Estamos apodrecendo o corpo de Cristo
O sangue não tá circulando
O sangue tá coagulando
Estamos no ápice da nova era
E a falsa noiva se rebela
Contra o Noivo que espera ver um caráter cristão
Evangelho de Fariseus - Aymeê Rocha
Cleo demorou muito para alisar o cabelo com a chapinha, por isso estamos atrasados.
Espero que ninguém repare.
Assim que passaram pelo portão, observou Marley olhar na direção das duas bicicletas, uma branca média e outra azul grande.
Os dois aros parecem ser 29... Os quadros também são parecidos, apesar da bicicleta branca ter uma cesta de vime e a azul de arame... Talvez a branca seja menor, ela tem um estilo mais vintage...
A voz de Marley chamou sua atenção.
— Vamos sempre de bicicleta, mas dessa vez vamos andando. — Marley avisou, ajeitando o Aranduka preto debaixo do braço.
Que Aranduka é esse?
Cleo tem um igual... O dela parece menor e com zíper.
— Posso te carregar se precisar...
— Não vai precisar, as bicicletas não tem espaço para sentar e seria desconfortável ir no quadro. — Cleo respondeu, passando as pontas dos dedos em seus cabelos para abrir os cachos feitos com a chapinha.
— Ah....
Andaram uma hora em silêncio, até a cidade mais próxima.
Não conhecia esse atalho, pelo visto usei o caminho mais longo.
— Quando vim, usei o caminho mais longo, não sabia do atalho. — Confessou.
— Só os moradores de chácaras usam essas estrada de terra, no geral os outros usam a asfaltada pra evitar a poeira vermelha e os cascalhos. — Cleo explicou.
Faz sentido.
Eles devem perder a vista dos girassóis.
Eu passaria sempre por aqui, para observar eles.
A cor deles, lembra os olhos daquele cara, sei que deve ser lentes de contato, mas combinaram com ele.
Chegaram a cidade, o barulho do motor de carros, ônibus e caminhões, ecoava cercado por buzinas de bicicletas, relinchar de cavalos puxando carroças e pedestres conversando ou escutando músicas.
A estrada de terra, ladeada por sacos de lixo e caixas, muitos esmagando os girassóis.
Eles não veem a beleza deles?
A delicadeza com que se viram em direção ao sol?
Ratos e baratas, passavam entre os lixos, que eram revirados por trabalhadores vestidos de alaranjado, cachorros abandonados e moradores.
Já fui igual a eles, alguém sem casa e expectativa, usando drogas para ter algum conforto e alegria. Querendo desassociar.
Caminharam entre diferentes ruas, atravessando nas faixas e esperando sinais verdes para pedestres, até pararem diante de um prédio quadrado, o topo com uma placa.
Vinde a mim todos os que estais cansados
Eu estou cansado e estou aqui... E agora?
Esse prédio parece uma loja comercial, achei que fosse ser em uma casa, mas aqui é o setor de comércio, acho que o novo setor de indústrias gráficas.
— Devem ter ido direto para o piquenique da EBD, vamos passar e seguir para os fundos do lote. — Marley guiou o caminho.
Seguiram ele por toda a lateral exterior.
Está trancado?
Manteve seus olhos fixos nas janelas abertas, observando a estrutura das cadeiras unitárias, as paredes brancas, instrumentos musicais e o desenho.
Parece ter alguns desenhos de rebanhos de ovelhas e um pastor carregando uma ovelha com a pata ferida.
— Nosso Senhor, santo é o seu nome. Deixou as noventa e nove ovelhas para ir atrás de cada um de nós! — A voz do homem era imponente.
Ele nem precisa de microfone.
Carros estavam estacionados na lateral, e uma pequena casa ao fundo, tinha um arco de porta na lateral direita do muro.
Os carros estão alinhados no estacionamento improvisado... E a casa tem grades na meia janela da frente e na porta lateral, talvez seja um quiosque durante a noite.
Através dele se via um jardim, árvores frutíferas ladeavam hortas de legumes e verduras.
Parece um paraíso.
As pessoas estavam sentadas em círculo, em cadeiras brancas com um “I” atrás, caminharam até a pilha de cadeiras, próxima a mesa de café e pegaram uma, colocando elas próximas aos espaços vazios.
