S-2878 • L6 Teceluna • D22 Abete
“Teceluna tece caminho em fio firme.
Abete abre espaço em luz mansa.
A maré desenha curva em prata viva.
A história segue em desenho claro.”
Tanu ajudava Hikaru com os dados da Bratva.
Robôzinhos zuniam ao redor.
Livros, documentos, objetos voavam pelos ares.
“O que vão fazer agora que a arma sumiu?” murmurou o nanoengenheiro, olhos fixos na holotela.
“Sei lá, mas aquela Trix é maluca.”
O cão-guaxinim compilava as informações principais.
A atmosfera mudou.
O ar pesou.
A mudança veio como um fio de gelo na nuca.
A frieza de sua aura sempre o alcançava de longe.
O perfume cítrico, primeiro sinal.
“Tanu, pode ir.”
Hikaru massageou a testa.
O que esse cara queria agora?
O robô obedeceu.
Saymon estalou a língua.
Deslizou os dedos pela mesa.
Pegou um componente tecnológico.
Girou entre os dedos.
“Preciso de uma arma.”
Ao menos, não era uma visita enigmática na madrugada.
“Armas não são minha especialidade.”
Sua voz taciturna ondulou em Saymon.
O mercenário sorriu.
Hum, bom.
Saymon girou a cadeira, travando Hikaru no assento.
O corpo sobre ele.
O rosto próximo.
Demais.
Os olhos dourados arderam insinuantes.
“O Tanuzinho se mostrou uma qn-arma bastante formidável.
Apesar da… essência caótica que o habita.”
Saymon tocou a cicatriz na própria testa.
“Me conecto a mais de um androide.
Só posso fazer isso ao tocá-los.
Quero mudar isso.”
Hikaru desviou o olhar.
O coração palpitou.
Ficou difícil respirar.
Ele realmente disse que controlava mais de um androide?
Impossível.
“Não sei como posso ajudá-lo.”
Saymon inclinou o rosto.
Os lábios se curvaram.
“Tu es sûr, minou?
Des particules quantiques stabilisées par des nanites quantiques.
Ce n’est pas ta spécialité?”
A voz cálida deslizou pela espinha de Hikaru.
‘Certeza, gatinho?
Quantum-partículas estabilizadas por quantum-nanites.
É essa sua especialidade?’
Francês.
Isso significava…
Suspirou.
“Me siga.”
No laboratório nos fundos, pediu para Saymon deitar na maca.
Os sinais vitais surgiram na tela.
Conectou as análises quânticas.
Escaneou o mercenário da cabeça aos pés.
O que infernos era aquilo?
Como esse cara tinha aquela quantidade insana de q-nanites dentro dele?
A cabeça de Hikaru girou.
Centenas de dúvidas.
Pouco importava.
“Como a conexão funciona?”
Saymon explicou brevemente o funcionamento da Gagner.
Isso explicava muita coisa.
Mesmo atordoado, Hikaru admitia a reverência silenciosa diante do que via.
Aquelas q-nanites, a dona do diário ajudou a cocriá-los.
Aquelas passagens sobre transcendência de redes interfractais e tecnoneurais deveriam se referir a Gagner.
Sua cabeça fervilhou ideias.
Como faria aquilo?
Coletou o sangue de Saymon.
Nas luas seguintes, trabalhou intensamente no qn-protótipo.
Duas pistolas.
Balas carregadas com o DNA do mercenário.
No meio da confusão de fórmulas e códigos, Hikaru parou.
As palavras de Chiyo ecoaram em sua mente:
A química sempre encontra equilíbrio, principalmente no caos.
Ele nunca entendeu bem o que ela queria dizer.
Mas agora…
Talvez fizesse sentido.
E então, chegou a algo promissor.
Algumas lunações depois
Saymon surgiu de madrugada.
Familiarmente ensanguentado.
Hikaru cuidou dele como sempre.
Dormiu no sofá.
Acordou ao seu lado na cama.
Fez café.
Saymon despertou.
Transmitia a frieza costumeira.
Merda.
Por que aquela apatia incomodava tanto?
“Aqui.”
Hikaru entregou a pistola para ele.
“Os q-nanites que você enviaria para o androide, faça isso nessa parte.
A bala vai encapsular o q-nanite.”
Os olhos âmbar faiscaram prazer.
Quase colou o rosto no do nanoengenheiro.
Aquele perfume de bambu e metal que Hikaru exalava…
Por que ele gostava?
“Bom gatinho.”
Saymon sorriu charmoso.
Hikaru foi incapaz de conter o calor no peito.
Saymon apertou os olhos.
“Soube que encontrou minha amada irmãzinha, Maia.”
Ele passou a mão por cima do kimono azul escuro de Hikaru, sentindo a parte nanometalizada do nanoimplante da caixa torácica direita.
O nanoengenheiro estremeceu discretamente.
“O que você fez que a deixou tão furiosa?”
A risadinha divertido desafiou Hikaru com uma sutileza genuína.
Ele apenas expressou um “Tsc”.
O mercenário sorriu, insinuoso.
“Senti que vocês poderiam se dar bem.”
Hikaru tentou esconder a surpresa inesperada nos olhos, mas seus olhos pretos trancaram com os olhos dourados em uma frequência magnética.
Saymon estalou a língua.
O hálito quente roçou na face do nanoengenheiro.
“Sabe, o jeitinho que você está me olhando… realmente me faz querer ainda mais você.”
Kuso.
Hikaru desviou o rosto e afastou-se.
O sorriso de Saymon se desfez.
Por que sentiu aquele desânimo?
Não importava.
Ele foi embora.
Hikaru apertou os punhos.
Maldição.
Só esse cara o fazia sentir-se estranho.
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