Que cansaço.
Nunca esteve tão cansado na vida, nem tão dolorido. Parece até que carregou o carro nas costas até a floresta. Não quer nem pensar na caminhada de volta até o veículo, e ainda vai precisar escalar para fora desse buraco e tapá-lo antes disso.
Os joelhos rangem, os ombros imploram por socorro. A umidade do ar noturno parece infiltrar seus ossos. Não teve tempo de pegar um casaco muito bom quando saiu de casa, é claro; como poderia imaginar que chegaria aqui após um único telefonema? Não que ele realmente precise se agasalhar melhor, visto que cada músculo de seu corpo parece prestes a se rasgar em fogo. Sua boca está seca, tomada pelo amargor da nicotina. Foi sua primeira vez provando, mas provavelmente será a última. Toda vez que colocar um cigarro na boca, vai se lembrar dessa noite.
Tomara que ele consiga esquecer o máximo possível. Que o trauma afogue as memórias dele, que a adrenalina transforme isso tudo num clarão, um branco, um vasto nada. Não se importa em sustentar o peso desse fardo, desde que seja sozinho. Por isso que segue cavando, apesar de tudo. Por mais que ainda haja tempo para mudar de ideia, sabe que não tem outra escolha. Qualquer alternativa foi descartada horas atrás, assim que mandou o amado entrar no carro. Dar a volta na cidade, atravessar a noite, se afundar na lama até o pescoço, o cheiro metálico, os calos que a pá forma contra suas mãos — nada disso é um incômodo tão grande que não valha a pena, se for por ele.
O homem em questão está em pé, à beira do buraco, esfregando as palmas das mãos contra a calça. Acabou de voltar de onde o carro está estacionado. Por um instante, ele se permite parar de cavar. Já foi tão longe que precisa até levantar um pouco a cabeça para ver o rosto do amado. Seu cabelo está uma bagunça, como sempre, mas seu rosto ainda está ferido. Seu lábio superior ainda sangra um pouco. Seu olhar segue nebuloso, numa tempestade prestes a desabar.
É um pensamento completamente inapropriado para o momento, mas é impossível não perceber que a beleza dele continua preservada até mesmo na pior das situações.
— Me dá isso. — Ele diz, descendo à cova.
— Eu aguento mais um pouco.
Não é mentira. É só que o outro talvez ainda não saiba do quanto está disposto a fazer por ele.

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