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Laços de Um Destino Descontrolado

CAPÍTULO 1 - Desespero

CAPÍTULO 1 - Desespero

Jun 12, 2026

Quando as cortinas se fecham, tudo o que resta é o silêncio

Quando as páginas de um livro acabam, só resta a memória daqueles momentos em que estiveram juntos.

Nunca se verá a mesma peça duas vezes. As histórias contadas nunca se repetem de verdade.

Quando uma vida se esvai, o que resta para aqueles que ficaram, além do silêncio sufocante de uma alma dilacerada forçada a continuar existindo?

Tudo pelo que ele poderia ansiar já não importava mais. 

Só lhe restava desvanecer. 

Havia um tipo de benevolência distorcida no oblívio.

Não era liberdade, mas existiam desejos gananciosos demais para alguém cujo pecado de existir de forma tão vil estava gravado em sua alma.

Talvez, ele não sabia, aquilo poderia ser chamado de alívio. 

E uma réstia de esperança de nunca mais cruzar o caminho daquela pessoa, em nenhuma vida. Talvez assim, ele não destruísse tudo novamente.

E um desejo egoísta, de que em outro mundo, seus destinos miseráveis pudessem ser um pouco diferentes.




As nuvens se abriam com uma luz aquecida, um som de estalo ecoando no ar e o vento assobiando em seus ouvidos. 

O sol quente e brilhante daquele dia de verão ficaria para sempre marcado na mente daquela criança.

Como uma corda se esticando até o limite, os fios que a mantinham unida se desfiando até se romperem completamente em um estalo doloroso.

Como o estalo de um chicote, como ossos se quebrando, como a esperança se destruindo em cacos de vidro.

Desde cedo o garoto sabia que o mundo não poderia ser justo. Que as pessoas eram cruéis porque era divertido, que misericórdia e gentileza eram um privilégio e não algo que qualquer um poderia receber e era inerente à natureza humana. 

Não, desde jovem aquele menino sempre soube que o mundo era podre. Corrompido até os ossos. Mas mesmo em meio a toda aquela podridão, ainda havia pessoas que valiam a pena. Algumas poucas pessoas que Shi Jiu achava que valiam a pena permitir entrar em seu coração.  

Uma delas era Yan Qing. O garoto era alguns anos mais velho do que Shi Jiu, e era bondoso demais para o mundo em que viviam. Mas mesmo com sua natureza gentil e suave, ele ainda fazia de tudo para cuidar de Shi Jiu, protegendo o garoto mais novo apesar de seus comentários ácidos, seu corpo mirrado, incapaz de crescer tanto quanto deveria pela má alimentação do orfanato e das ruas. 

Mesmo naquela situação precária, ele nunca se afastou de Shi Jiu, apesar da natureza ácida do mesmo. Onde todas as outras crianças escolheram ficar longe dele por ele ser muito cáustico, Yan Qing quis ficar e cuidar dele. Shi Jiu não poderia dizer que não o valorizava, Qin-ge era alguém que ele manteve perto de seu coração, uma das únicas faíscas de bondade naquele mundo podre.

A outra pessoa era seu irmão gêmeo, sua outra metade, aquele que foi a única certeza de Shi Jiu durante vários anos. Seu querido A-Yu. Os dois tinham o mesmo rosto, mas eram totalmente diferentes em personalidade. Shi Yu era doce e amável, assim como Qin-ge, mas também podia ser feroz e nunca abandonou Shi Jiu. Shi Yu tinha uma saúde ruim, mas nunca perdeu sua vontade de viver, parecendo o mais esperançoso dos três. 

Desde que chegaram àquele orfanato maldito, os supostos cuidadores chamaram seu irmão de Xiao Shi, inicialmente, ignorando o nome de Shi Yu. Claro, o apelido não tinha nenhuma conotação carinhosa como parecia para estranhos que visitavam o orfanato. 

Contudo, por serem gêmeos, pararam de chamar outro garoto de dez, chamando-o só de "ei você", já que ele poderia se tornar o substituto de Shi Jiu, caso necessário. 

Shi Jiu não perdeu a ironia de ser nomeado como nove, sua vida deveria ser a eterna piada cruel do universo.

Shi Jiu os odiou ainda mais por isso. Seu irmão era sua própria pessoa! Ele era adorável! 

Não que Shi Jiu desse muito valor aos nomes que seus pais escolheram para eles, é claro. Aquelas pessoas que os deixaram deliberadamente na mão dos traficantes de escravos.

