Tudo o que eu quero dizer é que
Eles não ligam para nós
Tudo o que eu quero dizer é que
Eles não ligam para nós
They don´t care about us - Michael Jackson
Depois daquela noite, Marley sumiu, perguntei aos seus amigos mais próximos.
— Tomou chá de sumiço! Aqui não passou, desde que me pediu minha lace emprestada pra amiga dele, aquela filhote de cruz credo...
— A Cléo?
— Isso! Eles iam para uma festa e ela precisava de uma lace branca, para fantasia de Jaci.
Dolly se ajeitou na toalha verde, seu maiô repleto de desenhos de capivaras praticando passatempos, a mesma estampa do chapéu e do guarda-sol acima dela.
Ela emagreceu bastante, a última vez que a vi tenho certeza que estava mais GG, agora acho está mais para M, que para G... Perder o bebê e ser acusada de aborto pelo marido, deve ter deixado ela péssima, nunca imaginei que a modelo, perderia seu orgulho e o peso.
— Achei que a festa que fossem era a que fomos, mas não vi ninguém fantasiado...
Repararia se alguém tivesse fantasiado.
— Era outra festa, a que meu ex marido, esperava levar nosso filho quando nascesse, mas a gestação era de risco e acabei perdendo quando ele me agrediu.
— Sinto muito
— Sei que não sente, vi o que fazem nessas festas, você é tão culpado quanto o resto deles, talvez pior por fornecer Celestes... Além disso, Marley, espero que encontre um destino pior do que meu filho teve.
As lágrimas escorreram por baixo dos óculos escuros.
Ao redor crianças corriam atrás de bola, soltavam pipas, construíam castelos ou se enterravam na areia.
Ela deve ter vindo chorar pela criança que seu bebê nunca será.
Olhou ao redor.
O campo está cheio hoje, parece que todos vieram nadar nos lagos e pegar um bronzeado para a próxima festa, os frequentadores estão aqui com suas famílias, posso ver seus olhos procurando vítimas.
— Jurei ao meu marido que deixaria tudo quieto, enquanto nosso filho ficasse de fora, mas agora que sei a intenção dele e nosso filho está a salvo, do monstro que escolhi para ser seu pai, vou quebrar nossas promessas, ir até os adoradores do carpinteiro, vou fazer o certo, investindo em alguém que não vê mulheres como gado e crianças como alimento.
— Ah.
Onde Marley pode estar?
Talvez eu deva ir na casa dele outra vez.
— Obrigada, Dolly.
Devia ter dito "obrigado" e se ela perceber?
Ainda não estou pronto para está conversa.
— De nada, gato! Qualquer coisa da um pulo aí, tá precisando de um bronze pra essa sua pele de Drácula!
Gargalhou.
— Não gosto de sol, prefiro dias nublados, combinam com a minha alma profunda e gótica.
Ela gargalhou.
— Com esse cabelo de Faber Castel?
Lágrimas escorreram de seus olhos.
— Sou alternativo.
— Com essa cara de "a coisa mais radical que fiz foi tirar a escada do meu Sims na piscina?” Te enxerga garoto! Eu já atropelei uma pessoa!
— Esse mundo não nos entende.
Se afastou, ainda ouvindo ela gargalhar.
Ficar tanto tempo no sol, faz mal pra minha pele, tenho medo de piorar o vitiligo.
Caminhando reto em direção aos bosques, usou as árvores de sombra, após escurecer, caminhou todo o prado dos lagos e seguiu em direção as cavernas.
Colocando as mãos nos bolsos, pegou os comprimidos do horários e os engoliu, ignorando o desconforto que as pastilhas de plasma fazem.
Devo parecer alguém normal por mais algumas horas, desde que eu sobreviva as alucinações e efeitos colaterais.
Ao seu redor ouviu assobios.
Marley deve ter deixado tudo, ele nunca foi de avisar nada ou de mudar, ele sempre foi só meu companheiro de festas.
Parou diante das cavernas, apenas o ruído dos morcegos e das cigarras.
Vai chover.
— Marley! — Gritou várias vezes.
Que estranho, o aparelho que ele usa, devia servir para me ouvir.
— Mar...
— O que está fazendo aqui?
Assustou com a voz repentina.
Se virou.
— Estou procurando Marley.
Eles são realmente gêmeos.
No escuro é impossível ver que Hachiko tem cabelos castanhos e Marley cabelos pretos.
— Ele não está, papai o baniu depois de saber que virou um desertor e abandonou o Lucius, mesmo depois de ter ganhado o aparelho para surdos. — Hachiko cruzou os braços, o uniforme escolar maior do que deveria, escorregou por seus pulsos.
— Sabe onde posso achar ele?
Deve estar apavorado e se sentindo culpado.
— Ele disse que ia pra casa da Cléo, precisava pegar um dinheiro emprestado com ela e depois iria embora da ilha. — Revirou os olhos.
Ele não tá nem ai pro irmão mais velho.
Apesar que não sou eu que moro em caverna e passo meus dias, expandindo o sistema subterrâneo de cavernas, para serem usadas para transporte.
A casa deles é comum, mas viver em uma caverna é alternativo demais... Apesar das grutas, lagunas, fungos fosforescentes e toda sorte de esquisitice que mantenha pesquisadores entretidos, esse lugar é bizarro....
E não importa o quanto ocultem os experimentos, nunca vou esquecer da vez que dormi aqui, entrei nos túneis com Marley e vimos, vários homens importantes da cidade, profissionais que vendem um padrão que só existe na superfície, porque aqui no subsolo, eu vi as meninas ao lado deles, não deviam ter mais de quatorze anos, vestidas de seda, penteados elaborados, de braços dados a homens admirados até por seus pais.
— Ok, obrigad-o.
Se virou e começou a andar.
Ele não deve ter notado.
Talvez estou sendo paranóico.

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