S-2876 • L3 Sintoluna • D18 Libesi
“Sintoluna afina céu e caminho.
Libesi libera o fio já maduro.
A maré desenha curva prateada.
A história segue firme, em ritmo vivo.”
Kurokawa.
Um bairro à margem de Kurayami no Sora.
Um labirinto de ruas estreitas.
Amarradas num abraço sombrio.
Edifícios desgastados ostentavam pinturas desbotadas.
Letreiros antigos sussurravam histórias esquecidas.
Tensão elétrica percorria as calçadas.
Bares.
Bordéis.
Néons cintilantes em verde limão, magenta, âmbar.
Atraíam os passantes.
Música eletrônica pulsava.
Rock pesado rugia.
Pop alternativo sussurrava.
Fumo, álcool, comida de rua impregnavam o ar.
Inoue despachou Hikaru.
Queria um tempo sozinho.
O nanoengenheiro trouxe Tanu para acompanhá-lo.
O robô resmungava imparável.
“Aquele velho também, toda hora quer ‘ficar com a solitude dele’.
Que se lasque, outro idiota.”
Hikaru olhou para o céu.
A lua iluminava um vazio gélido na noite.
Fria como o olhar de Chiyo ao deixá-lo para trás.
Por que pensou nela agora?
Será que ela pensou nele antes de…?
Interrompeu o pensamento.
Preferia desconhecer a resposta.
Entrou em uma viela.
Oito gokudos aguardavam.
Não.
Mais.
Centenas espalhados pelos prédios.
“Finalmente a gente vai te pegar, osuinu.”
Um riu, exibindo dentes podres.
“Idiota, no que meteu a gente?”
Tanu brilhou olhos vermelhos.
Avançou.
Componentes se reconfiguraram.
Patas expandiram.
Canhões de energia laser revelados.
“Baka, baka, baka!
Mestre IDIOTA!
NO QUE VOCÊ NOS METEU?!
ELE É UM IDIOTA,
MAS É MEU MESTRE.
FIQUEM LONGE DO MESTRE!!!”
Armadura reforçada ergueu-se em torno de seu torso.
Nanoplacas se alinharam.
Óculos escureceram.
Digitalizaram uma mira.
Drones de combate deslizaram de suas costas.
Espetáculo de engrenagens giratórias.
Luzes pulsantes.
Uma máquina de guerra.
Desligada.
Um tiro eletromagnético cortou o ar.
Atingiu em cheio o núcleo.
Tanu parou.
Luzes piscando em frenesi.
Desmoronou.
Corpo metálico retraído, tombando.
Voltou à forma original.
Cão-guaxinim.
“A gente se preparou pra esse teu robô, otário.
Mal posso esperar pela hora de te experimentar.”
Hikaru puxou a katana.
Um dardo cravou-se no seu pescoço.
Escuridão.
Onda de calor percorreu sua pele.
Cada toque, um incêndio.
A pele como em chamas.
Arrepiava-se ao menor contato.
Sentidos aflorados.
Cheiros intoxicantes.
Cores vibrantes.
Sons ressonantes sedutores.
O coração disparado.
Guerra primordial dentro do peito.
Desejos insaciáveis assombravam sua mente.
Pensamentos provocantes.
Euforia.
Vulnerabilidade.
Cada emoção exposta.
Hikaru se sentia vivo.
Intensamente conectado.
Chikushō.
Abriu os olhos devagar.
Um quarto.
Luzes lânguidas.
Risadas dos malditos enchiam seus ouvidos.
Tentou se esquivar.
Suas pernas e braços amarrados.
Kimono frouxo até a cintura.
Pele exposta.
Tatuagens descobertas.
Nas costas, um imponente dragão.
Escamas escuras.
Olhos penetrantes.
Ao longo da coluna, gatos estilizados.
Flores de cerejeira.
Ondas.
Um felino enroscado ao redor de seu coração.
Padrões dracônicos ramificavam-se pelo peito.
Antebraços.
“Só tamo começando, rostinho bonito,” um sussurro pegajoso tocou sua orelha.
Nojo e excitação envenenavam os sentidos.
O que fizeram?
Por que seu corpo traía sua mente?
“Kore nan da kuso?!
DA KORE KUSO?!”
Alguém gritou:
‘Que porra é essa?!
DESGRAÇA, QUE ISSO?!’
O fervor trouxe flashes de sangue espalhado pelo chão.
Um membro foi arremessado pela janela.
O homem em cima de Hikaru se virou.
“Tá fazendo o que, Riko?”
Um androide de acabamento prateado correu contra ele.
Sem tempo para se defender, sua força o empurrou.
Vidros estilhaçaram.
Os dois caíram pela janela.
Hikaru abriu mais os olhos.
Uma aura intensa o envolveu.
Um cara entrou.
Encapuzado.
Casaco preto longo.
Inspirou fundo.
Fechou a porta devagar.
Passos lentos na poça de sangue.
Um estalo de língua percorreu o ar.
Deslizou pelos ouvidos de Hikaru.
Apoiou as mãos nos braços da cadeira.
Projetou-se em cima dele.
Seu perfume cítrico entorpeceu Hikaru em uma sinfonia surpreendente amigável.
Cheirava melhor do que aqueles nojentos nauseantes.
O ser encapuzado passou a língua macia no pescoço do nanoengenheiro.
Saboreou o gosto similar ao chocolate amargo.
“Te deram Erosen.
Soube que dura dez horas.”
Sua voz rouca. Envolvente. Ressonante.
Os pelos de Hikaru eriçaram da cabeça aos pés.
Suspirou um gemido.
Droga.
Fazia aquilo sem querer.
Dedos ásperos.
O gelado do metal dos anéis.
Trouxeram seu rosto para encará-lo.
Olhos âmbar reluziam sob o capuz.
Devoravam o nanoengenheiro.
O sorriso insinuava uma promessa perigosa.
O olhar, pura devassidão.
Curioso.
Pela primeira vez, mergulhou no precipício do olhar.
A alma de alguém.
Quem realmente era aquele nanoengenheiro?
Só lhe foi permitido enxergar aquele medo que nada lhe apetecia.
Claro, ele jamais negaria aquela delícia diante de si.
Ele nem precisava tocá-lo.
O gatinho se contorcia sozinho.
O nanoengenheiro exalava um aroma de bambu e metal.
O ardor só o tornava mais intenso.
Penetrava fundo em seu ser.
Nunca tinha sentido nada igual.
Arrastou uma cadeira.
Instalou-se diante de Hikaru.
Abaixou o capuz.
Fios ondulados caíram sobre sua testa.
Seu cabelo, metade castanho escuro, metade branco.
As mesmas cores misturavam-se nos cílios.
Sobrancelhas.
Pele bronzeada.
Apoiou o cotovelo na cadeira.
Pernas abertas.
Roçou os dedos nos lábios sorridentes.
O olhar dourado carregado de provocação.
Kuso.
Quem era esse cara?
O olhar cravado nele disparava correntes elétricas por sua espinha.
Conter-se se mostrava inútil.
Aquele prazer vinha a cada segundo.
Amarrado, torcia-se na cadeira.
Ondas voluptuosas do Erosen o tragavam.
Transpiração quente.
Respirações ofegantes.
Horas se arrastaram.
O cara banqueteava-se com a visão de Hikaru.
Hikaru resistia aos efeitos eróticos.
Desejava dormir.
Em vão.
Aquela presença avassaladora.
Pervertida.
Desafiava.
Excitava.
Repelia.
Atraía.
Assustava.
Fascinava.
Onze horas depois
O nanoengenheiro desabou.
Exausto.
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