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Laços de Um Destino Descontrolado

CAPÍTULO 4 - Dor | Parte 2

CAPÍTULO 4 - Dor | Parte 2

Jul 02, 2026

Seu aniversário veio e se foi, ele não falou a ninguém, e disse a Liu Fangfei que não lembrava do dia correto. Não foi fácil passar por ele sem Yan Qing e nem Shi Yu.

Parecia que a cada ano ele perdia alguém. Será que no seu próximo aniversário, Shi Jiu estaria morto?

Talvez fosse uma benção.

Por mais sete meses, Shi Jiu esperou, sofrendo nas mãos cruéis de Liu Bo, tentando forçar-se a ver novamente aquele pequeno fio em sua mão, mas de alguma forma, ele não voltou a revelar-se, quase como se fosse apenas uma ilusão da mente de Shi Jiu. Mas não poderia ser, poderia? Ele tinha certeza que viu aquilo, que Qin-ge também tinha visto. 

A menos que Yan Qing disse que viu só para acalmar Shi Jiu. Ele poderia ter preferido mentir para acalmar o desesperado Shi Jiu. Para que sua partida não fosse tão dolorosa.

Uma última gentileza antes de deixar seu passado sujo e cruel para trás.

Mas Shi Jiu os viu conectados! Eles estavam casados! Suas mãos estavam enlaçadas pelo fio vermelho do destino! Yan Qing pertencia a ele! Não havia como Yan Qing escapar disso!

Qin-ge… Qin-ge não faria isso, certo? Ele não iria abandoná-lo, certo? Qin-ge não iria deixá-lo, certo? Ele cumpriria sua promessa e voltaria por Shi Jiu… Não é mesmo?

Não, Shi Jiu não poderia duvidar. Não. Qin-ge não o deixou. Ele só… Só deve estar ocupado com suas coisas de cultivador, então ainda não conseguiu voltar para buscá-lo, não é? A única coisa que poderia impedir Qin-ge seria se ele tivesse morrido, não é?

Apertando suas mãos com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos como osso, Shi Jiu respirou fundo, banindo aqueles pensamentos traiçoeiros de sua mente.

Ele estava cansado e com medo, sim, por mais que odiasse admitir tal coisa, até mesmo no silêncio de sua mente. Não era motivo para duvidar de Yan Qing.

Era o que ele continuava repetindo para si mesmo.

Além disso, Qin-ge não podia morrer, não, ele prometeu que não morreria, que não deixaria Shi Jiu. Ele sabia que Shi Jiu não queria ficar sozinho, não depois de tudo. Shi Jiu não suportaria perder Yan Qing também. Qin-ge prometeu voltar como um fantasma se ele morresse, ou como um demônio, tudo para não deixar Shi Jiu sozinho.

Liu Fangfei parecia animada com alguma coisa, mas os ouvidos de Shi Jiu estavam surdos a qualquer outro som. Ela parecia empolgada com a ideia de seu irmão para o noivado deles, os olhos com corações rosa dela eram adoráveis, mas Shi Jiu não sentia nada além de um mínimo carinho fraterno.

Ele já era casado, e estava esperando seu marido.

O único que teria seu coração daquele jeito seria Qin-ge, aquele a quem seu fio do destino estava conectado. E ele não podia simplesmente casar-se com Liu Fangfei.

Shi Jiu não tinha a menor intenção de estar lá para quando esse casamento fosse supostamente acontecer. Isso nunca aconteceria.

Além disso, ele sabia os reais planos hediondos de Liu Bo com aquele casamento, e precisava de uma oportunidade quanto antes para escapar dali. Ele não poderia se permitir ser uma marionete nos planos daquele desgraçado.

Mas por que Yan Qing ainda não havia voltado? Por quê?

— A-Jiu? Está me ouvindo? — A voz suave de Liu Fangfei alarmou um pouco Shi Jiu, fazendo-o piscar um pouco desnorteado para ela, contendo uma careta quando a garota tocou-o no braço que ainda doía pela surra do dia anterior.

— Desculpe, A-Fei, estou um pouco distraído hoje. Acho que não dormi muito bem. — A mentira escapou com facilidade, acostumado a encobrir os horrores que sofria nas mãos do filho mais velho daquela família. — O que estava dizendo?

A donzela lhe lançou um olhar demorado, imprensando os lábios enquanto os olhos delicados o mediam de cima a baixo, segurando as mãos de Shi Jiu com delicadeza.

— Não importa agora. A-Jiu tem estado cansado demais nos últimos dias, talvez A-Jiu deva comer um pouco mais? — Shi Jiu conseguiu abrir um sorriso pequeno, sincero dessa vez.

