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Fuga do Oásis

Só uma Espiadinha

Só uma Espiadinha

Apr 02, 2026

Rrr… Rrr…


Relva acorda no meio da noite, sem saber por quanto tempo esteve dormindo. Suas antenas tateiam o chão, elas detectam vibrações estranhas, diferentes dos habituais estalos de mandíbulas e estrídulos de abdômens. Algo vindo de fora do berçário.

Ela tenta ignorar. Assim que Ysá abrir as asas, ela será enviada para sua primeira patrulha de forrageamento e não se sairá bem se estiver sonolenta. Mas o ruído continua, baixo e constante. Relva cobre as antenas com as pernas dianteiras. Ela vira seu corpinho para um lado e depois para o outro. Que porcaria de barulho é esse? Ela se levanta.


Rrr… Rrr… Rrr…


Ao seu redor, espalham-se carapaças, pernas e antenas completamente imóveis. Não é uma de suas irmãs. E nenhuma parece estar tão incomodada quanto ela. A coletora considera acordar uma delas para perguntar sobre, mas logo desiste da ideia. Se somente ela está acordada, então somente ela pode ouvir, despertar outra formiga é inútil.

O pensamento de seguir o som invade sua mente. Mas, junto dele, uma lembrança amarga. Antes de ir para seus aposentos, Flora deixou claro que as operárias não poderiam sair até que recebessem ordens para isso. Se o simples fato de se distrair na presença dela já rendia empurrões e insultos, Relva não quer nem imaginar o que aconteceria se fosse contra sua palavra.

Sem dúvida, seria um desastre. E por mais que essa ideia a inquiete, ela também, ironicamente, a ajuda a se acalmar e a se aconchegar sobre o solo arenoso. Nada que valha o risco, certo?


Rrr… Rrr… Rrr…


Mas e se valesse?

Afinal, Flora não precisa ficar sabendo. E não é como se Relva pretendesse se ausentar por muito tempo. Só uma espiadinha. Para descobrir o que está causando o barulho e talvez até encontrar uma maneira de pará-lo.

Só uma espiadinha. E, antes que percebesse, ela já está de pé novamente, rastejando o mais silenciosamente possível em direção à saída do berçário. Os pilares de terra que sustentam a entrada do túnel se erguem diante dela. Relva para por alguns instantes, como se aquelas estruturas, gigantescas e ao mesmo tempo minúsculas, julgassem sua passagem. Ela não é digna, mesmo assim ela continua, desaparecendo na escuridão.

O chão à sua frente mal pode ser visto. Mas quando se tem antenas para guiar o caminho e detectar sinais de perigo, como batedores escoltando o exército, e pés ágeis cobertos de pelos sensíveis para orquestrar cada passo com precisão, o sentido da visão se torna uma mera comodidade.

Tudo está impregnado com os feromônios de suas irmãs mais velhas, uma mistura complexa de odores e texturas antigos e atuais, revelando tantas histórias da vida dentro e fora da colônia que Relva mal consegue se concentrar em uma só. E nem precisa, pois, pela primeira vez em muito tempo, uma formiga não passa por aquele túnel para seguir um cheiro, mas sim um som.


Crr… Crr… Crr… Crr…


Relva anda para a esquerda, para a direita, para baixo e para cima, só parando quando sente algo estranho em seu exoesqueleto. O ar ao seu redor parece ter se tornado mais leve, mais suave. Dançando sobre sua pele rígida, acariciando-a com um tipo de sutileza e frescor que ela nunca havia sentido antes. Uma corrente de ar. Ela se lembra das histórias que as cuidadoras costumavam lhe contar sobre a construção do formigueiro. Túneis estreitos, mas extremamente funcionais, que permitem que o ar da superfície entre, resfriando e purificando o complexo subterrâneo.

Há também os aromas de terra, madeira, folhas, flores, frutos e muitos outros. Com eles, Relva já consegue criar uma imagem vívida do lado de fora em sua imaginação.

O lado de fora… Oh, não!

Ela estava tão concentrada em seguir o som que nem percebeu onde estava se metendo. E se esse túnel leva diretamente à superfície, o som vem de lá, seja o que ele for. Se ela quiser encontrá-lo, inevitavelmente terá que deixar o formigueiro. E depois? Ela nem sequer sabe como é a superfície, tudo o que sabe são alguns cheiros e as descrições feitas pelas cuidadoras nos contos.

