Algo salta das pétalas, passando por cima de Relva como uma besta alada. A formiga se agacha, cobrindo os olhos com as antenas e preparando-se para o pior. Mas nada acontece. Ela bisbilhota por baixo de um dos apêndices. Todos os seus seis membros preciosos ainda estão intactos.
Atrás dela, ela ouve um baque seco contra o gramado e se vira em um pulo para evitar ser atacada pela retaguarda. Mas isso também não acontece. O outro inseto permanece imóvel, pousado sobre a ponta de uma única lâmina.
Seu corpo é longo e arredondado, revestido por um exoesqueleto tão negro quanto a própria noite. Suas antenas longas, finas e delicadas trepidam e se curvam, captando os aromas exalados pela coletora. Abaixo delas, dois grandes olhos compostos a observam fixamente, refletindo a luz fraca de Bitú como quartzos brancos no fundo de um lago turvo.
Relva o encara de volta, examinando minuciosamente aquela criatura desconhecida em busca de qualquer sinal de agressividade. Ele não tem as mandíbulas robustas de uma formiga, e as esconde sob placas faciais quitinosas. Suas longas pernas traseiras, talvez tão compridas quanto o próprio animal, se retraem paralelamente ao abdômen. Ele está na defensiva, pronto para saltar ante qualquer movimento brusco, mas nenhum dos dois parece disposto a ser o primeiro a agir.
A antecipação é esmagadora, como se a densa neblina que vagueia entre as árvores descesse e se fechasse entre ele e a operária.
“Não se aproxime! Se você chegar mais perto, vou te fazer em pedaços!”, Relva estala as mandíbulas violentamente, quebrando o silêncio de uma vez por todas.
O desconhecido, no entanto, permanece fitando-a, sem recuar ou avançar um único passo.
“Tu não é uma soldada, é?”, sua voz é baixa e melódica, como a brisa que sussurra pelos galhos da velha jabuticabeira. Uma mistura suave de perplexidade e hesitação. “É só uma operária.”
“Só uma operária que ainda pode te machucar feio, hein!”
“E quer me machucar?”
“Sei lá!”, Relva responde, ainda com as mandíbulas escancaradas. “Se você não quiser, eu também não quero.”
“Ah, então fechou!”, ele salta da folhagem para o solo, seus olhos negros explorando o ambiente, em busca de alguém que possa estar observando-os das sombras. “Está sozinha?”
“Não te interessa.”
“Viu alguém parecido comigo por aqui?”
“Também não.”
Os olhos do inseto se afastam dos arbustos e voltam a se concentrar em Relva.
“Também não de não viu, ou também não de não me interessa?”
“Os dois!”
“Mas vocês, formigas, são um bicho grosso mesmo…”, ele comenta com um toque de impaciência.
E, apesar do medo que a domina, Relva não consegue conter sua indignação:
“Como é que é?!”
“Eu só fiz algumas perguntas simples, não precisa me tratar como se tivesse ameaçado comer todos os ovos dessa tua colônia”, e salta por cima da operária novamente. Desta vez, ela reage com mais agilidade e corre para trás da pedra mais próxima.
“Não confio em você!”, sibila Relva de seu esconderijo, ofegante como se estivesse prestes a ter um ataque do coração. Uma sorte as formigas não terem esse órgão no sentido convencional.
“Não preciso que confiem em mim”, responde, e começa a mastigar algumas pétalas como se não houvesse mais nada a ser discutido.
A coletora pressiona seu pequeno corpo contra a superfície áspera da rocha. Passa-se algum tempo, talvez minutos, ou até mesmo uma hora, antes que ela finalmente decida que é chegada a sua vez de interrogar aquela criaturinha irritante.
“O que é você?”
O outro inseto levanta a cabeça e engole o que tinha na boca, surpreso que a formiga ainda estava por perto.
“Como assim?”
“Que tipo de bicho é você?”
“Ora, adivinhe”, ele tenta conter o riso, um suave chilrear escapa por entre suas asas.
“Você é o grilo”, ela diz sem sair de onde está e sem olhar para a cara dele.