Ele nunca poderia recusar uma chance de comer um pouco mais. Ainda mais caso Liu Bo decida deixá-lo sem comer por qualquer que fosse a razão.

— Acho que é uma ótima ideia, A-Fei. Depois poderíamos tomar um chá e talvez ler alguns poemas? — Quem sabe ele não teria sorte e os dois poderiam ficar até tarde lendo e Liu Bo não viria os procurar, assim Shi Jiu poderia dormir um pouco mais essa noite.

— Perfeito! A-Jiu tem as melhores ideias! Eu fiz um novo poema pra você… — As bochechas de Liu Fangfei ficaram com um leve tom de rosa enquanto ela puxava levemente o braço de Shi Jiu. — Me esforcei muito dessa vez, tenho certeza que todos que ouvirem se sentirão tocados pelo nosso amor e nosso destino profundamente conectado!

Shi Jiu conteve a careta. Seu fio já estava conectado a Qin-ge, seu destino era de seu marido!

Mas seria melhor ler alguma poesia, talvez ele pudesse escrever algo? E se tudo ocorresse bem, a poesia poderia ajudá-lo a se distrair dos pensamentos sobre Qin-ge. Distraí-lo de pensar que Qin-ge poderia tê-lo abandonado ou-

— Ah-! — Repentinamente, Shi Jiu sentiu uma pontada forte em seu peito, fazendo-o tropeçar.

O ar escapou de seus pulmões, tudo de repente parecia quente.

Sua visão escurecia, a cabeça parecendo muito mais leve e logo em seguida muito pesada.

Respirar… Ele… Ele precisava respirar… O que… Como… Doía… Dor… Doía tanto… Tanto…

Parecia que havia algo subindo por sua garganta, o gosto ocre do sangue o fazendo engasgar enquanto cada pedacinho de seu corpo parecia estilhaçar e…

O fio!

Em meio àquela dor lancinante em seu peito e sua cabeça, Shi Jiu viu novamente aquele fio.

O fio vermelho enrolado em seu dedo parecendo se esticar e tencionar, então, torcer-se em si mesmo como se estivesse prestes a se romper, apavorando o coração do jovem escravo mais do que qualquer ameaça de surra que ele já recebeu. Deixando sua mente muito mais atordoada do que aquela estranha dor agonizante.

Shi Jiu não precisou de nada além para saber o que aquilo devia significar: algo aconteceu com Yan Qing.

Por que tudo ficou tão escuro de repente? O que é essa luz intensa?

Seus ouvidos zumbiam, como se algo estivesse se rasgando. Seus ossos estavam doendo, pareciam quebrar, mas não uma fratura normal, era mais como se estivessem sendo transformados em poeira, e ele podia sentir dor em cada grãozinho.

Trovões pareciam soar ao longe, raios percorrendo seu corpo ao mesmo tempo, tão rápido que faziam seu sangue borbulhar e tão lento que o faziam querer arrancar sua pele. Era doloroso, era assustador, parecia que seu coração estava prestes a ser esmagado.

As bordas de sua visão ficaram vermelhas, intenso, brilhante, antes de escurecer de forma repentina.

Algo piscou em sua visão, um lugar que ele não reconhecia, rápido demais para reparar em qualquer detalhe. Era escuro, estranho, mas principalmente, aquela sensação visceral era inigualável: Medo.

Ele não conseguia respirar, o ar não entrava em seus pulmões. Como poderia? Pareica que não tinha nada ali.

Sua cabeça parecia ficar cada vez mais leve, suas veias inflamando, parecendo haver fogo no lugar de sangue. Shi Jiu engasgou por ar, desesperado, algo doía, doía muito, estava doendo… Ele iria… Ele iria…

Tudo parecia intenso demais, doloroso demais, como se fosse matá-lo, até que…

Nada.

Tão repentinamente quanto surgiu, toda aquela dor desapareceu, deixando-o apenas com a respiração desordenada e um frio mais cruel que o mais implacável dos invernos habitando seu peito.

O que aconteceu com Yan Qing? Qin-ge… Qin-ge estava bem, certo? Aquela dor, aquela sensação de morte…

Se… Se Yan Qing realmente morresse… Se ele morresse… Shi Jiu não teria motivos para continuar naquele mundo infeliz.

Aquele mundo podre e sujo.

Mas… Mas se aquela visão apareceu para ele… Então talvez Qin-ge ainda não tenha morrido?

Talvez seja algum tipo de benção distorcida?

Seria um aviso que ele tinha que ir até Yan Qing?