Esse cheiro de tapioca, pão na chapa, bolo de mandioca e chá de gengibre é bem chamativo.
Queria que alguém fosse pegar, então eu iria junto.
— Antes de estarmos aqui, sermos cristãos, éramos apenas ovelhas perdidas, criadas por um só senhor e desgarradas, vivendo em nossas vontades, prazeres e pecados, até que ele veio e nos presenteou com a redenção. — Elevou a voz no final.
Pessoas concordaram com ele.
— Glória a Deus!
Observou as pessoas.
— Aleluia!
Todos os homens estão de terno, todas as mulheres de vestidos. Até às crianças seguem esse padrão.
Sou o único alheio aqui.
Sentiu alguns olhares, direcionados as suas roupas, cabelos e pele.
Tem algo sujo em mim? Sei que não tomei banho antes de vir, mas não tinha roupas ou toalha, também não era minha casa para sair usando assim.
Preciso ficar calmo.
Sentia o coração acelerando, o ar faltando.
Passou a mão no bolso da bermuda, pegando sua bomba de ar e inalando.
— Por isso hoje...O que é isso? Além de vir para a minha igreja com esse cabelo esquisito e roupas inadequadas, ainda está usando drogas?! — O pastor apontou o dedo para ele.
Arquejos de surpresa e murmúrios de irritação se espalharam.
— Ele é uma má influência... Homem não usa cabelo grande.
— Tenho certeza que já foi preso... Olha essas tatuagens...
— O que? Eu? Não! Isso é para asma! Tenho asma desde bebê, porque minha mãe teve problemas na gestação e....
Não era isso... deveria ter falado que meu pai tinha asma...por ser doença genética... assim entenderiam que é hereditário.
Sentiu a garganta se fechar, as vistas escurecerem, inalou o ar, respirando fundo.
As pessoas o olharam desconfiadas.
— Não minta para mim garoto! Sei o que essa sua juventude quer! Defraudar nossas jovens e levar nossos jovens pro caminho do mal! — O tom de acusação o feriu.
— Não! Eu não! Sabem que eu jamais... — Seu olhar assustado, seguiu em direção de Marley e Cleo, mas eles se fizeram de desentendidos.
Estão fingindo que não me conhecem.
Esse é o preço da aceitação?
Para serem aceitos... Precisam me rejeitar também?
Achei que estávamos bem... Acho que só eu pensei isso.
— Todos aqui te conhecem! Quer tornar nossos filhos gays e nossas filhas promíscuas! Por isso anda desse jeito sensual, usa essas roupas apertadas, malha tanto e tem tatuagens pelo corpo, além desse cabelo colorido estranho e os piercings.
A cada frase grosseira do pastor, abaixava mais os ombros, sentia o ar deixar seus pulmões.
Quero dormir... fugir, usar drogas, qualquer escape que tire esse sentimento de mim.
Eu não conheço ninguém aqui... Mesmo que conhecesse, não sujaria ninguém dessa forma, não ensinaria nada, ficaria apenas quieto no meu canto.
Lágrimas embaçaram sua vista.
Sinto um peso sendo colocado em meus ombros... Não sei se consigo carregar sozinho.
— Achei que todos são aceitos... — A frase baixa mal foi ouvida, mas um homem próximo ao pastor cochichou para ele.
— Muitos são chamados, mas poucos são os escolhidos! E você meu jovem, não está entre eles. Se retire por favor, não quero mais ver sua cara em nossa igreja! — Apontou para a saída.
Levantando da cadeira, ignorou quando ela caiu para trás, seu olhar direcionado as pessoas que achou serem seus amigos.
Agora entendi porque mudaram tanto, está é a religião do ego e da espada, se eu não tiver nada para oferecer, não tenho valor.
Entendi agora.
Um sorriso triste cruzou seus lábios.
Nunca mais vou voltar.
Virando de costas, andou até a saída.
Apenas na rua, olhando os girassóis, deixou as lágrimas escorrerem.
Agora sei porque aqui está cheio de pessoas procurando no lixo ao invés de pedir de ajuda, provavelmente foram descartadas por eles, consideradas impuras.
Sou apenas lixo, alguém que vai contaminar tudo com seu odor.
As lágrimas escorriam por suas bochechas.
A pior escolha que fiz, foi tentar.
É melhor voltar para casa, onde sou "aceito".

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