“Sou um grilo, sim.”
“Então era você quem estava fazendo todo aquele barulho!”
“Hahaha! Sabe, alguns podem dizer que isso é um canto, mas gostei muito mais da tua definição.”
“Era você ou não?”
“Não.”
“Alguém que conhece?”
“Sim.”
“E...?”, Relva insiste, por fim sentindo-se à vontade o suficiente para expor parte do corpo e observar a resposta do grilo.
“E o quê? Não ensinam no formigueiro que é falta de educação falar com alguém que está tentando comer?”, ele se enfia debaixo das pétalas caídas, dando o assunto como encerrado. As antenas de Relva tremem de irritação, mas ela não pode culpá-lo, já que seu próprio comportamento mais cedo certamente não a ajudou a manter a conversa civilizada.
“Ensinam”, ela se aproxima com cautela. “Também ensinam que a jabuticabeira é nosso território, que insetos invasores não podem comer suas folhas… E que devemos sempre alertar as soldadas caso isso aconteça.”
“Coisa linda a organização desses insetos coloniais, hein? Humpf!”, retruca o grilo, sua voz ainda macia mesmo quando carregada de sarcasmo. “Aposto que elas também têm algo a dizer sobre operárias que saem sozinhas no meio da noite.”
“Têm sim, é proibido”.
“Então, tá fazendo o que aqui?”
“Bom, o suposto canto do seu amiguinho não me deixou dormir, algumas soldadas também perceberam, inclusi—”
“Ele não é meu amigo!”, o inseto negro a interrompe com um guincho estridente, a cabeça emergindo da vegetação em decomposição com as placas quitinosas do rosto agora erguidas, revelando um aterrorizante par de mandíbulas serrilhadas.
Relva instintivamente tenta recuar, perdendo o equilíbrio ao se assustar e derrapando sobre o solo seco. Ela ofega, com os olhos esbugalhados fixos no outro animal, que poderia facilmente arrancar-lhe a cabeça naquele exato momento.
“Ele não é meu amigo…”, ele repete com fraqueza, ofegante como se sua própria reação também o tivesse apavorado. Lentamente, ele retrai as mandíbulas, escondendo-as novamente sob sua máscara natural e virando as costas para Relva com as antenas abaixadas. Por alguns instantes, parecia tão murcho quanto aquelas velhas pétalas brancas. “Desculpa, é que… Muda de assunto ou vai embora se não tem nada melhor para dizer. Não quero falar sobre isso.”
“Tudo bem, tudo bem…”, Relva suspira para se recompor, apoiando-se em suas seis pernas e ponderando se deveria voltar a se afastar daquele inseto claramente mais impulsivo do que os quais estava acostumada. “Bem, eu… eu também queria uma desculpa para dar uma volta, sabe? Ver o mundo exterior pela primeira vez.”
“Ver o mundo exterior pela primeira vez? Nasceu ontem ou algo do tipo?”
“Mais ou menos? Não muito, apenas deixei minha pupa.”
“E a primeira coisa que tu faz é sair sozinha?”, a descrença do grilo o obriga a ficar cara a cara com a operária, que simplesmente o responde com um balanço afirmativo de antenas. “Caramba! Isso é o oposto de ter instinto de sobrevivência. Você não é uma formiga muito esperta.”
“Ah, deixa disso!”
“Mas é verdade!”
“Você não se arrisca, não?”, indaga Relva, impaciente, andando ao redor do inseto maior com um olhar desafiador. “Será que não existe um pingo de curiosidade debaixo dessas asas?”
“Às vezes, sim”, ele admite em um resmungo, levantando as longas antenas para que a formiga não as tocasse. “E daí eu me lembro que não gosto da ideia de estar morto.”
Relva continua a caminhar, distanciando-se do grilo e parando perto de um fino pedaço de galho, onde limpa as pernas dianteiras entre as mandíbulas, lambendo-as brevemente para remover a poeira.
“Então você é um covarde”, ela por fim afirma com desdém.