Ele estremeceu, aquela sensação estranha como se um raio o tivesse atingido ainda reverberando levemente em seus ouvidos.

— A-Jiu! A-Jiu? A-Jiu o que aconteceu? — A voz de Liu Fangfei parecia distante, como se falasse com ele sob a água, a ansiedade fazendo o coração de Shi Jiu bater descontroladamente em seu peito como um pássaro enjaulado.

Assim como ele mesmo era naquele momento. Um pássaro em uma gaiola farpada, cujas barras foram envenenadas para que ele morresse ao tentar escapar. Cujos “cuidadores” o mandavam sorrir e ser grato pela graça, mas arrancavam suas penas por diversão.

Seu canto triste e angustiado caindo em ouvidos surdos e confundido com um chilrear feliz e alegre. Como foi desde que ele era capaz de se lembrar.

Que piada.

— E-estou bem… estou… estou bem. — Ele conseguiu sufocar a sensação nauseante para o fundo de sua mente o suficiente para falar, mas pareceu falso demais até para seus próprios ouvidos, o olhar preocupado nos delicados olhos de Liu Fangfei diziam-lhe que ela não acreditava muito naquilo.

Suas pernas bambas também não ajudavam a provar seu ponto.

— Vamos para o salão de chá. — Ela comandou, as criadas que os rodeavam olhavam-no estranhamente, ajudando sua senhora a conduzir o atordoado Shi Jiu até a sala de chá e sentar-se.

A xícara de chá morno em suas mãos deveria trazer alento, mas o calor em suas mãos parecia dolorosamente gélido.

Shi Jiu precisava pensar, precisava de um jeito de sair dali…

— A-Fei, pode me falar mais sobre a lenda da tecelã e do vaqueiro e… O fio do destino? É… uma história muito bonita. Lembro que é sua favorita. Quero me inspirar... Para um poema. — Shi Jiu pediu, forçando-se a tomar um gole de chá.

Ele não podia perder o controle de suas emoções. Não naquela casa, muito menos depois daquela coisa, o que quer que tenha sido.

Liu Fangfei parecia hesitante, mas aceitou o pedido, pensando que poderia ajudar Shi Jiu a ficar mais relaxado.

— Claro, A-Jiu.  O que você quer saber? Como eles se conheceram?

Shi Jiu fingiu estar pensativo, já sabendo o que gostaria de perguntar. Apesar de acompanhá-la às vezes, ele não poderia ter sempre as mesmas aulas de Liu Fangfei, ele estava sendo ensinado a ser um estudioso para pudesse ser digno de ser noivo dela.

Ele sabia que tal coisa como o fio do destino era considerado apenas uma lenda que as pessoas comuns espalhavam por aí, mas ainda assim era algo que uma jovem dama deveria ter conhecimento, afinal era um tópico frequente entre poesias e romances que as senhoras gostavam de compartilhar entre si.

Infelizmente, para o caso dele, o fio vermelho do destino não era algo que era considerado um conhecimento necessário a um estudioso.

Mas ele e Qin-ge não eram pessoas comuns, eles eram futuros imortais. Aquilo era real para eles!

— Como eles se sentiram ao perceber que são almas gêmeas? — Era melhor começar com um assunto paralelo, antes de chegar diretamente onde queria.

Foi um bom começo, se a luz surgindo nos olhos da jovem dama com sua pergunta fosse um indicativo.

Liu Fangfei pareceu sonhadora enquanto falava, olhando sua própria mão e a de Shi Jiu.

— Foi um momento mágico, A-Jiu! Dizem que os dois perceberam ao mesmo tempo! E é sempre assim! Traz uma sensação de segurança incrível! É como saber que você nunca mais estará sozinho! Mesmo que nem todos consigam ver o seu!

— Existem… Algumas histórias dizem que apenas cultivadores conseguem ver, não é? — Ele incentivou.

— Infelizmente, mas não vamos pensar nisso! Algum dia veremos o nosso! E mesmo que não possamos ver, tudo bem! Ver só confirmaria que estamos fazendo o certo! Não seria lindo um dia estarmos velhinhos juntos e ver um fio vermelho em nossas mãos provando que sempre estivemos certos? — Ela tentou animá-lo, o sorriso empolgado tão cheio de vivacidade e esperanças que fizeram o nó na boca do estômago de Shi Jiu se apertar ainda mais.

Ele não iria ficar enjoado ali, não, Shi Jiu poderia segurar isso.

(A única pessoa com quem ele envelheceria seria Yan Qing. Ou ele faria esse mundo infeliz queimar por ter lhe tirado tudo o que importava.)

