Andrew não sabia para onde correr. Nem teria como envolvido pelos braços de Cayden. Depois de limpar a bagunça, deitaram-se de conchinha como algum casal apaixonado. Suspirou, perguntando-se há quanto tempo não era levado para cama daquela forma. Desde que se separara do ex-namorado, provavelmente. Rodara dezenas de camas desde então de homens e mulheres, mas era tudo pá, pum, tchau.
Não costumava passar a noite depois de transas casuais, mas Cayden se recusara a chamar aquilo de “caso de uma noite”, o que não impedia Andrew de se sentir tenso. Não eram namorados, a natureza daquela relação era quase jurídica, e, apesar de saber todas as informações públicas possíveis sobre Cayden, ele não sentia que conhecia o homem de verdade para puxar qualquer papo íntimo.
Deslocado. Simples e puramente. Se encaixavam tão bem na hora do sexo, aquela conchinha era o ápice do desconforto. O braço de Cayden pesava demais, Andrew tinha se encolhido muito sem querer e agora não conseguiria se esticar sem pedir licença, mas estava acuado demais para falar algo. Puta merda, Andy, onde tinha se metido? Aquele homem era podre de rico e tinha um contrato de sigilo. Poderia fazer qualquer coisa com ele e sair impune. Nem lera direito o contrato, estava com pressa, e se houvesse alguma clausula maluca? Tinha um dom para pensar com a cabeça errada nas piores horas possíveis.
— Não foram meus pais — disse Cayden do mais absoluto nada.
— Quê?
— As cicatrizes. Você estava olhando. Foi durante o Foster Care. Meus pais nunca fariam algo assim, nenhum deles.
Relaxou, lembrando dos círculos nas costas do White, era um homem de carne e osso como ele. Pensou em girar para olhar nos olhos de Cayden, mas sentia que ele talvez não quisesse.
— Eu… desculpa. Não queria te deixar incomodado. Sinto muito.
— Não diria que me incomoda. — Cayden soltou um riso frouxo. — Quando era mais novo incomodava, nunca tirava a camisa. Hoje em dia acho que é questão de confiança. Não só pelo contrato, mas porque exijo toda a confiança dos meus submissos. Estar vedado, imobilizado, tudo isso, precisam confiar com a vida em mim. Nada mais justo que confiar de volta também.
— Viu a cicatriz fina no meu pulso esquerdo? — Na ausência do que falar, restava aquilo.
— Notei sim.
— Eu tinha seis anos, meu pai queria me ensinar a andar de bicicleta sem as rodinhas. Fui reto e bati numa lata de lixo, cai por cima do pulso e ganhei uma fratura exposta. A cicatriz é onde ficaram os pinos.
Nem de longe era o mesmo, mas era o melhor que tinha a oferecer. Expor sua própria cicatriz patética com história besta. Confiança em via de mão dupla.
— Mesma idade então — Cayden girou na cama, ficando de peito para cima. O braço largado acima da cabeça. — Minha mãe biológica foi presa quando eu tinha seis anos, passei dois anos num lar temporário. Você já deve saber disso tudo, enxerido como é.
Girou também, encarando o teto escuro.
— Sabia, mas não consta nada disso na ficha médica. Também não houve julgamentos depois da adoção.
— Sabe que isso é crime federal, né? — Aquilo soava muito mais como uma ameaça do que uma provocação. — Foram os White, tudo foi feito com toda discrição do mundo. Eu também não abriria minha boca para dizer nada na época, não confirmei mesmo que fosse óbvio.
— Quando tinha oito anos eu não consegui contar pra minha mãe que me chamavam de “mulherzinha” na escola, imagine isso. — Riu de nervoso. — Desculpe ter me metido tanto, ossos do ofício.
— Não se meteu tanto assim se não sabia disso. Significa que conhece alguém dentro do serviço social, mas não na vara familiar.
— Você é medonho. — Encarava a silhueta musculosa de Cayden, o quarto estava praticamente sem luz nenhuma.
— Um conselho profissional: nunca confirme onde conseguiu essas informações, ou vai fazer alguém ser demitido e processado rapidinho. — Tinha certeza que ele sorria ao falar.
— Você adorou a matéria.
— É meio arturiana demais para o meu gosto pessoal, mas imagino que venda bem a proposta. Meus pais adoraram pendurar ela na parede, porém.
