S-2876 • L3 Sintoluna • D28 Silente
“Sintoluna afina o fio final do céu.
Silente derrama quietude luminante.
A maré recolhe prata em curva leve.
A narrativa sente o portal se abrindo.”
Alcançaram a Ilha de Trindade.
Plena noite.
Mar agitado.
Uma névoa rastejava pela ilha, envolvendo-a como um espectro.
Ancoraram-se na enseada.
Esconderam o barco entre as rochas.
Ativaram a nanocamuflagem.
O barco tornou-se invisível aos nanoradares.
Um só com a escuridão.
Saymon carregava uma mochila.
Hikaru levava Tanu.
Os dois vestiam nanotrajes compostos de q-nanites.
Nanotecidos moldados pela engenhosidade da Regnante Maia.
Desceram por uma rampa retrátil.
Os pés afundaram nas pedras molhadas.
Moveram-se pelo terreno irregular.
Rochas traiçoeiras.
Folhagem rasteira.
Nanocâmeras ocultas entre galhos.
Silhuetas espreitavam entre as falésias.
Hikaru ligou Tanu.
O cão-guaxinim piscou as luzes, espreguiçando-se.
“Idiota, demorou dias pra me ligar.”
A voz robótica saiu fina, rabugenta.
Sacudiu-se.
Ajustou o suéter.
Os olhos brilharam.
Mirou Saymon de cima a baixo.
Torceu o focinho.
“Quem é esse otário?”
“Calado, Tanu, vamos nos infiltrar naquela mansão.”
A voz de Hikaru saiu serena.
Ondas sutis tiniram no ar.
E em Saymon.
O mercenário focou no robô.
Tanu cruzou os bracinhos mecânicos.
“Imbecil nem diz oi.”
As orelhas se mexeram.
“Vou matar vocês depois que terminar.”
Avançaram.
Drones patrulhavam os céus.
Tanu projetou um nanoescudo camuflável.
Sumiram no cenário.
Terreno íngreme.
Mata densa.
Trincheiras velhas.
Lamacentas.
Vestígios de um passado militar.
Os túneis foram reativados.
Guaritas.
Guardas.
Sensores térmicos.
Ouviram passos.
Vozes se aproximando.
Rastejaram.
A lama gelada colou na veste de Hikaru.
“Sempre quis me arrastar na lama? Não,” Tanu murmurou.
Desativava sensores ao longo do caminho.
“Meu mestre? Imundo.”
A mansão se erguia no topo da ilha.
Imponente.
Deslocada do tempo.
Uma relíquia do Renascimento italiano.
Colunas de mármore branco.
Janelas arqueadas.
Esculturas ornamentadas.
Torres de segurança emergiram discretas.
Tanu hackeou os portões.
Códigos liberados.
Passagem temporária.
Ação dos trajes.
Proteção de Tanu.
Superaram as barreiras.
Nanobarreiras.
Detectores térmicos.
Sensores de movimento.
Nanoalarmes.
Toda a fortaleza interligada à IA central.
Nada os captou.
Pisos de mármore escuro refletiam luzes flutuantes.
Poltronas de couro adornavam o hall luxuoso.
Obras minimalistas adornavam as paredes.
Holopinturas pulsavam em exibição.
Saymon seguiu um corredor discreto.
Tapetes vermelhos.
Candelabros de cristal.
Uma biblioteca.
O cheiro de couro antigo e madeira polida.
Ele puxou um dos livros.
A estante girou, revelando uma passagem oculta.
Escada estreita.
Pequenas luzes embutidas iluminavam os degraus.
Uma porta simples.
Exceto pelo cadeado sofisticado.
Saymon sacou o Sete de Paus.
Os píxeis da carta se fundiram aos códigos.
Shhhhhhh
A fechadura gemeu.
A porta abriu.
Escuridão.
Vidros reflexivos exibiam holoinformações.
Transações ilegais.
Redes de espionagem.
Esquemas financeiros complexos.
Uma grande mesa.
Dispositivos interligados ao servidor central da ilha.
Saymon quebrou o silêncio.
“Pegue todos os dados que conseguir.”
Ele tirou da mochila várias latas de spray preto.
Começou a se mover como se estivesse em transe.
Cada borrão de tinta, um golpe calculado.
Hikaru franziu as sobrancelhas.
O que aquele cara estava fazendo?
Intrigado, conectou Tanu às fontes elétricas.
Mergulhou no virtual.
Horas passaram.
Descobriu.
Lúcio Reis.
Relações Internacionais da UNITED em São Paulo.
Figurão de primeira linha.
Porém, achou mais.
Muito mais.
O que aquele cara iria fazer com aquelas informações?
Vai saber.
Seu corpo protestava.
Músculos tensos.
Ossos doíam.
Cérebro em ebulição derretia.
Mas havia algo além do cansaço.
Algo maior.
Sensação opressiva.
O ar ao redor se deformava com a mente.
Ele virou.
E a realidade se dissolveu.
Sentiu inquietação. Agonia. Deslumbramento. Paixão. Angústia. Raiva. Ódio. Fúria. Vingança.
O cômodo estava selado.
Preto.
O preto gotejava pelas paredes.
Escorria pelas prateleiras.
Engolia o espaço.
Traços erráticos.
Agressivos.
Entrelaçados em padrões caóticos.
Figuras grotescas emergiam da tinta.
Rostos distorcidos.
Olhos deturpados.
Criaturas macabras.
Garras estendidas.
Espirais rodopiantes.
O mundo parecia girar.
As luzes tênues criavam sombras vivas.
Tormento odioso.
Mas era mais do que só a parede.
Era Saymon.
Cada traço, uma cicatriz, uma confissão, uma ferida aberta.
Crua.
Sangrando.
As paredes falavam.
A pintura gritava uma ressonância perturbadora.
O preto vibrava uma frequência caótica em sua mente.
As linhas erráticas da tinta dançavam com a aura de Saymon.
Hikaru lutava entre querer olhar mais ou fugir dali.
Ele engoliu seco.
Saíram em silêncio.
Saymon.
Hikaru.
Tanu.
A noite os envolveu.
Furtivos entre as árvores.
Porém, a pintura estava ali.
Os rostos distorcidos.
As sombras pulsantes.
E Hikaru sentia aquele cômodo dentro de si.
Ainda pulsando.
Alcançaram o barco.
Hikaru lançou um olhar demorado para a ilha.
As ondas batiam no casco e os traços obscuros vibravam atrás de suas pálpebras.
Ele queria perguntar, mas não sabia se queria uma resposta.
“Otário tá fazendo—”
Tanu resmungou.
A voz robótica sumiu.
Hikaru se virou.
Saymon estava ali.
Cara a cara.
A respiração quente roçando na pele do nanoengenheiro.
“Bom gatinho, hora de mimir.”
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