Hikaru acordou rodeado de paredes azuis compactas.
Luzes suaves de néon roxo sob painéis de madeira.
Deitava-se em um colchão de seda escura.
O coração disparou.
Vestido e livre de amarras, levantou-se.
Outro ambiente.
Paredes transparentes mudando de opacidade.
Armazenamento para suprimentos.
Uma cama dobrável.
Holoconsoles de navegação e entretenimento.
Continuou até ser engolido pelo breu absoluto, exceto pelas luzes na proa do pequeno nanobarco.
Nanocasco nanoaerodinâmico.
Estrutura QNanotecnológica.
Nanopainéis solares integrados.
Propulsão tão silenciosa que o silêncio ressoava o mesmo do mar abissal.
Cortava as águas imprevisíveis do Pacífico como uma sombra.
Kuso.
A figura misteriosa se encostava no parapeito.
Guardou as cartas de baralho no bolso.
Quem era esse cara, afinal?
Hikaru se perguntava.
Ele se virou para o nanoengenheiro.
Finalmente tinha despertado.
Seus olhos sorriram, mas sua alma silenciou.
Uma estranheza incomum pairava nela.
Vinha da presença do enigmático Sete de Copas.
Ele puxou pensando no nanoengenheiro.
“Hika-chan resolveu acordar?”
Ele sabia seu nome.
Como se meteu naquela situação perturbadora?
Aqueles malditos…
Esse cara…
Que desgraça estava acontecendo?
“Quem é você?”
Ele alargou o sorriso.
Aquele medo.
Aquela vulnerabilidade antes tão viciante…
Sumiram.
Agora enfrentava um gato selvagem.
Traços felinos firmavam seu semblante tenaz.
Pela primeira vez, um pulsar estranho no coração.
Pouco importava.
Quão divertido seria brincar com ele?
“Saymon.”
Saymon?
O que ele queria?
Hikaru se aproximou dele.
Por que sentia um fervilhamento diante daquele ser?
Sua aura o alertava a níveis que nunca sentiu na Ninkyō dantai.
Exalava terror.
Ganância cruel.
Algo além do medo.
Se fosse só isso…
Mas havia outra coisa.
Algo que queimava diferente.
Algo que ele queria continuar a inomear.
Estava fora da influência do Erosen.
Porque vibrava uma…
Não.
Loucura.
Impensável.
“Para onde está me levando?”
Algo lhe dizia que lutar seria inútil.
Saymon chegou mais perto.
Perto o suficiente para tirar o fôlego de Hikaru.
Ele sustentou o olhar dourado.
Postura firme.
“Ilha de Trindade.”
A voz rouca dele soprou um arrepio quente pela espinha.
O nanoengenheiro se afastou.
Os ombros cederam.
Um peso novo pressionando o peito.
Tanu…
A culpa mordeu sua mente.
“Preocupado com seu amigo?”
O tom cortante o fez virar.
O robô desativado repousava contra a parede.
Ainda ali.
Um alívio morno preencheu seu peito, mas algo ainda pesava.
“Vai ligá-lo?”
Hikaru acenou, apoiando-se no parapeito.
“Deixa para lá.”
Talvez fosse melhor assim.
S-2876 • L3 Sintoluna
“Quatro dias, um mesmo céu em sintonira viva.
Teceli firma o passo; Abete abre espaço manso.
Alonli alonga a curva; Silenri sela o fio fino.
Sintoluna guia a maré — e a história segue em tom exato.”
D20 Teceli
Enfrentaram águas tranquilas.
A previsão apontava tempestades no horizonte.
Saymon analisava as cartas náuticas.
Hikaru ajustava os nanomotores.
D22 Abete
Uma tempestade tropical rompeu o rumo traçado.
Ondas altas.
Ventos cortantes testaram a resistência.
Utilizaram nanoestabilizadores para evitar danos.
Hikaru mantinha a calma.
Dirigia com precisão.
Saymon cuidava dos suprimentos.
Trocavam raras palavras.
D25 Alonli
Após a tempestade, as condições melhoraram.
Navegaram por desafiadores recifes ocultos.
Saymon, olhar aguçado.
Identificava áreas perigosas a tempo.
Hikaru conectava o nanosonar para mapear o fundo do mar.
Evitava colisões.
Naquela noite, Hikaru sonhou.
Uma raposa de olhos dourados o rodeava.
Farejava o medo.
Saboreava a inquietação.
Acordou agitado no meio da madrugada.
Andou até a proa.
Saymon fitava o horizonte.
“Pesadelo, Hika-chan?”
Vento e pingos de água resvalaram em sua expressão indomável.
“Insônia?” O nanoengenheiro perguntou e segurou uma tossida do cheiro pesado de enxofre do mar poluído.
Saymon encurtou a distância entre eles.
Trouxe consigo sua aura esmagadora.
Acariciou as bochechas de Hikaru com a ponta dos dedos.
“Como dormir perto de um alvo tão divertido?”
Ele sorriu de lado quando o nanoengenheiro lhe deu as costas e voltou para seu quarto.
Hikaru cerrou os punhos.
O coração acelerado, desgovernado.
Por que maldições batia daquele jeito?
Chikushō.
D27 Silenri
Avistaram uma embarcação.
Saymon tocou as costas de Hikaru.
“Aquela embarcação parece suspeita.
Vamos desviar,” sussurrou perto do ouvido dele.
Hikaru ignorou os arrepios.
A pele eriçada.
O rosto aquecido.
Ativou a nanocamuflagem.
Saymon o observava no seu próprio ritmo enquanto embaralhava as cartas em Chuva de Caos, os olhos sorrindo raposinos.
Cada embaralhar era pincelada no vento.
O baralho se abriu como nuvem estourada.
As cartas despencavam em chuva seca, tilintando no ar como lâminas de papel.
Antes de tocar o chão, o gesto dele as capturava em leque, como se a gravidade fosse só mais uma marionete de seu caos.
E assim, os dois navegavam pelas águas agitadas.
Por frequências invisíveis que os testavam.
Ora se expandiam.
Ora se fundiam.
Harmonia dissonante.
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