Seguir em frente ou desistir e retornar? De todo modo, Relva não tem tempo para refletir sobre essa escolha. Ela sente vibrações pesadas vindas das profundezas da terra em sua direção.

Soldadas! Ao menos quatro delas.

Rápida como um feixe de luz, a coletora escala as paredes do túnel e se esgueira por uma rachadura no teto, rezando para Ysá e Bitú que não tenha sido flagrada.

“Vocês também ouviram?”, pergunta uma das soldadas, parando logo abaixo da rachadura onde Relva se esconde. Ela parece ter a mesma idade que Flora. Sua característica mais marcante é a falta de uma perna no lado direito do corpo, uma lesão terrível, mas que não parece afetar sua mobilidade.

“Ouvi”, responde outra, sua voz mais sonolenta e impaciente. “A merda de um grilo, perto do tronco da árvore.”

“Ou ele está aqui pelas folhas ou pelas flores. Em ambos os casos, ele não pode levar nada do nosso território, entendido?”

“Entendido!”, respondem as outras três quase em uníssono.

“Casca, você vem comigo! Pena e Brisa, esperem aqui. No momento, este não é um trabalho para nós quatro, fiquem perto da saída e chamaremos caso sejam necessários reforços.”

Com isso, as duas soldadas mais velhas saem correndo do formigueiro, enquanto as demais permanecem exatamente onde estão. Que beleza… Agora só Ysá sabe quanto tempo Relva terá que ficar naquela fresta. Ela começa a procurar por rotas de fuga enquanto as formigas abaixo dela conversam baixinho. Graças à mistura de cheiros que vêm e vão do túnel, nenhuma delas parece ter sentido sua presença.

“É por causa desse tipo de situação que eu queria trabalhar no turno do dia”, Brisa continua reclamando.

“Você se queixa demais”, Pena responde. “Você deveria estar feliz que nosso trabalho é só vigiar os arredores do formigueiro e não sair em patrulhas.”

“Por que diz isso?”

“Você não ouviu? Estão enviando elas cada vez mais para longe. Hoje mesmo, Luz, Pólen e Raiz comentaram que saíram ao amanhecer e só voltaram perto da noite. Flora ordenou que elas seguissem os rastros do que pareciam ser cupins.”

“Ela estava com elas?”

“Não, acho que ela estava recepcionando as novas operárias ou algo assim. Você sabe, dando um apavoro nas novatas.”

E que apavoro, pensa Relva.

“Hum, é claro… Eles devem estar apenas fazendo sua colheita. Muita madeira morta por aí.”

“Mesmo assim, as veteranas não gostam de como eles estão chegando perto”, ela resmunga. “Nem a rainha.”

“Isso para mim é paranoia. Se elas já veem a tarefa de se livrar de um grilo que só está cantarolando por aí como uma operação de guerra.”

“Até um tempo atrás, você parecia bastante animada em se livrar dele…”

“Porque ele não me deixou dormir! Os cupins, até onde sei, não me fizeram nada.”

“Ugh, tá certo. Espero que você tenha razão e que seja só paranoia mesmo”, suspira a soldada. “Mas é melhor ficarmos de olho para qualquer movimento suspeito fora do formigueiro.”

“Se isso te ajuda a dormir à noite.”

“Nós não dormimos à noite.”

“Você me entendeu!”

“Na verdade, pensando bem, você não deveria estar dormindo quando…”

“Você. Me. Entendeu!”

Grilo? Cupins? Devem ser outros insetos. Relva ouvira algumas coisas sobre eles antes, animais selvagens e traiçoeiros que não vivem como as formigas. Alguns deles nem sequer sabem como construir ninhos ou cuidar da própria prole, passando seus dias sozinhos desde a eclosão até a velhice. A coletora não entende como alguém conseguiria sobreviver assim. Pelo menos agora ela sabe de onde vem o som.


Crr… Crr… Crr…


Sua curiosidade anseia vê-lo pessoalmente, mas e se for arriscado? Ela seria devorada antes mesmo que pudesse chamar por socorro se o encontrasse antes das soldadas, e se o encontrasse depois delas, também estaria encrencada.

