Olha só a situação que me fizeram encarar
Não consigo viver uma vida normal, fui criado pelas ruas
Então tenho que estar fechado com a quebrada
Assistir televisão demais me deixou perseguindo sonhos
Gangsta's Paradise - Coolio
As lembranças ainda estavam frescas em sua mente, havia sido a primeira vez que percebeu que seu olhar é diferente dos demais.
— Ele... ele é tão bonito.
Seu olhar parou por um instante, o coração disparado em seu peito, as mãos suadas.
— Quem?
Marley olhou ao redor, estavam sozinhos.
Piscou atordoado.
— Não... Não percebeu? Ele passou aqui, agorinha e... seu cabelo ruivo, era uau.
Lembrava da aparência dele, eram todos iguais, mas aquele cabelo vermelho fogo.
Nunca vi alguém que parece uma fogueira.
Sorriu.
A pele branca com marcas de acne formando uma constelação, o cabelo afro imitando brasas ao vento e o jeito que ele sorriu quando me olhou... um sorriso amplo e gentil, sem esconder que usa aparelho dentário mesmo sendo adulto... e seu corpo musculoso, ele deve se importar com a saúde e ser resiliente.
— Deve estar vendo algum Barba Ruiva ou Curupira. Bora logo, Lúcio deve estar nos esperando e ele odeia atrasos, não quero ser punido de novo.
Tenho certeza que não era isso, mas não estou vendo ele... Deve ter tomado chá de sumiço.
- Oh, tudo bem.
Abaixou a cabeça cabisbaixo.
Encontrarei ele lá?
Muitos tem deixado de ir as festas da Ave Antiga, mas ele disse que esse ano chegariam pessoas novas, uma tal de "Lei", que só o nome me deixa com uma pulga atrás da orelha!
No caminho até a festa cantaram as músicas que aprenderam, não eram os melhores cantores, porém sabiam imitar o Uirapuru.
— Eu canto a minha vida, a minha história. O que passei e vivi. — Marley cantou, dançando com uma garrafa na mão.
Antes eu assistia televisão e via pessoas cantando, bebendo e dançando a noite toda, tendo tudo que eu não tenho e eu sonhava com essa vida, desejava!
E hoje podemos viver tudo isso e muito mais, graças a bondade do Lúcio e de todos os outros.
Basta obedecer tudo que falam, trazer algumas pessoas de vez em quando e tudo fica bem!
— Para que todos saibam o insuperável que sou!
Riram.
Acho que ele já está bêbado.
De longe, avistaram as luzes dos holofotes virados para cima.
— Dá pra acreditar que somos vizinhos desse cara?
Passou o braço pelos ombros de Marley, quando ele se curvou para trás em direção ao chão.
— Nós, dois! Eu um pobre, filho de pobres, que só querem saber daquele carpinteiro lá e você um órfão! Pelo menos não precisa receber estranhos em sua casa, fingir que gosta deles e que quer ajudar. Meus pais são dois hipócritas, sempre que eles saem ou eu faço algo errado, me espancam! Acham que sou o Judas dele! Hi-pó-cri-tas! — Zombou.
Terminou de beber o conteúdo da garrafa, tentando que o álcool fechasse suas feridas ou as adormecesse.
Havia levado outra surra antes de fugir de casa, provavelmente apanharia quando voltasse, mas estava acostumado, este era o preço da religião.
— Pelo menos você não precisa conviver com pessoas estranhas te adotando, querendo que você as chame de pai/mãe, cuide de seus filhos, satisfaça seus desejos e não fuja quando te acusarem de roubo, quando na verdade só esqueceram onde guardaram ou seus filhos biológicos roubaram!
Sempre querendo gratidão, sempre causando separação.
Estou farto.
Ainda bem que fiz dezoito hoje!
Vou sumir e não piso mais em um lar que não seja bem vindo.
Tô certo.
Sentiu os olhos arderem e a voz embargar, como das outras vezes, abriu seu casaco e pegou algo que o confortava.
Um crochê velho, que havia guardado de sua avó materna, um arco colorido entre duas nuvens brancas, agora amarronzadas.
“Para que nunca esqueça que após a tempestade, vem um lindo arco colorido, para lembrar que as incertezas não são o fim.”
“São iguais ao meu nome vovó?!”
“Sim, iguais ao meu pequeno Arco.”
Ela foi meu mundo, após meu pai abandonar minha mãe quando soube que eu tinha autismo e que ela estava doente por causa de suas agressões, forçando ela a quebrar o resguardo.
Ele apenas mentiu dizendo que ia na farmácia e fazem quase dezenove anos que está procurando uma.
Espero que seja só isso, e não o quinto dos dois infernos!
Minha mãe era a mulher mais linda que conheci, mesmo quando estava chateada com o humor alterado pelos remédios e me culpava pelo meu pai ou por ser autista.
Ela ainda era melhor que ele, ela ficou... Até não poder mais quando eu tinha sete e seis anos depois minha avó faleceu.
Anos sendo agredida pelo marido alcoólatra, para falecer poucos meses depois dele.
A música eletrônica, junto as luzes, ecoavam por todas as janelas e portas do antigo casarão colonial.
A Ilha das Mentiras, vai conhecer o sentido da vida hoje!
Sorriu.
— Aqui é igual a casa da mãe Joana! — Marley gritou acima da música.
Pessoas dançavam próximas a carros, em grupos, duplas ou sozinhas, bebendo e fumando, todos vestidos de branco, alguns marcados por pinturas ou tintas coloridas.
Homens e mulheres vestidos em uniformes, do tom de suas peles brancas, pardas ou negras, carregam bandejas em suas mãos, nas suas cabeças equilibravam cestos de frutas.
Alusão que prometeram, já que o carregamento de celestes, foi atrasado por causa do experimento na ilha fornecedora... Espero que eles saibam que as frutas em suas cabeças indicam seus destinos... Tomara que o imperador castigue Belsazar por sua incompetência em gerir o experimento e fornecer a quantidade prometida de celestes.
— Um pardieiro! — Gritou de volta.
Essa noite vai ser inesquecível.

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