Línguas de serpente, olhares que condenam
Vendendo a fé por moedas que tilintam
Fogo no peito, mas gelo na veia
Jezabel e Judas, duas faces da condenação
(Eu vejo eles dançarem num pacto sem pena)
Jezabel e Judas brincando com a cena
Jezabel y Judas - Daddy Yankee
Acordou ouvindo o cantar de jandaias e araras.
Dormir no sofá não é confortável, mas era mais fácil do que ir para casa andando durante a lua cheia.
Ainda assim, tenho certeza que ouvi assobios durante a noite.
Sei que dormi mal e a asma deve atacar por causa desse clima seco, mas meu peito parece tão pesado.
Ao abrir os olhos, enxergou pés femininos, pressionados acima de seus pulmões.
Isso é...
As palavras desapareceram junto ao ar.
Tecido acinzentado, subia por seus tornozelos ossudos, quadris largos e tórax afunilado, se curvando e desfiapando no pescoço fino.
Sentiu o corpo tremer de medo.
Seu olhar eclipsado, atento a cada expressão do rosto quadrado, marcado por rugas e destacado pelo nariz curvado e o olhar negro enlouquecido.
Ela não tem pupilas.
Abriu a boca, o grito de pânico se formando em sua garganta.
Minha voz não sai.
A boca aberta, adornada pelos olhos dilatados de medo.
Os lábios rachados se curvaram, deixando os dentes podres evidentes.
— Que faz aqui, garoto grotesco? Achou que sair do armário ia te fazer sair a egípcia? Ãn? Temos olhos te vigiando toodo o tempo, sabemos seus passos.
A respiração rarefeita, deixou seus lábios com dificuldade.
Tentava ignorar o cheiro imundo vindo dela.
— Eu....
— Calado, Mati não te perguntou nada! — Piou.
Fechou a boca, o corpo aberto, tremia, as mãos suavam.
— Vou te deixar ir com eles, não dê uma de esperto fingindo acreditar em tudo, queremos você de volta, mesmo nojento como é. Sua alma é nossa. — Gargalhou.
Saltando para o alto, se transformou em uma Rasga Mortalha, que voou atravessando a parede.
Para eles a parede e nada é a mesma coisa, em seu mundo, nossas construções e proteções são inúteis.
Não importa o quanto eu tente... Talvez nunca consiga escapar deles... Não deve existir um lugar em que não possam me ver, ameaçar e agredir.
Sentou atordoado, o corpo repleto de suor.
Achei que me esqueceriam após eu ter me assumido para eles e terem me rejeitado.
Amigos de infância não deveriam ter preconceito.
Ainda assim....
Colocou as mãos na nuca, a cabeça baixa próxima aos joelhos.
Sentiu o peso da solidão, a tristeza de estar desamparado.
Talvez meus pais soubessem o que fazer, mas eles estão mortos.
Se tivessem vivos, talvez não tivessem orgulho de mim também.
— Vamos tomar café e sair. — Marley falou saindo de um dos quartos.
Nunca o vi usando terno, dizia que era brega, até no casamento da irmã foi apenas de camisa social e bermuda social.
Cleo saiu da outra porta, suas mãos ocupadas segurando um secador de cabelo que passava da raiz as pontas.
Ela está usando vestido, nunca vi ela usar nada que cobrisse o corpo todo ou saltos... Além disso o vestido está bem justo... Marca o corpo dela todo.
— Vem, não quero atrasar por sua causa. — Chamou Cleo, entrando no quarto, depois saindo sem o secador, andando até o bule de café.
Os cabelos dela estão secos, mas a ondulação e o branco sumiram, agora está liso e castanho.
Eles mudaram bastante... Estão se esforçando para serem aceitos... Talvez eu deva fazer o mesmo... Cobrir meu cabelo de preto, usar terno e fingir que não sou homossexual... Até que a mentira se torne verdade.
Se nunca acontecer, basta eu não me casar... Não preciso arrastar outros para o meu egoísmo de fachada.
Sentiu náuseas.
— Podem comer sem mim, estou sem fome.
Em sua mente, não deixava de pensar no aviso.
"Temos olhos te vigiando toodo o tempo, sabemos seus passos."
"Vou te deixar ir com eles, não dê uma de esperto fingindo acreditar em tudo, queremos você de volta, mesmo nojento como é. Sua alma é nossa."
Preferia que fosse só um sonho.
Ouviu Marley bufar.
— Que foi dessa vez? — Pegou a cuscuzeira no armário, o pacote com cuscuz e começou a cozinhar.
Cleo ouvia em silêncio, ocupada passando café.
— A Mati, ela esteve aqui, não ouviu os assobios? Estou tremendo até agora.
Marley revirou os olhos.
— Já falei que essas criaturas não existem, são apenas mitologias, iguais a qualquer divindade egípcia, grega, etcetera. Apenas fábulas, contadas pelos mais velhos, para ensinar algo. — Andou até a fruteira, pegando cebola, depois queijo e bacon na geladeira, então três ovos.
As costas de Marley estavam rígidas enquanto cozinhava, quando se virou, apoiando no armário ao lado do fogão, ergueu o nariz, cruzando os braços.
— Deveria parar de assistir filmes nacionais de terror, toda sexta-feira 13 e procurar algo útil.
Andou até a geladeira pegando manteiga e cheiro verde, adicionando na panela.