Tudo isso era culpa deles. Shi Jiu não sabia que tipo de vida estariam vivendo se ainda estivessem com seus pais, mas talvez… talvez Shi Yu…

O pequeno Shi Yu era o mais novo entre os três, já que mesmo sendo gêmeos, Shi Jiu era o mais velho. Shi Yu... Shi Yu era quem mais merecia realizar seus sonhos de viver uma vida melhor.

Seu irmão não poderia mais realizar esses sonhos. 

O dia estava ensolarado, o céu era de um azul brilhante e suave, as pessoas viviam suas vidas tranquilamente, alheias a tempestade que se agitava no peito do menino escravo. Ninguém se importava com o que acontecia com crianças escravas naquele mundo sujo e corrompido. Ninguém se importaria com o irmão de Shi Jiu que não estava mais vivo. 

Essa era a natureza do mundo, um purgatório sem fim, com almas atormentadas e demônios que os atormentam como algozes. As poucas luzes de esperança que o tornam melhor são destruídas sem piedade.

— A-YUUU!!! — A garganta de Shi Jiu doeu com a força do grito que saiu de seus pulmões, anos mendigando com lágrimas falsas tornaram o garoto experiente em forjar o choro para conseguir a pena das pessoas, mas Shi Jiu não estava preparado para não conseguir impedir as lágrimas de verdade que escorriam por seus olhos. 

Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê?? Por quê??? Por quê???? POR QUÊ??

Shi Jiu não tentava mais controlar as lágrimas grossas que escorriam por seu rosto, afundando as unhas curtas no braço do outro garoto que o segurava. 

— Me solte, Qin-ge!! Eu vou matá-los!! Eu vou matar esses desgraçados!! — Ele ordenou, sua voz jovem cheia de ressentimento e ódio que nenhuma criança deveria experimentar tão cedo. 

Mas Yan Qing podia sentir algo além daquilo naquelas palavras rancorosas, algo que ele próprio sentia em seu peito, mas não ousava externar, não quando Xiao Jiu precisava dele: dor. 

O dia estava ensolarado e lindo, mas para dois garotos escravos o dia era sombrio e deprimente. Era pior que o inverno mais frio e implacável. Era cheio de uma neve sangrenta. Sob o sol escaldante, a areia estava manchada de sangue ao redor do pequeno corpo do irmão gêmeo de Shi Jiu. 

Yan Qing não podia deixar Shi Jiu se aproximar ainda, não quando isso poderia colocá-lo em ainda mais problemas com a família Liu. O garoto já havia notado Xiao Jiu quando ele tentou atacá-lo, não seria bom para ambos se chamassem ainda mais atenção. 

Geralmente, era Shi Jiu quem era mais cauteloso, mas agora Shi Jiu não estava bem e precisava de apoio. 

Então Yan Qing o segurou o mais forte que conseguia e o levou para um beco afastado, deixando o garoto mais novo chorar sua frustração, tristeza e dor enquanto a carruagem da família Liu se afastava, alheia ao sofrimento que havia causado. 

Somente então Yan Qing e Shi Jiu correram para recuperar o corpo de A-Yu. Levando-o de volta até a pequena cabana abandonada que os três dividiam. Era um pouco distante do orfanato onde eles moravam realmente, e o pequeno porto seguro do trio para se afastarem ao menos um pouco dos traficantes de escravos. 

Principalmente nos dias em que não conseguiam dinheiro o suficiente, ficar ali era muito mais seguro do que voltar ao orfanato.

Não era como se alguém realmente se importasse com eles naquele mundo além deles próprios.

Não mais, pelo menos.

Yan Qing trouxe uma bacia lascada com água do lago que ficava nas proximidades, para que pudessem limpar o sangue do pequeno corpo. O garoto a todo momento precisava respirar fundo para conter as lágrimas. Ele estava triste, é claro, mas não poderia desabar. 

Yan Qing sentia-se tão inútil por não poder ajudar Xiao Jiu, por não ter conseguido proteger A-Yu, ele deveria ser capaz de cuidar dos dois! O garoto abaixou os olhos por alguns segundos, respirando fundo, tentando controlar as batidas incessantes de seu pequeno coração. 

Não é hora para isso.

Com toda a calma que conseguia reunir, Yan Qing colocou a bacia de água ao lado do corpo, sentindo pequenas mãos conhecidas segurando-o.