— Qual é, você se dá uma imagem arturiana, colega, eu só jogo com as cartas que me dão. — Ergueu-se de lado na cama, sentindo certa ofensa. — Suas notas são impecáveis, a taxa de sucesso dos seus casos é absurda, trabalhou na promotoria e já pisou na Suprema Corte três vezes, conseguindo vencer em duas delas. É o advogado perfeito da família de advogados perfeitos, Cayden.
— Você não é pobre demais para pagar por tantas informações sigilosas, não? Minhas notas, sério?
— Não precisa pagar se estava saindo com o secretário do reitor — gabou-se daquele feito, enrolara o homem por três encontros até conseguir a chave do arquivo por meia hora. Tudo lindo.
— Sinto que vou ter que te tirar da cadeia qualquer dia desses. — Cayden se sentou na cama, o quarto ficou em meia-luz logo depois. Regulara a iluminação pelo celular, Andy supôs. Claro que a casa dele tinha isso. — Mas, não sou tão bom assim em tudo. Quebrei muito a cara antes de fazer dar certo. Já perdi casos por idiotice, já fiquei de recuperação. Tive problemas como todo mundo.
— Eu tenho problemas pra dar e vender, infelizmente nenhum deles acabou numa carreira que paga seis dígitos por ano.
Cayden gargalhou daquele comentário, era a primeira vez que o via rir tanto.
— Se queria dinheiro não deveria ter virado jornalista.
— Então virou advogado pela grana?
— Também, mas era só o apropriado. Meus pais são advogados, meus irmãos são advogados.
— Seu avô é criminalista, escolheu por isso também?
— Deus, você investigou até ele? — Cayden ria incrédulo. — Não. Não tem nada a ver com ele, é algo que decidi desde criança.
— Como assim?
— Ser capaz de impedir que inocentes acabem na prisão, meus casos gigantes são todos para financiar meu serviço como pro bono.
Andrew descobria mais a cada minuto que Cayden era um homem normal e até cansado. Aquela era a melhor resposta que já ouvira de qualquer advogado que decidira se tornar criminalista. Uma pena não ter conseguido aquilo na entrevista, mas duvidava que Cayden fosse se abrir de verdade para um microfone ligado.
— Sabe — focou os olhos no rosto de Cayden —, você é um cara muito foda mesmo, pessoa incrível. Não deveria se esconder tanto atrás daquele risinho comercial insuportável.
— Agora está falando igualzinho minha mãe, vai dormir vai. Está tarde.
Andrew até aceitou a sugestão, estava exausto e vinho sempre dava aquele soninho, mas não sem antes colocar a cabeça no colo de Cayden um pouco. De banho tomado e longe daquele perfume horrível, Cayden White cheirava a grama cortada e memórias de dias mais simples.
***
Sonhou que corria com a irmã pelo quintal de casa, brincavam entre a grama com seus amigos de infância e depois passavam horas a fio na casa da árvore que o nono construíra para eles. Acordou feliz pela primeira vez em muito tempo, girando nos lençóis para ir se aninhar no calor de Cayden, mas ele não estava do outro lado da cama. Abriu os olhos, procurou em volta, mas nem sinal dele.
Era meio impossível perder um homem com as dimensões de uma geladeira, então supôs que ele fora fazer alguma coisa pela casa. Vestiu a primeira camiseta que encontrou enroscada no lençol e levantou coçando os olhos. Bocejou ao sair no corredor, ouvindo um barulho estranho da porta no fim do corredor. Estampidos com ritmo contínuo como se algo estivesse sendo martelado de um jeito mais suave.
De frente para o quarto era a porta do banheiro social, aquela terceira ele supôs se tratar de um escritório, mas com aquele barulho… será que Cayden tinha alguma gaiola BDSM dentro de casa?
Aquela dúvida atiçou sua curiosidade o suficiente para sobrepujar a urgência em escovar os dentes. Caminhou na ponta dos pés como uma criança mal-intencionada e abriu a porta com toda a cautela do mundo.
Música baixinha foi a primeira coisa que percebeu, a segunda foi a bunda maravilhosa de Cayden que corria de costas para ele numa esteira. O terceiro cômodo era uma miniacademia com aparelhos, claro. Cayden vestia apenas um short, exibindo a musculatura e as nádegas fartas. Andrew tomou a liberdade de se encostar no batente da porta e apreciar a vista.
