Sabia para onde ir:
Biblioteca Kigen, em Mizukagami.
Mas como chegaria lá?
Precisava de um adulto.
Precisava da mãe.
Chiyo Chiba.
27 ciclos.
Cabelos longos de preto profundo.
Caiam desordenadamente sobre os ombros.
Olheiras escuras.
Rugas precoces marcavam seu rosto delicado.
Olhos castanhos, opacos, distantes, como se presos em uma ilusão indespertável.
Corpo esguio.
Ossos proeminentes.
Pele seca.
Desgastada.
Vestia moletons surrados.
Movia-se como um sussurro quebrado.
Oscilava entre o desespero e lampejos de controle.
Hikaru aproveitou um desses momentos.
Baixou os olhos.
“Okaasan… me leva pra Biblioteca Kigen?”
Chiyo apertou os olhos.
O preto da íris de seu filho lembrava o canalha do pai.
Um covarde que fugiu para Kurayai no Sora.
Quem sabe em busca do abraço espinhoso da Ninkyō dantai.
“Tá querendo o que na biblioteca, Hika-chibi?”
Seu timbre suave envolvia o menino.
Lembrava-o da doçura corrompida dela.
“Quero um dicionário de francês.”
Ela arregalou os olhos.
“Shiu, tá doido?”
Não fala isso assim.
Senhor Saito tá metendo ideias esquisitas em você.
Hikaru gesticulou energicamente.
“Senhor Saito, não tem nada a ver.”
Suas mãos pequenas enlaçaram os dedos longos dela.
“Por favor.”
Uma corda esquecida vibrou dentro de Chiyo.
Uma fugaz lembrança de seus meses na faculdade.
Antes de tudo desmoronar.
Antes do maldito inominável pai de Hikaru.
Antes de ela perseguir a química nos laboratórios.
Agora a injetava em si mesma.
O futuro interrompido fluindo pelas veias.
Desejava evitar que ele olhasse para o abismo como ela olhava.
Antes que se entregasse à próxima dose, vestiu da melhor maneira que pôde ela e Hikaru.
Fazia quanto tempo desde que pisara na cidade?
Mirai Yokocho.
Um bairro vibrante ao redor da Biblioteca Kigen.
Nanolojas.
Estúdios artísticos.
Mercados.
Lojas exóticas ladeavam as ruas vivas.
A atmosfera pulsava com cores caóticas.
Sons eletrizantes.
Olhares tortos em sua direção.
Chiyo se sentia deslocada.
Mesmo assim, como poderia ignorar o brilho no rosto de Hikaru?
Entraram.
Estantes de madeira escura.
Abarrotadas de livros.
Erguiam-se entre hologramas flutuantes.
Tablets e holotelas projetavam dados em uma dança de luzes fulgentes.
Suave zumbido dos robôs organizando os itens.
Estalo quase inaudível das interfaces digitais.
Vozes baixas na área de leitura.
Outras empolgaram-se nas partes comerciais.
Cheiro do papel envelhecido permeava o ar.
Um toque de metal frio nas mesas.
Cadeiras de couro macio ofereciam conforto aos estudiosos.
O aroma do café fluía de um canto discreto.
E agora?
Como iria perguntar sobre aquele assunto?
Hikaru soltou sua mão.
Agitou-se entre as estantes e máquinas.
‘Okaasan, olha aqueles droides!”
Chiyo o agachou em um canto vazio.
“Hika-chiba, quietinho.
Vamos conseguir o que tá procurando.
Acho que por aqui…”
Ela sabia bem que aquilo estaria fora dos acervos para ser pesquisado.
Tampouco para o público.
Procurou pela área internacional.
Discretamente, estudou o robô vigiando a área restrita.
Tinha que distraí-lo.
Mas como?
Hikaru pegava os livros.
Passava pelas páginas.
Os olhos deslumbrados.
Sua mãe teve uma ideia.
“Chiba-chiba, cê viu aqueles insetos robôs do outro lado?
Soube que pode pegá-los, hein?”
Ele nem piscou.
Correu para o outro corredor.
Logo, seu plano deu certo.
O robô-vigia, Kōsetsu, foi verificar a confusão.
Chiyo meteu-se para dentro.
Respirou fundo.
O coração acelerado.
Pesquisou no acervo interno pelos termos franceses.
Encontrou algo na prateleira 76-RT.
Olhou para os lados.
Infinitos corredores de ambos os lados.
Chikushō, pensou.
Um passo.
A porta abriu.
Kōsetsu surgiu.
Hikaru se debatia em suas garras metálicas.
“Solta ele!”
Exigiu Chiyo.
A voz metálica soou.
“É a responsável pela criança?”
“Percebeu, foi?
Solta ele agora!”
Sua mãe ergueu os braços para pegá-lo.
Hikaru a abraçou.
Lágrimas nos olhos.
Olhos luminosos brilhavam em azul.
“Deveria estar fora daqui.”
O rosto dela aqueceu.
“Preciso encontrar algo pra ele.”
“Você deve ir embora.”
Kōsetsu curvou-se sobre ela.
“Só quero um dicionário.”
Hikaru a encarou com olhos chorosos.
A máquina estranhou.
Nunca presenciou tal situação.
Tinha que se adaptar.
De que maneira?
“Qual dicionário?”
“Francês.”
Achou informações imprecisas sobre aquilo em sua base de dados.
Deveria ser seguro.
Parte do seu papel era se conectar aos humanos.
Faria isso.
“Pesquisou no acervo?”
“Está no setor 76-RT.”
“Sigam-me.”
Kōsetsu os guiou pelas infindáveis passagens.
Nem Chiyo acreditava na sorte.
Seguiu em silêncio.
Temia um respiro errado.
Poderia alterar os algoritmos daquela tecnologia.
Seriam expulsos.
O corpo angular de Kōsetsu analisou uma seção.
“76-RT.”
Ela apressou-se a procurar no meio daquele odor de papel podre.
Mofado.
Livros em decomposição.
Algo tinha que servir.
Tapou o nariz.
Meteu as mãos.
Vasculhou.
Hikaru perguntava incessantemente se ela já tinha achado.
“Shiu, Hika-chan.”
Duas obras restantes.
Mãos vasculhando poeira e mofo.
Páginas frágeis sob seus dedos.
Tensão queimando na pele.
O peso de algo encadernado deslizou debaixo dos livros.
Um nome gravado na capa.
Francês.
Um dicionário.
“Achei!”
Chiyo travou por meio segundo.
Ia mesmo abraçar um vigia?
O pensamento nem terminou de se formar.
O calor já a envolvia.
Riu, abraçando o robô.
“Obrigada, Tsu.”
Saiu correndo como um foguete.
Hikaru riu com o ímpeto.
Uma falha de segundos bugou Kōsetsu.
Quando percebeu, acionou a segurança.
Já era tarde demais.
O vento balançava os cabelos de Chiyo.
Levava embora o peso por um instante.
O peito expandiu-se em alegria refrescante.
A luz preencheu os cantos apagados do semblante.
Coração acelerado.
Reflexo da adrenalina.
Dopamina.
Riso fluiu.
Gargalhava com Hikaru.
Saltitaram até o barraco em Kaigan.
Sua felicidade foi tanta.
Naquela noite, nem usou neoheroína.
Ajudou o filho a desvendar algumas palavras.
Contou histórias para dormir.
Adormeceu ao seu lado.
Sono tranquilo.
Sonhos doces sob o luar que minguava.
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