A imagem mental de ter suas pernas arrancadas por uma criatura desconhecida é de revirar o estômago, mas imaginar o que Flora faria com ela também não lhe agrada. E como voltar ao berçário se a única saída é através de Pena e Brisa?

Relva olha fixamente para as paredes de terra da rachadura. Não há o que fazer. Se não existe outra saída, ela precisa criar uma, e o único trajeto possível é para cima. Ela começa a cavar.

Suas mandíbulas e pernas trabalham depressa, removendo e realocando com cautela e precisão cada grão e pedregulho pelo caminho. O túnel não precisa ser perfeito, muito menos bonito, mas ainda assim precisa ser bom o suficiente para ser atravessado sem desmoronar. E quanto mais ela avança, mais o solo arenoso se torna seco e quebradiço, dificultando essa tarefa. Ele deve estar em algum lugar dentro da estrutura externa do formigueiro, perto da superfície.

Com um último empurrão, a parede cede e as antenas de Relva emergem do chão. Ela fica parada em frente à abertura que criou durante o que aparenta ser uma eternidade, analisando e tentando digerir todas as novas informações que invadem seus sentidos.

A brisa fresca e agradável bate contra seu rosto e passa pelos seus espiráculos. A luz tênue de Bitú banha seu exoesqueleto como um véu prateado, enquanto seus olhos se ajustam ao novo ambiente, muito mais claro que o buraco de onde saíra.

Não há mais barreiras ou tetos limitando o campo de visão. As árvores, infinitamente maiores do que os pilares de sustentação das câmaras subterrâneas, erguem-se em direção ao céu como gigantes sombrios. Cada galho um braço retorcido coberto de folhas que, como garras, arranham a névoa que as envolve em um abraço pálido.

Relva sente a grama, o pólen, os rastros de feromônios deixados pelas coletoras, indo e vindo das patrulhas de forrageamento, o delicioso aroma emanado pelas flores da jabuticabeira e as frutas que maduravam acima de sua cabeça.

E o silêncio.

Exceto pelo rangido esporádico de ramos contra o vento, não se ouve nada. O som que ela vinha seguindo até aquele momento desapareceu completamente. Talvez o grilo tenha sido finalmente encontrado pelas soldadas e perseguido de volta à mata, contudo, além de um rastro superficial, também não há nenhum outro sinal delas.

Lentamente, a coletora desce do montinho de terra, caminhando perto da base da jabuticabeira. O solo sob seus pés ainda quente graças aos raios de Ysá que o aqueceram durante o dia.

O gramado logo abaixo dos galhos está forrado de folhas e pétalas parcialmente apodrecidas. Ela para ao lado de uma delas, com suas antenas curiosas tateando delicadamente a superfície, rugosa como uma larva doente que não foi devidamente alimentada.

Difícil de acreditar que o fungo seja cultivado com plantas de aparência tão frágil. Isso não parece certo. Suas irmãs certamente não coletam as folhas caídas. Relva olha para as que ainda estão presas aos galhos. Essas também parecem um pouco desidratadas, mas devem ser mais saudáveis.

As reflexões de Relva são interrompidas por um farfalhar próximo. Perigosamente próximo. Ela congela. Suas antenas se erguem às pressas em direção ao som, suas mandíbulas se abrem por instinto. Ela não está tão sozinha quanto pensava que estava.

O farfalhar se repete, vindo de uma pilha de pétalas esbranquiçadas. Algo está se movendo sob elas. Embora ela não saiba muito sobre o mundo fora do formigueiro, Relva sabe reconhecer outra formiga quando uma está por perto.

Isso não é uma formiga.


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Laura Ciello

Creator

E voltamos do hiato, meu povo! Esse capítulo acabou ficando um pouquinho mais longo do que planejava, mas eu não acho que isso seja um problema necessariamente. Esse negócio de “bite size stories” que o Tapas tanto fala realmente não faz o meu tipo.

#drama #Xenofiction #novel #animal_character #nonhuman_character #insects #bugs #animals #adventure #brazil

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Aviso: Este livro contém cenas e temáticas que podem ser consideradas sensíveis ou perturbadoras para alguns leitores. A natureza é bela, mas também pode ser cruel. Esteja ciente disso antes de prosseguir. Espero que desfrute da história, boa leitura!
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