Well, now I get low and I get high
And when I can't get either, I really try
Got the wings of heaven on my shoes
I'm a dancin' man and I just can't lose
— Quem malha ouvindo discoteca? — Andrew não aguentou segurar aquele comentário.
Cayden riu por cima do ombro antes de desligar a esteira e jogar uma toalha de rosto por trás do pescoço.
— É um clássico novaiorquino — retrucou com um sorriso digno de caso ganho no tribunal. — Dormiu bem?
Andrew acabara de descobrir que encontrar aquele homem coberto de suor e sem camisa logo de manhã poderia se tornar um risco à saúde dele. Ficara por muito pouco de mordiscar o lábio e se jogar nos braços dele. Certo, talvez só estivesse fogoso demais desde a formatura. Na seca, para ser sincero.
— Dormi sim. Até demais, pelo visto.
— Levanto muito cedo sempre, não esquenta. — Parou de frente para ele. — Parece criança dentro das minhas roupas, Andrew. — Deu risada da própria gracinha e saiu pelo corredor. — Gosta de panquecas?
— Não precisa… — Suspirou. — Pode terminar sua esteira, não precisa se preocupar.
— Já corri o suficiente. Então, panquecas?
Cayden White não sabia ouvir não como resposta fora da cama pelo que Andrew podia notar. Aceitou e fez uma pausa no banheiro, antes de acompanhar Cayden até a cozinha. Sentou-se numa das cadeiras da mesinha redonda, possuía uma ótima vista das pernas de Cayden dali, especialmente quando ele se abaixava para pegar ingredientes no congelador da geladeira inverse.
— Gosta de mirtilos?
— Gosto — respondeu rindo, era estranho ter alguém como Cayden cozinhando para ele. — Precisa de ajuda?
Cayden sorriu, seus olhos cor de chá-verde se iluminando com a alegria.
— Não acha melhor descansar essas pernas depois de ontem, docinho?
A resposta não era nem de longe a mais descarada que já ouvira na vida, mas deu risada e desviou o olhar. A questão era o tom com que Cayden falava. Compenetrado na tarefa de fazer panquecas e com aquele risinho ladino a tiracolo. Era sério, ao mesmo tempo que tirava com a cara dele, mas Andrew simplesmente não conseguiu deixar de se abalar com toda aquela confiança. Tinha ótimas respostas, mas não conseguiu frasear nenhuma.
Cayden terminara de separar todos os ingredientes na bancada e quebrava ovos dentro de um recipiente. Andrew jamais sentira tanta vontade de comer panqueca na vida.
— Mas, falando sério — Cayden disse sem olhar na direção dele. — Está tudo bem? Acho que me empolguei demais ontem.
— Tranquilo. — Apoiou o queixo sobre o punho. — Meu joelho tá chatinho, mas ele vive assim desde que o elevador do prédio quebrou.
— Joelho? — Cayden olhou por cima do ombro na direção dele.
— Fica estalando de tempos em tempos, dói quando ando muito. Nada demais.
— Você é meio novo pra ter esse tipo de problema — resmungou começando a bater a mistura com aveia. — Já foi no médico?
— A fila pelo medicaid dobra umas três quadras até onde sei, e não sou prioridade. — Forçou o riso, odiava ter que explicar sua falta de um plano decente de saúde. — Não deve ser nada grave.
Cayden olhou para ele por cima do ombro novamente, entreabriu os lábios, mas nada disse. Sentiu-se grato por aquilo. Odiava como todos se intrometiam naquele tópico, ele não tinha culpa se Donna decidira o cortar do plano de saúde da família sem avisar ninguém. Quando a confrontou, ainda teve que ouvir que ela não pagaria para ele ter acesso a PrEP. Mal sabia ela que medicamentos para HIV eram dos mais fáceis de conseguir graças ao Affordable Care Act, diferente de seus antialérgicos.
— Bom, vou tomar cuidado para não forçar seus joelhos daqui pra frente — Cayden falou ligando o fogão.
Teve o impulso de agradecer mais aquele cuidado, mas a porta do corredor de acesso à sala se abrindo o fez fechar a boca.
— Cheguei — disse a mulher loira assim que entrou, ela vestia roupas pesadas e tomou algum tempo deixando o casaco e o cachecol no cabideiro.

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