comparadas ao vestido pomposo da esposa mostrava o conforto do casal, que além de se despirem corporalmente, também se despiam emocionalmente, mostrando camadas de si mesmos que apenas a pessoa mais íntima poderia ter acesso.

Trazendo a tona o conforto que ter alguém tão íntimo para compartilhar suas camadas poderia trazer, sentir-se livre para se expressar e ser, sabendo que não iria afastar a pessoa amada, Talih suspirou, imaginando o quão sortuda seria se tivesse alguém que a olhasse com tanto amor, e que ela pudesse explicar onde cada pincelada ia, onde cada ponto de tinta tocava.

Alguém que a visse além do que ela era.

— A senhorita é realmente tão inocente… — Leni suspirou gentilmente — O sentimento do casal é realmente tocante, a ‘estação dos noivos’ normalmente não é representada de maneira tão calma… E vestida se eu puder ser honesta. — a mais velha riu para si mesma, ganhando um olhar confuso de Talih, o que apenas fez com que seu olhar transbordasse carinho por aquela moça tão pura. — Além de ambos compartilharem a mesma paixão pela pintura, é realmente tocante de se ver.

Talih assentiu ao seu lado, e virando-se um pouco, observou um quadro que fez seu coração se apertar: Entrelaçada ao pescoço de um homem, a figura de um ser metade mulher e metade peixe.

— Oh, a senhorita gostou desse? A sereia e o pescador, também de Leighton. Seres encantadores, não acha? Cresci ouvindo histórias sobre elas, confesso que tenho medo delas, com algumas notas enfeitiçando homens para afogá-los! Tão belas mas assustadoras. — Leni riu.

A respiração de Talih vacilou momentaneamente após o comentário de Leni, sua garganta fechou enquanto os olhos se arregalaram.

Não, não vou ter que fugir de novo não é?

Pequenos tremores tomaram conta de seu corpo e seu olhar vacilou para longe do quadro.

Estou tão bem aqui! Por favor, que eu não esteja em perigo de novo.

Por favor, que eu fique a salvo.

O doce aroma de alecrim e canela vindo de Leni estava a deixando zonza, diferente do efeito calmante que essas especiarias costumam ter.

Por favor, que eu fique a salvo.

O coração de Talih acelerou em seu peito e seu primeiro instinto foi fugir como sempre esteve fazendo.

Por favor, que eu fique a salvo. Por favor, que eu fique a salvo!

Até o cheiro de alecrim e canela se intensificar ao ser segurada por Leni.

— Senhorita? Está tudo bem?

As orbes âmbar balançavam de um lado para o outro enquanto ela tentava se acalmar, segurando firmemente suas mãos.

— Eu… — Sua fala oscilou enquanto seus sentidos se ajustavam, e desviando seu olhar de Leni, ela murmurou: — Eu acho que não são todas as sereias que afogam humanos, elas não são tão assustadoras assim, na verdade sinto que a maioria só ataca se sentir ameaçada… — Talih termina sua fala esperando uma reação compreensiva de Leni.

A mais nova estava apertando suas mãos, ela precisava mostrar esses seres sob uma nova luz, ela não sabia se todos temiam o povo do mar assim como Leni.

— Claro, senhorita, eu entendo. Entretanto, a primeira reação é sempre temer, principalmente o que não conhecemos… — Leni se aproximou da menina e segurou suas mãos, as acariciando levemente. — Desculpe o meu comentário, ao que parece, sereias são os seus seres favoritos, não é?

Talih respondeu com um sorriso torto assentindo rapidamente, tentando disfarçar sua tensão.

— A senhorita veio de um arquipélago, não é verdade? Com certeza já deve ter visto um do povo do mar em pessoa! — Leni comentou e logo após isso, desconversou — Ainda está confortável para continuar o passeio?

A sensação de perigo se esvaiu tão rápido quanto chegou, ao sentir que essa crise havia sido solucionada, Talih riu baixo respondeu:

— Por favor, quero conhecer toda a casa.

Chegando ao final do corredor, novamente o coração de Talih acelerou, mas por um diferente motivo, ao passar por vários lavabos e quartos - um deles o dela - daquele corredor, o final dele se aparenta a um fim súbito de uma jornada que parecia começar a se tornar interessante.

Ao fim do longo caminho, um último quadro se destacava, emanando uma aura magnética e pendurado por uma moldura dourada que parecia pulsar com uma luz própria.

A figura de um cavalheiro de pele alabastrina, que parecia brilhar com luz própria, distinguia-se do fundo escuro, com um rosto sério que revelava uma profundidade cativante. O leve cansaço que amenizava a rigidez de seu rosto causava em Talih o desejo de tocá-lo, de descobrir se era real ou apenas uma obra de arte, se o cansaço em sua fronte era apenas fruto da concentração em um projeto íntimo.

