S-2858 • L3 Sintoluna • D27 Silenri
“Sintoluna afina o fio do mundo.
Silenri sela a descida em brilho fino.
A maré desenha silêncio em curva viva.
A história prepara portal de começo.”
KURAYAMI NO SORA, SEDE DO CLÃ RYUHO-KAI, KARYŪ, CORRENTE DE FOGO
Chiyo acordou Hikaru com um farto café da manhã.
Deu-lhe um dinossauro de plástico.
Vestiu-o com roupas frescas.
O calor castigava a cidade.
Cinquenta graus derretiam o asfalto.
Sufocavam o ar.
Dirigiu até Karyū.
Conversava animadamente com Hikaru.
O caminho mergulhava em sombras.
Torres de aço e cristal erguiam-se como serpentes adormecidas.
Cada edifício, esculpido em símbolos dracônicos.
O espírito do dragão serpenteava.
Pixelado.
Piscava entre os guardiões robóticos patrulhando os becos.
As avenidas principais ostentavam vitrines de opulência.
Ciberimplantes.
Tecnologia de ponta.
Produtos de alto valor.
Vielas adjacentes enredavam um outro mundo.
Tráfico.
Dependência química.
Casas de apostas.
Mercados de armas.
Negociações sussurradas sob a iluminação inconstante dos hologramas.
Enquanto avançavam, Chiyo desviou os olhos.
Engraçado como tudo parecia tão reluzente por fora.
Só ouro em pó sobre ruínas.
As fachadas brilhantes das vitrines escondiam sob véus ilusórios as sombras dos becos.
O cheiro amargo que impregnava o ar se revelava em frágeis quebras efêmeras.
Era como ela.
Uma casca tentando brilhar.
O vazio a corroía por dentro.
Forçou um sorriso.
Protegia Hikaru de um abismo onde ela já havia naufragado.
A sede dos Ryuho-kai dominava o skyline.
Ryūden, Palácio do Dragão.
Aço e vidro negro espelhado refletiam as trevas das ruas abaixo.
Nanodragões vigiavam a torre.
Pisos de mármore obsidiana.
Veios vermelhos cintilavam sob luzes baixas no interior.
Hologramas projetavam círculos de fogo.
Nos andares superiores, protegido por segurança máxima, Kojiro Ryuho supervisionava seu império.
A vista imponente de sua dominância sobre Karyū.
Sobre Kurayami no Sora.
Sobre a Ninkyō dantai.
Kojiro irradiava uma força intimidadora.
Sua figura imponente dominava o espaço.
Hakama escuro.
Jinbei de mangas largas.
Símbolos tradicionais gravados no tecido fluido.
Olhos avaliadores perfuravam a alma como lâminas.
Seu sobrinho, Kotaro Ryuho.
Quatro anos.
Cabelos pretos.
Olhos castanhos.
Curiosidade.
Audácia.
Resolução em sua expressão.
Vestia um kimono de algodão.
Padrões escamosos.
Observava tudo do altar.
“Ele sabe ler, escrever, é muito inteligente.
Hoje tá fazendo oito anos.”
Chiyo tremeu.
Mexeu os dedos inquietos.
O olhar frio do oyabun caiu sobre ela.
“Três milhões de nienes.”
“Mas—”
“Ou nada feito.”
A voz de Kojiro cortante.
“Tá, que seja.
Transfere logo.”
Um gesto do oyabun.
Hiroshi Tanaka, o saiko-komon, iniciou a operação.
Terno escuro.
Postura controlada.
Barba aparada.
Olhos astutos.
“O que tá fazendo, okaasan?”
A voz de Hikaru veio pequena.
O peito apertou.
Ele a encarava, confuso.
Chiyo evitava os olhos do filho.
Resistia olhar.
Pensava que ela como mãe era insuficiente.
Ele precisava seguir de outro jeito.
Talvez eles conseguissem…
Talvez ele sobrevivesse melhor sem ela.
Melhor do que ela sobreviveu.
O nó na garganta apertou até quase sufocar.
Sufocava o coração despedaçado, mas a voz saiu fria. Cruel.
“Você merece mais, Hika-chiba.
Mais do que posso te dar.
Seus novos amigos vão cuidar de você.”
Silêncio.
A frequência cardíaca de Hikaru aumentou.
Respiração rápida.
Pele pálida.
Músculos tensos.
Palmas úmidas.
Estômago revirou.
Frio e calor percorrendo o corpo.
A mente alerta.
“Como assim, okaasan?
Não quero.
Só quero ficar com você.”
“Shiu, Hika-chiba.
Um dia, você vai entender.”
Chiyo virou.
Passado e presente colidiram em imagens fugazes.
Hikaru brincando com um robô improvisado.
O riso dele enchendo o barraco de luz.
A primeira vez que ele disse okaasan com aquela vozinha fina.
Cada lembrança, uma faca virando em seu peito, mas ela continuaria seguindo.
Tinha que seguir.
Lágrimas queimavam.
Dor no coração.
Passos firmes.
Ela saiu.
Deixou os berros desesperados de Hikaru para trás.
Hikaru se debatia desolado nos braços dos homens.
A última coisa que ainda tinha da mãe era o cheiro dela.
shampoo barato e neoheroína.
Ele queria gritar que não entenderia, que nunca entenderia, mas a dor sufocava as palavras.
Chiyo morreu de overdose três luas depois.
Naquela selunia, Hikaru permaneceu acordado.
Passou a noite com os shatei, irmãos mais novos.
O cheiro de Chiyo ainda impregnava suas roupas, mas mãos patriarcais profanas o tocavam indevidamente, manchavam sua pele, deturpavam sua mente e corrompiam sua alma.
Comments (0)
See all