Ao seu lado, tremendo como uma vara de bambu, estava Shi Jiu, que agora tentava conter os soluços, segurando com força o tecido puído de suas roupas, escondendo o rosto no peito do garoto mais velho, encharcando suas roupas com as lágrimas.

O tempo todo, Shi Jiu ainda esperava, com uma esperança quase inocente, que seu irmão acordasse, reclamando de dor, agindo como um mimado. Mas cada segundo que passava e não ouviam a respiração de Shi Yu, não o viam abrir os olhos com confusão para perguntar por que eles estavam tão tristes, essa esperança se tornava cada vez menor.

Era assustador ver um rosto igual ao seu, agora sem vida, sujo de sangue. Era tão estranho ver seu irmãozinho, geralmente sempre com a sombra sutil de um sorriso no rosto, sem nenhuma expressão. 

Shi Yu ficava muito mais parecido com ele dessa forma.

Shi Jiu odiou isso. 

Shi Yu não merecia algo assim, não merecia essa morte. Shi Jiu era o desprezível, o cruel, aquele de quem as outras crianças falavam mal no orfanato e nas ruas. 

Shi Jiu era quem deveria ter morrido.

A cena se repetia em sua mente a cada instante. Cada segundo demorado para mostrar ainda mais vividamente o erro de Shi Jiu. 

A culpa é sua.

A pequena discussão com os garotos mais velhos do orfanato, que haviam reivindicado aquela rua para mendigar, fez com que Shi Jiu fizesse um deles chorar após um soco bem dado por terem empurrado Shi Yu.

Os garotos tentavam avançar em sua direção enquanto Yan Qing ajudava Shi Yu a levantar, os dois tentando apaziguar a situação e manter o temperamento de Shi Jiu sob controle. Todos muito distraídos com suas pequenas disputas para prestar atenção na comoção e no som ao redor.

A culpa é sua.

Quando os barulhos da carruagem ficaram altos demais para serem ignorados. 

Quando Shi Yu agiu mais rápido do que qualquer um, usando aquelas habilidades especiais que eles treinavam secreta e desajeitadamente.

Salvando a vida de Shi Jiu, jogando-o para longe do alcance daquela carruagem.

Ele não conseguiu se salvar.

A culpa é sua. A culpa é sua. A culpa é toda sua

Uma parte dele sentia que estava quebrada, irremediavelmente destruída. Como se seu pequeno coração tivesse sido dilacerado e cortado. Perdida para sempre como a vida de seu irmão. 

Deveria ter sido eu. 

Uma voz sussurrava lá no fundo de sua mente. 

Shi Yu estaria vivo se não fosse por você.

Ele destruía tudo o que tocava, tudo o que amava… tudo o que tentava amar. Ele era tão distorcido e podre que mesmo o destino não permitia que mantivesse suas pessoas mais preciosas.

— Xiao Jiu... Qin-ge pode fazer isso, se você quiser. — A voz de Yan Qing tirou Shi Jiu de seus pensamentos, o abraço mais caloroso e aconchegante do que ele merecia, parecendo proteger Shi Jiu de tudo ao redor. 

Shi Jiu não quis pensar em como ele não merecia isso, esse carinho, esse conforto. Como Yan Qing poderia acabar se cansando dele agora que Shi Yu se foi. O pensamento surgiu mesmo assim.

Com um gesto gentil, Yan Qing limpou o rosto de Shi Jiu, enxugando um pouco as manchas de lágrimas e a poeira, apesar de seu próprio rosto sujo. Ele sabia o quanto Shi Jiu odiava ficar sujo de terra e poeira, e mesmo esse pequeno gesto aumentou as lágrimas do garoto mais novo. 

Yan Qing ofereceu-se para limpar um pouco A-Yu. Ao menos para que fizessem um pequeno enterro. Ele não queria submeter Shi Jiu a ainda mais dor do que o necessário. 

Ele era bom demais, muito mais do que Shi Jiu merecia.

— N... não... eu... eu... Eu só… — A voz de Shi Jiu saiu quebrada pelos soluços sufocados, o garoto se odiou por isso, mas não conseguiu evitar. Não enquanto se sentia tão devastado. 

Pelo menos ele tinha Yan Qing. O garoto mais velho ainda estava com ele, e sempre tentou protegê-lo. Ele era o único que havia merecido a lealdade de Shi Jiu além de seu irmão. Agora, Yan Qing era a única pessoa que importava para Shi Jiu.