Os caídos olhos púrpuras, do tom de um céu em crepúsculo, encarando o horizonte possuíam um brilho misterioso, um segredo guardado no fundo de sua alma, e que a fazia vacilar em seus passos. As vestes do cavalheiro eram de uma textura tão macia e vibrante, com pedrarias brilhantes e recortes dourados. O tecido parecia fluir como água ao redor dele, impondo ainda mais sua autoridade.

Os fios dourados em sua cabeça brilhavam como uma auréola, descendo sobre seus ombros como rios de ouro, iluminando a escuridão ao seu redor e dando à sua figura uma aura divina e mágica. Mas algo dentro do quadro dizia que o homem retratado ali não era um ser de luz. Talvez fosse um ser humano, com medos, desejos e sonhos como qualquer outro. Ou talvez fosse um ser mítico, com poderes além da compreensão humana, e algo dentro dela que ela desconhecia, desejava que ele fosse além de um mero homem. Sua aura era intimidadora, mas ao mesmo tempo, tão inocente e fascinante, que Talih sentiu seu coração acelerar, ela queria saber quem aquele homem era.

Os olhos dourados faziam questão de guardar cada detalhe do quadro em sua memória, principalmente cada parte das feições do rapaz ali retratado, porém, uma parte de si relutou com aquela decisão, pois seu coração já pertencia a outro, um relacionamento impossível e distante, mas que em seus sonhos era real. M.V Abravontia não era apenas um escritor, e sim alguém que tinha tomado seus pensamentos desde sua adolescência, e uma parte de si gostaria que permanecesse assim.

Mas sua curiosidade era mais forte, e sem pensar ela pergunta:

— Senhora Leni, quem é esse?

— Esse é o Lord, senhorita. Lord Manfred.

Instintivamente, ela levou suas mãos para o peito para acalmar seu coração, possivelmente o rapaz da pintura nem existia mais, talvez o quadro seja apenas uma breve lembrança de quem ele foi um dia.

— Senhora Leni… Podemos ver outras partes da casa?

— Claro, senhorita. Sinto que irá gostar muito do jardim.

As duas caminharam até as escadas, descendo até o primeiro piso e foram para o fundo da casa. Leni abriu a porta vazada de madeira que levava até o jardim, onde as flores brilhavam e se aconchegavam a luz do sol, o show de cores reluziu nos olhos dourados enquanto ela, cativada pela beleza das flores, riu encantada se aconchegando entre os botões, sendo seguida por Leni que levava sobre si um guarda chuva clássico.

— Desculpe senhora Leni! Eu acabei não lhe esperando.

Leni riu despretensiosamente para a menina, tomando sua mão novamente.

— Não se preocupe, senhorita, sei que foi cativada pela beleza das flores, ela quase chega a rivalizar com a sua.

Talih riu envergonhada pelo elogio levando sua mão às bochechas, enquanto caminha ao lado de Leni.

Do lado de dentro, uma figura masculina observa com adoração a imagem da jovem convidada no jardim. Algo em seu interior se exultava ao vê-la tão feliz, em comparação ao estado dela quando havia chegado à casa, e a figura dela andando lado a lado com Leni de um jeito tão confortável e leve o deixava aliviado.

Ele realmente temia que a moça se sentisse intimidada na casa e que por conta disso acabasse não deixando seu quarto, ele até havia mudado sua rotina e teve seu café da manhã na sala de jantar casual; até arrumou melhor os fios loiro prateados, mas não teve a sorte de esbarrar seu caminho com o dela. Mas por conta de sua risada melodiosa, a encontrou, cercada das mais belas flores, desabrochando delicadamente, quase se camuflando entre elas graças ao vestido florido que parecia brilhar em sua pele vibrante, tal qual uma pérola preciosa escondida em uma ostra, mas assim como a jóia, ela se destacava ao ser encontrada.

Pérola.

Esse título combina com ela, pérola. A palavra ressoou em sua mente como uma canção, e nem o sol poderia se comparar com o brilho dos olhos púrpuras admirando a… Pérola, se eles acabassem nunca se encontrando pelo menos agora ele possuía algo para se referir a ela.

Manfred riu para si antes de dar meia volta e retornar aos seus rascunhos, seu coração suspirava aliviado ao ver que a Pérola se sentia segura entre eles, mas antes, em seu pensamento ele corrigiu Leni: Nem o brilho e beleza das flores rivaliza com o brilho daquela que é a Pérola da casa.
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