“Covarde?!”, ele se lança em direção à Relva, cravando suas pequenas garras na casca seca do graveto, que balança com o impacto. “Tu não me conhece, não vá assumindo que sou covarde!”
“Bom, então talvez não vá assumindo que sou estúpida.”
“Meio difícil com essa cara de trouxa.”
“Meio difícil com essa cara de frouxo.”
“Tá bom, já chega!”, o grilo zumbe, dando um coice no ar com uma de suas longas pernas traseiras antes de saltar do galho para o chão. É evidente que os dois insetos já testaram a paciência um do outro o suficiente por esta noite. Mas, mesmo assim, não há nenhuma agressividade real no ar e isso, por algum motivo, o perturba. “Não era para você estar fazendo aquelas esquisitices de sinais de feromônio para me delatar pras suas irmãs maiores ou algo assim? Eu não deveria estar aqui, não é mesmo?”
“Não, não deveria”, responde a formiga com seriedade, antes de ondular as antenas e fechar as mandíbulas amistosamente. “Mas você não parece perigoso, apesar de tudo, então não vejo razão para isso.”
“Não confio em você.”
“Não preciso que confiem em mim.”
O grilo levanta uma das antenas, pego de surpresa por suas próprias palavras. Mesmo na escuridão da noite, Relva consegue perceber seu olhar perplexo se acalmando aos poucos. Ela, por outro lado, sente os minúsculos pelos de suas pernas se eriçarem. Mesmo se realmente quisesse chamar a atenção das soldadas, é incerto se isso surtiria algum efeito.
“E tem mais, eu… Na verdade, não sei onde elas estão”, acrescenta, lembrando-se de que não foi capaz de localizá-las quando saiu do túnel. “Era isso que eu ia te dizer antes de… Você sabe. Deveria haver ao menos mais duas formigas aqui, mas não consigo sentir elas.”
Não demora para que a quietude do outro inseto reacenda a velha desconfiança com a revelação da coletora. Ele sobe pelo graveto com passos rápidos e desajeitados, girando as antenas em todas as direções que sua anatomia lhe permite. E então, para, como se congelado. A apreensão de Relva aumenta quando ele assim permanece por alguns longos segundos, tendo um sobressalto ao ouvi-lo proferir com temor:
“Também não consigo ouvir ele…”
Mas ela consegue escutar alguma coisa. Um farfalhar distante e abafado vindo do capim alto, para além da periferia da jabuticabeira. Suas antenas tremem, instintos primordiais gritam-lhe sobre algo terrível pairando no ar. E um chamado. Um cheiro azedo e estarrecedor que invade seus órgãos sensoriais. Ela não precisa avistar as soldadas para saber que elas estão passando por dificuldades.
O farfalhar torna-se mais intenso. O grilo também o percebe e agacha-se, como se tentasse ficar invisível diante do possível perigo. Relva imagina se ele consegue sentir os alertas emitidos.
“Ele… Seja lá quem for… Conseguiria ferir nossas soldadas?”, pergunta a formiga em vão. O outro inseto sequer se dá ao trabalho de virar as antenas na direção dela para prestar atenção às suas palavras, mantendo elas e os olhos fixos no matagal.
As duas pequenas criaturas se encolhem como presas encurraladas quando um enorme vulto voa dos arbustos e desaparece na névoa. Na escuridão, Relva não consegue distinguir o que poderia ser, mas com certeza era maior do que uma formiga e maior do que o grilo ao seu lado.
Em um ato impulsivo, ela corre naquela direção para descobrir o paradeiro de suas irmãs, mas freia antes de se aventurar na vegetação mais densa. Ela olha para trás, na esperança de que talvez aquela possível nova amizade estivesse a seguindo, porém, ele já partira.
Sozinha outra vez e sem melhores opções, ou então um plano de como agir caso tivesse que lutar pela colônia, Relva volta a correr. Nem mesmo o terror mais profundo consegue impedir uma formiga de ajudar quando alguém precisa. Tampouco a certeza de que, quando tudo isso acabasse, ela teria muitas explicações a dar às suas superiores.

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