S-2858 • L4 Abeluna • D04 Alonabe
“Abeluna derrama broto de brilho no alto.
Alonabe alonga o fio do começo.
A maré desenha caminho em prata viva.
A história segue clara, em passo leve.”
Aquele estabelecimento o chamava como um ímã.
O dono, um mistério.
Um membro.
Masaru Inoue.
Um kobun de 54 anos que raramente dava as caras.
Karyū sussurrava segredos entre suas vielas sombrias.
Nos vislumbres entre as entradas dos clientes, a luz projetava padrões dançantes no chão.
Metais.
Robôs.
Tinha que entrar.
Seu coração pulsava naquela direção.
Naquele breu, sabia que um cliente se meteria a falar com Inoue.
Vestiu suas roupas mais escuras.
Véu da noite sobre o corpo.
Respirou fundo.
Invocaria o silêncio.
Seria o silêncio.
Invocaria a escuridão.
Seria a escuridão.
Enfiou-se na longa capa de um senhor.
Deslizou despercebido.
Entrou.
Esgueirou-se para um amontoado de tralhas.
Nanometal polido refletia hologramas pulsantes de circuitos.
Fórmulas complexas dançavam no ar.
Droides.
Robôs elegantes.
Robustos.
Cada um projetado para tarefas específicas.
Manutenção.
Análises.
Estratégia.
Peças robóticas.
Engrenagens brilhantes.
Componentes avançados espalhados em um caos organizado.
No centro, um grande androide.
Olhos piscavam.
O cheiro sutil de óleo de motor.
Eletricidade no ar.
Bancos de trabalho cobertos de ferramentas.
Cômodo repleto de katanas reluzentes.
Cada uma contando sua própria história.
Armaduras samurais ornamentadas com detalhes intrincados.
Um verdadeiro parque de diversões para Hikaru.
Pisou devagar.
Encontrou uma caixa.
Um robô cão-guaxinim.
Carcaça azul acinzentada reluzia no nanometal.
Luzes apagadas.
Desligado.
Esperou.
Inoue atendeu um cliente.
A porta se fechou.
Hikaru respirou fundo.
Mesmo com o coração palpitando.
Mãos suando.
Firmou os pés no chão.
Postou-se diante do homem.
“Por que aquele cão-guaxinim tá desligado?”
Inoue arregalou os olhos castanhos.
“Chikushō!
Quem é você?!
Saia daqui, vai, vai!”
Agarrou seus braços magrelos.
Arrastava-o para a porta.
“Sou Hikaru.
Quero ficar aqui.
Por favor.”
“Está maluco, gaki?
Sai daqui.
Quero evitar problemas.”
Abriu a porta, pronto para jogá-lo na rua.
Hikaru cravou os pés no chão.
“Por favor, não!
Quero fazer robôs.
Eu sei QN-Tec!”
A mão de Inoue hesitou.
Fechou a porta.
Soltou o menino.
“Baka, calado.
É um usotsuki? Mentiroso?”
Hikaru apressou-se a mostrar o diário.
Virou a página.
“Les quantum-nanoparticules possèdent des clés.
Des algorithmes atomiques.
Instables.
Pouvant être stabilisées par des algorithmes programmés.
Dans des quantum-nanites.”
A voz de Hikaru era firme.
Os olhos, ardentes.
Explicou:
‘Quantum-nanopartículas possuem chaves.
Algoritmos atômicos.
Instáveis.
Podem ser estabilizadas por algoritmos programados em quantum-nanites.’
O rosto de Inoue perdeu toda a cor.
Parecia que algo nele estremeceu em silêncio.
“Kuso, que merda.
Como conseguiu isso?”
“Por favor, fico quieto.
Só desejo jamais ser tocado como fizeram.”
Seu sussurro suplicante reacendeu uma dor enterrada no peito de Inoue.
Sua alma enxurrou-se com as lembranças.
Nojo.
Desprezo.
Um amargor encheu sua boca.
Aqueles toques indesejados.
A fúria.
A necessidade de sobreviver.
A obsessão pela tecnologia.
Ele entendia.
Conflito e certeza se entrelaçaram.
Bailavam tragicamente entre medo e desejo.
“Aquele é o Tanu.
Robô defeituoso.”
Subiu a escada de madeira.
Maldição.
No que se meteu?
Um brilho intenso reluziu no olhar de Hikaru.
“Posso mexer nele?”
Inoue fingiu ignorar um pulsar quente em seu coração.
“Nem perca seu tempo, aquele ali é defeito puro.
Só xinga.
Demora para fazer tarefas.
Armas ultrapassadas.
Foi um dos meus primeiros.
Gaki, vai dormir naquele colchão.
Só tem ele.”
Hardware antigo empilhado.
Placas-mãe empoeiradas.
Fios emaranhados jaziam inertes pelo chão como cobras adormecidas.
Um colchão surrado.
Um lençol desbotado.
Um canto.
Lanterna improvisada lançava uma luz trêmula.
Revelava contornos dos objetos esquecidos.
Relicários de memórias de eras passadas.
Metal oxidado.
Poeira no ar.
Um palácio para Hikaru.
Ajeitou o lençol velho.
Sentiu as dobras ásperas entre os dedos.
O colchão agora seria seu refúgio.
Cada objeto ao redor.
As engrenagens esquecidas.
Cada peça contava histórias silenciosas.
E ele estava louco para ouvir.
Mais que um depósito de tralhas…
Para Hikaru, era um mapa para o futuro que queria construir.
“Por favor, me deixa mexer nele, Inoue-sensei?”
Sensei?
Jamais pensou ter um kohai.
Inoue revirou os olhos.
Saboreou o azedo.
Estreitou os olhos.
Analisou o menino, como se tentasse decifrar um enigma.
Seu semblante endurecido vacilou.
Um instante, quase imperceptível, algo brilhou em seu olhar.
Um eco de lembrança o atingiu.
Mãos pequenas.
Sujas de graxa.
Peças quebradas.
A esperança que já se esvaira dele.
Era como se visse uma versão mais jovem de si mesmo.
Alguém que o mundo já havia jogado ao chão tantas vezes.
Talvez…
Só talvez…
Aquele garoto tivesse algo que ele já se desconectara:
A chama da esperança.
Inoue cruzou os braços.
O olhar fixo em Hikaru.
Respirou fundo, como se tentasse afastar algo incômodo.
“Que seja, Hika-baka.
Vai choramingar no seu canto se consertá-lo se provar inútil.”
Inoue bufou.
Tentar esconder o leve curvar dos lábios foi uma máscara lascada, entregando um desafio velado.
“Fique longe das outras criações, gaki.”
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