S-2877 • L3 Sintoluna • D28 Silente
“Sintoluna afina o fio do alto.
Silente derrama prata quase inteira.
A maré recolhe canto em curva leve.
O portal já brilha no ar.”
BILAB, SOLTERRA
Quase uma da manhã.
Hikaru arrastou-se até o quarto, exausto.
Organizava as informações requisitadas pelo Pai e a Matriarca.
Vendia dados para mercenários.
Lidava com suas criações robóticas.
Queria mais tempo para elas.
Azul e prata deslizaram sobre ele.
Lençóis brancos na cama.
A nanocolcha trocava lentamente de cor.
Hologramas projetavam dados.
Gráficos.
Dispositivos.
Robôs.
Ferramentas.
Droides.
Miniaturas desmontadas abarrotavam a mesa.
Estantes de vidro erguiam-se até o teto.
Abarrotadas de livros.
Gadgets.
Artefatos curiosos.
Frascos com nanoamostras, etiquetados com precisão.
Uma planta purificava o ar.
Sofá assimétrico repousava no canto.
Almofadas texturizadas.
Um pequeno bar exibia bebidas exóticas e energéticas.
Pensou em lapidar aquela aranharô.
A dor fisgou o ombro.
Tomou uma ducha.
Saiu… e congelou.
Uma sombra do passado o esperava.
Estava sem o ver há um ciclo solar.
Encharcada da cabeça aos pés.
Coberta de sangue.
Um rastro de água vermelha serpenteava pelo chão.
Vinha da parte superior.
Kuso.
Como ele entrou por cima?
Tinha certeza de que toda aquela área era impenetrável.
As janelas.
Os acessos.
E ainda assim, lá estava ele.
Maldição.
Esse cara de novo.
Saymon exibia um sorriso vermelho.
Cortes marcavam a face e o pescoço.
Olhos dourados faiscando entre hematomas roxos.
Casaco rasgado, revelando ferimentos profundos nos braços.
Caminhava devagar, um leve mancar na perna direita.
Que desgraça aconteceu com ele?
Mesmo naquela condição, sua aura intoxicante enredava Hikaru.
Ele recuou até colidir contra a parede.
O cheiro metálico do sangue se misturava ao perfume cítrico do mercenário.
Saymon inclinou-se sobre o nanoengenheiro.
Ergueu o cupcake molhado.
“Tanjōbi omedetō, Hika-chan,” sussurrou nos ouvidos dele, Feliz Aniversário.
A cadência sedutora em sua voz.
A tensão vibrava no ar.
A pressão cedeu.
Saymon desabou.
Hikaru deu banho nele.
Cuidou das feridas.
Sentou-se no sofá.
Confuso.
Perplexo.
Quantas cicatrizes.
Que tatuagens eram aquelas?
O que significava aquele cara dormindo na sua cama?
Adormeceu horas depois, ali mesmo.
Acordou na cama.
Uma mão pesava em sua cintura.
Mexeu a cabeça.
Deveria estar sonhando.
Não.
Poderia ser um sonho, mas era real.
Aquele cara continuava ali.
Mais do que isso.
Quando ele foi parar na cama?
O toque de Saymon apertou.
Um arrepio disparou pelo corpo de Hikaru.
Relâmpagos.
O nanoengenheiro se desvencilhou do abraço.
Levantou-se.
O coração descompassado.
Saymon abriu os olhos.
Desperto.
Brilhantes.
Divertidos.
O olhar dele trancou no olhar incerto de Hikaru.
Vestiu-se devagar.
Antes de sair, aproximou-se.
Perto.
Demais.
Tirou o ar de Hikaru.
“Hum, um gatinho de olhos pretos apareceu nos meus sonhos hoje.
O que será que significa?”
O sorriso, pura dança de provocação.
Os olhos, incêndios silenciosos.
“Acho que você vai gostar da visita hoje mais tarde.”
Saiu, cruel. Indiferente.
Hikaru afundou na cadeira.
Tentava desemaranhar aquilo.
Chikushō.
Esse cara.
Fim da tarde
Uma energia explosiva irrompeu pela porta.
Inoue atravessou a biblioteca como um furacão.
“Baka, é aqui que você está se escondendo?
Como pôde me trair desse jeito?”
A voz transbordava ferida.
“Eu só queria ficar sozinho por algumas horas, não por um ciclo solar inteiro!”
Hikaru explicou centenas de vezes.
Mesmo assim, Inoue retornou indignado para o Japão.
Decorrer daquele ciclo solar
Aquela cena.
Aquela repetição.
Aquele ciclo.
De lunações em lunações.
Saymon surgia no tardar da noite.
Ensanguentado.
Ferido.
Desmaiava.
Hikaru o banhava.
Tratava seus machucados.
Deixava-o na cama.
Dormia no sofá.
Acordava na cama.
Nos braços de Saymon.
Saymon despertava.
Ia embora em silêncio.
Sinceramente, por que ainda se frustrava com aquela merda?
Por que esperava algo diferente?
Nem o nanoengenheiro entendia aquelas cócegas no coração.
E a irritação com a frieza.
Aquela maldita irritação.
Por que se importava com isso?
Desgraça.
Tanu surgiu com uma xícara de café.
“Mestre, por que esse cara tá sempre agindo…
Como se fosse o único que importa?”
Os olhos brilhantes analisaram Hikaru.
“Ele nem agradece!”
A voz fininha se elevou.
“Só porque ele te olha desse jeito, desse… nem eu sei dizer…”
Ajeitou o suéter cinza.
“Você é um idiota, isso sim.”
Hikaru bebeu um gole.
O café desceu quente pela garganta.
Insuficiente para aquecer aquele aperto no peito.
Apertou os olhos.
“Calado, Tanu.”
A voz saiu firme. Fria.
“Já fez o que te pedi?”
Tanu torceu o focinho.
Virou-se, rabugento.
Murmurou baixo, mas foi percebido.
“Já vou, já vou…
Finja o quanto quiser…”
As orelhas giraram de leve.
“Sinto seus batimentos cardíacos quando está perto dele, otário.”
Hikaru ficou em silêncio.
“Você pesquisou aquela pintura no Tribunal Federal Aether?
Os zênitas chamam o artista anônimo de Artista do Caos.
Acho que, pelo que vimos aquele dia na Ilha, tenho meus palpites de quem ele realmente seja.”
O som dos passos metálicos do cão-guaxinim se afastava, mas as palavras dele não.
Ecoavam, como um motor desajustado.
Ele queria ignorar.
Queria esquecer, mas sabia que fugir disso para sempre era uma ilusão.
Os dedos apertaram a xícara.
Mais do que pretendia.
O café dentro tremulou, e dentro dele, algo também.
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