— Onde estamos indo, não mencione isso, vai fazer todos te acharem estranho. — O alerta de Cleo, o deixou apreensivo.
Será que isso é verdade? Apenas eu os vejo e ouço?
Deve ser mais alguma bizarrice minha.
Balançou a cabeça concordando.
Passou as mãos pelos olhos, sentia o ardor das lágrimas, mas não queria chorar.
— Onde fica o banheiro?
Cleo apontou a porta, as mãos servindo três canecas de vaquinha.
— Obrigad-o. — Mal olhou para ela.
De ombros baixos, andou até o banheiro.
Pedrinhos marrons, que nostálgico.
Parece que estou novamente do banheiro da minha mãe, até o cheiro de incenso de lavanda é igual.
Se encarou no espelho.
A pele parda, oleosa e cheia de espinhas.
Não lembro de ter comido tanto chocolate.
Abrindo a torneira, molhou as mãos e passou pelo rosto, fechando os olhos castanhos e esquecendo por um segundo que seus cabelos tem a cor do arco.
Ao abrir os olhos, saltou assustado.
Seu reflexo havia desaparecido, em seu lugar uma mulher pálida, usando um vestido ensanguentado sorria, dentes cariados expostos.
Cabelos loiros oleosos, sujos de terra, deixando marcas em seus ombros desnudos e nas alças amarradas do vestido.
O rosto fino, em formato de coração, emoldurava olhos negros, destacados por pupilas amarelo neon.
— Lo-loira do... — Não conseguiu terminar.
Ela saltou em sua direção, ele se afastou as pressas caindo no chão.
A gargalhada dela ecoou as suas costas.
Preciso me acalmar, isso não é real, nada disso é real....Basta pensar que não é real e vai desaparecer.
Abrindo os olhos, viu pés sujos de terra a sua frente.
Prendeu a respiração.
Não é real!
É só um delírio, baseado em uma cena clichê de um filme de terror qualquer.
Os pés sumiram.
Soltou o ar.
Só um clichê, idiota, de terror folclórico.
Queria ter a quem dizer isto.
Abraçou os próprios joelhos, sentindo que o banheiro era muito grande e seu corpo antes alto e malhado, agora era de novo só o de um adolescente magricela que todos agrediam.
“Quem liga se dói? Você é só um órfão de merda, nem seus pais te quiseram, deveria ficar feliz da gente te querer! Agora sobe para o quarto e espera o João chegar, ele disse que vai te dar uma “liçãozinha”, assim que entrar em casa!... Pirralho maldito!”
Não entendo qual o sentido de me adotar, para serem tão cruéis, deveriam ter me deixado no abrigo, onde eu já sabia que continuaria sendo agredido e assediado, sobrevivendo com a esperança de algum dia ser adotado por pessoas que me amassem, cuidassem de mim, não tivessem nojo.
Eles me deram esperança e depois a arrancaram das minhas mãos.
Levantou do chão, o corpo pesado, dessa vez não olhou o espelho, apenas o puxou para abrir o armário, pegou creme dental e usou o indicador direito para escovar os dentes.
Terá que servir, pelo menos não estarei com mal hálito.
Os cabelos que havia prendido no coque, estavam frisados, mas não o bastante para precisar molhar, então os deixou soltou.
Essa camisa laranja e essa calça azul marinho, talvez não sejam as melhores escolhas para conhecer pessoas novas bem vestidas, mas são as cores mais escuras que tenho e também estão sem furos ou manchas.
Não tenho ternos ou roupas sociais.
Nunca usei um, mesmo se tivesse, não saberia vestir ou dar o nó da gravata.
Respirou fundo.
Vou tentar ser otimista dessa vez, pode ser que dê tudo certo e eu seja aceito! Faça novos amigos, talvez até me case.
Ainda otimista, tomou seus remédios.
Eu atrasei o remédio por uma hora, isso deve ter me feito alucinar... É isso.
Deixando o banheiro, Cleo e Marley, haviam terminado de comer, mas seu prato e uma caneca, estavam cobertos por um pano de prato repleto de galinhas desenhadas e a frase: "Bom dia Domingo! Que a paz te acompanhe!".
Quem será que escolheu isto?
Sentando na cadeira, começou a comer o cuscuz.
Está bem temperado... Marley melhorou no tempero.
Provou o café e fez careta.
Além de estar pelando! Também está quente e sem açúcar... Preferia quando Cleo errava a mão e fazia chá-fé... Ou talvez o problema seja o café... Será que ela achou que estou de ressaca? Bom o remédio me deixa grogue pela manhã.
Continuou comendo.
Só queria ser normal... Não precisar de remédios, não usar roupas coloridas, não ter o cabelo colorido, não ter dentes tortos, cariados ou faltando atrás, não ter o rosto marcado por acne, não ser tão malhado ou pardo... Queria não ser eu o tempo todo.
Suspirou.
Passou as mãos nas bochechas, escondendo as lágrimas que escorreram, então olhou ao redor.
Ninguém viu.... Ninguém nunca vê.
Seria bom ter pais... Mas já tive tantos... Tão ruins.
Soluçou.
Será que em algum lugar do mundo, existe alguém que me ama e se importa comigo? Alguém que não tem vergonha de mim e não vai me forçar a mudar quem eu sou... Exceto essas partes que me machuca, mas não consigo soltar....
Eu sou um balão, abraçado a um cacto.
Sorriu, em meio as lágrimas.

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