Naturalmente, Qin-ge era o único que ele poderia permitir vê-lo daquele jeito. 

Qin-ge não iria julgá-lo.

Qin-ge não iria deixá-lo. 

Qi ge… Qin-ge não iria deixá-lo, certo?

Com um novo medo surgindo no pequeno coração do garoto escravo, ele virou-se para Yan Qing, segurando-o o mais forte que suas mãozinhas lhe permitiam.

— Você não vai me deixar também, não é? Você... Você não pode! — Ele tentou exigir, mas parecia muito mais um apelo desesperado do que a exigência severa pretendida.

— Qin-ge não vai. Vou ficar ao lado de Xiao Jiu para sempre. — Yan Qing prometeu, abraçando o pequeno corpo com toda sua força, querendo transmitir sua sinceridade.

— Mas A-Yu... A-Yu foi embora… E ele… Ele também não ia nos deixar, mas… Perdemos ele… Perdemos A-Yu... Qin-ge… — A voz de Shi Jiu falhou, sua visão embaçada — Qin-ge… — Os soluços que haviam cessado momentaneamente retornaram, fazendo Shi Jiu estremecer, escondendo o rosto no outro escravo. — Qin-ge, perdemos A-Yu...

Eles já haviam perdido várias outras crianças ao longo dos anos. Alguns eram vendidos, outros simplesmente morriam. Em suas tenras vidas, os garotos conheceram pouca, ou nenhuma, misericórdia ou bondade, e a perda era algo constante, mas parecia que a dura realidade na qual viviam havia ficado ainda mais cinzenta naquele dia. 

Aquele dia não deveria ser um dia ensolarado. Não deveria ser um dia bonito. Mas como sempre, as coisas não eram como deveriam.

Crianças não eram amadas, pais não protegiam seus filhos, a morte não tinha piedade ou misericórdia.

— Eu não... Não quero ficar sozinho… — Shi Jiu deixou escapar, quando o choro finalmente diminuiu, sua voz era suave e quebrada, abalado demais pela dor para conseguir conter-se. Ele não queria perder seu irmão. Mas ele se foi. Agora, ele tinha medo de perder Yan Qing. — Você é não pode ir embora… Nunca.

Qin-ge era tudo que ainda lhe restava.

— Eu sempre... Sempre vou voltar para Xiao Jiu. Enquanto eu ainda respirar, eu prometo.

Yan Qing sabia que não poderia impedir certas coisas, mas a determinação mesclou-se à tristeza no peito do jovem garoto, fazendo-o dizer tais palavras quase lúdicas para a realidade difícil em que viviam, mas com sinceridade absoluta. Nem mesmo a morte poderia impedi-lo.

Nem que ele morresse, ele voltaria como um fantasma e ficaria ao lado de Shi Jiu. Ele cumpriria sua promessa! 

Como se suas veias cantassem e seu coração respondesse com as batidas sincronizadas às do coração de Shi Jiu.

Nada poderia impedi-los de ficar juntos. Nada poderia separá-los.

Sob uma leve luz escarlate que piscou ao redor dos garotos sem que eles notassem, a promessa que eles fizeram em seus corações naquele dia refletia seu desejo e esperança, fortalecendo o laço que os unia.

Em meio ao desespero e à tristeza, um pouco de calor acalentou seus pequenos corações desolados.

ceciliateresina
Entity of Knives

Creator

Feliz mês do Orgulho e feliz dia dos namorados! Com ele, começamos Laços de um Destino Descontrolado oficialmente!
Venham ler essa história com seus amores e aproveitar o começo dessa linda história de amor!
Deixem seus comentários e vamos conversar sobre essa história caótica e totalmente descontrolada🤭

#bl #danmei #ToF #TIES_OF_FATE #XianXia

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Siren Cat
Siren Cat

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O mais puro suco do descontrole, agora livre a quatro ventos!!!

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Existe uma lenda que fala sobre fios vermelhos do destino que ligam as almas. Se seguir esse fio, você encontrará a pessoa que está em seu coração.

Imortais podem ver esse fio e compreendê-lo, e é esse laço eterno que permitirá que almas perdidas se encontrem e se reencontrem. Ver o fio vermelho do destino pode salvar as pessoas das formas mais improváveis.

Shi Jiu não acreditava nesse tipo de coisa, não quando o mundo inteiro havia provado que não reservava nada para ele além do desastre.

O mundo inteiro… Exceto Yan Qing.

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“Você está louco?!”

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