— Isso seria tão lindo, A-Fei.

Liu Fangfei sorriu, sonhadora.

— Hm, A-Fei… — Com um movimento leve, piscando seus lindos olhos castanhos, o escravo olhou sua “noiva” com uma hesitação fingida.

Sua voz estava um pouco mais baixa e com um medo dolorosamente mais real que qualquer outra palavra proferida.

— Acho que… Acho que ouvi pouco sobre o que acontece se um dos lados do fio morrer… Isso... É muito doloroso? Seu tutor lhe disse… Algo a respeito? Se estivermos velhinhos e… E eu te deixar antes? Partiria meu coração te machucar assim.

Shi Jiu temeu ter sido muito direto, mas talvez isso pudesse ser interpretado de uma forma como apenas um amante assustado (não era tão mentira assim.)

— Oh, acho que tinha alguns poemas sobre! Dizem que o fio só se rompe e aquele que fica sente uma perda imensurável! — Apesar da dramatização, Liu Fangfei segurou firmemente as mãos de Shi Jiu. O chá tomado pela metade já havia esfriado. — Mas não se preocupe A-Jiu! Viveremos muito tempo juntos!

O sorriso do escravo tornou-se ainda mais artificial, felizmente, já era algo ao qual o garoto estava habituado. Nunca foi muito difícil forçar-se a sorrir, externar exatamente a emoção que ele queria que os outros vissem, tal habilidade tornando-se ainda mais afiada ao entrar na casa dos Lius.

Ninguém se importava o suficiente para perceber o leve tremor em seus lábios, ou no quanto o olhar dele estava opaco e quase desfocado. Desde que sua senhora estivesse feliz, quem iria se importar com um escravo privilegiado?

Aquela pequena conversa confirmou a certeza de Shi Jiu: Ele precisava fugir.

Não só isso, ele precisava fugir logo.

Seu fio não se rompeu, mas aquela dor… Aquela dor que ele sentiu, Shi Jiu tinha certeza de que Yan Qing havia se ferido. Havia algo que machucou seu Qin-ge, e Shi Jiu não poderia deixar isso ficar sem punição.

Se Yan Qing estava incapacitado de ir até ele, então Shi Jiu daria seu jeito de correr até ele.

Tudo o que Shi Jiu precisava era de um plano para fugir dali.

Não havia mais tempo para esperar.

Ele olhou por um momento para Liu Fangfei, a garota brilhante que conversava com ele e que atendia por sua noiva durante o último ano e um pouquinho mais, quase desde que ele chegou naquele inferno.

Seu olhar se tornou duro, o ressentimento que se agarrava às suas entranhas saindo pela brecha em sua máscara. Ela era uma das razões para ele estar sendo mantido longe de Qin-ge, mas também foi sua bondade que permitiu que Shi Jiu sobrevivesse mais um dia naquele inferno.

Por ela, que lhe demonstrou gentileza naquele lugar infernal, Shi Jiu tentaria uma fuga pacífica. Seria a melhor forma que o garoto poderia ter para retribuir a jovem dama.

Os céus e o inferno eram testemunhas de como Shi Jiu preferia morrer a viver naquela casa para o resto de sua vida, casado apenas para agradar aos caprichos de um desgraçado doentio.

Ele tinha que ir atrás de seu marido de verdade. Aquele idiota realmente não sabia viver sem ele.

Espere por mim, Qin-ge.

Agora serei eu que irei até você.

ceciliateresina
Entity of Knives

Creator

Um capítulo um pouco menor depois do monstro que foi o capítulo 3 XD

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Nilowiwi
Nilowiwi

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Pior que eu não sei muito sobre a lenda do fio vermelho. Mas, pra mim, isso era um aviso!

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Existe uma lenda que fala sobre fios vermelhos do destino que ligam as almas. Se seguir esse fio, você encontrará a pessoa que está em seu coração.

Imortais podem ver esse fio e compreendê-lo, e é esse laço eterno que permitirá que almas perdidas se encontrem e se reencontrem. Ver o fio vermelho do destino pode salvar as pessoas das formas mais improváveis.

Shi Jiu não acreditava nesse tipo de coisa, não quando o mundo inteiro havia provado que não reservava nada para ele além do desastre.

O mundo inteiro… Exceto Yan Qing.

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“Você está louco?!”

“Se você se casar comigo, estaremos juntos pelo resto da vida…”

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"Eu aceito. Qin-ge será meu. Você entende? Você será meu pelo resto da sua vida. E quando nos tornarmos imortais, pelo resto da eternidade."

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