Às vezes parecia que os céus zombavam da existência de Shi Jiu, ninguém nunca se importou com ele, com seus sentimentos, seu estado, sua vida. Houveram apenas duas pessoas que o fizeram, e uma delas estava morta.
Ele quase perdeu a segunda, mas o destino lhe ofereceu algum tipo de benevolência a ele ao salvar aquele idiota.
Seu precioso idiota que ele não podia visitar ainda por que não era forte o bastante para aguentar facilmente a energia opressiva das cavernas Ying Heng, mas graças a Madame Xu, Shi Jiu conseguiu ver Yan Qing mais uma vez nesses meses, para acalmar os medos do discípulo Xian Shi de que Shi Jiu realmente estava na seita.
Shi Jiu estava com muita raiva do líder de seita por prender Yan Qing nas cavernas, mas ele não podia desrespeitar seu superior, infelizmente. Madame Xu percebeu rapidamente a intenção furiosa de seu novo discípulo contra seu shixiong e assegurou a ele que ela mesma já teve uma… conversa com o líder de seita a respeito do que ele fez.
Ele não estava muito satisfeito, querendo poder dilacerar o homem ele mesmo, mas Shi Jiu aceitou isso. Ele testemunhou (mesmo que apenas em partes) o quão habilidosa Madame Xu era com as palavras, então ele confiaria em sua Shizun para colocar Zhen Xianzhi em seu lugar pelo que fizera com Qin-ge.
Shi Jiu chegou a seita bastante tempo antes da cerimônia de admissão de novos discípulos, realizada sempre na primeira semana do verão, quando os ventos suaves da primavera ainda aliviaram o clima quente, mas a dificuldade proporcionada pela estação era mais uma provação para todos os discípulos que desejavam entrar em Tian Dao.
Ele sabia que havia entrado pela “porta dos fundos”, mas não iria se envergonhar disso. Madame Xu o escolheu pessoalmente! Se alguém quisesse criticá-lo por isso, ele poderia fazê-los se arrepender.
Após a primeira semana na seita Tian Dao, Shi Jiu estava com uma saúde um pouco melhor e pôde deixar o Pico Renshen, acompanhando Madame Xu até seu próprio pico.
Shi Jiu ficou maravilhado com aquele lugar, parecia harmonioso, tranquilo, com melodias de instrumentos sendo aprendidos, poesias sussurradas ao vento e florestas de bambu dançando sob o sol suave.
— Shi Jiu, venha aqui. — Madame Xu disse um dia, uma semana após ele vir morar no Pico Lin Zhu.
— Sim, Shifu? — Shi Jiu sentou-se obedientemente na mesa de chá em frente a sua mestra, enquanto ela preparava um chá perfumado para os dois. Shi Jiu observava seus movimentos com atenção.
Ainda um pouco cauteloso, mas seu olhar não continha mais tanto receio quanto quando ele chegou.
— Esta mestra tem algumas perguntas que gostaria de saber a resposta, você estaria disposto a respondê-las? — Ela percebeu como o corpo de Shi Jiu havia enrijecido com essas palavras, tenso só com a possibilidade.
Ele era tão cauteloso que machucava o coração da Lorde, se perguntando quem deixou uma criança tão hesitante.
— Não é nada ruim, criança. Só estou preocupada com você. — Madame Xu tentou tranquilizá-lo, mas isso não pareceu acalmar os nervos de Shi Jiu. Ela podia ver os pensamentos rápidos se formando naquela cabecinha enquanto ele esperava ansiosamente.
Não era uma conversa fácil, mas infelizmente era necessária.
— Quando você chegou até Tian Dao, você mencionou que era marido do discípulo Yan, isso é mesmo verdade?
— Claro que é! — Shi Jiu se apressou em confirmar, seus punhos se fechando sobre suas vestes. Ele não entendia porque sua mestra estaria questionando isso.
— Você deve saber que não é comum que crianças da sua idade sejam casadas, certo? Se não forem casados ainda, está tudo bem. E se houve alguma coerção para que isso acontecesse, irei ajudá-lo. Só gostaria de saber se você concordou com esse casamento. O discípulo Yan parece uma boa pessoa, mas você é meu discípulo, e não posso deixar que você esteja sendo forçado a um relacionamento por qualquer motivo.
Shi Jiu piscou, olhando confuso para sua mestra. Ela estava… Preocupada que Qin-ge o tivesse forçado a se casar?
A garganta de Shi Jiu parecia apertada, e seu peito doía de um jeito estranho. Ele ignorou aquela ardência nos olhos, forçando-a a recuar. Mexendo levemente as orelhas como um gato assustado, movimento que chamou a atenção de Madame Xu.
O garoto permaneceu atordoado por alguns momentos, ainda não acostumado a ter alguém que estivesse realmente tentando ajudá-lo ou cuidar dele além de Qin-ge.
Não era uma sensação ruim, mas ainda era assustadora.
— Meu casamento com Qin-ge… nós realmente queríamos. — Ele finalmente disse, respirando fundo. — Qin-ge propôs casar comigo pra… me salvar.
A voz do discípulo Lin Zhu ficava cada vez mais baixa conforme contava, lembrando-se do medo que sentiu naquele dia. Não era algo fácil de contar, mas ele supunha que se sua mestra achasse que Qin-ge fez mal a ele, ela poderia afastá-los. Portanto, ele se forçou a falar, era por um bem maior.
— Salvá-lo, pequeno? De quê? — Madame Xu ainda estava desconfiada, se perguntando se Yan Qing poderia ter enganado Shi Jiu de alguma forma.
— Eu… este discípulo estava sendo forçado a noivar com alguém que não queria. — Ele finalmente disse, cheio de medo. — Se eu já fosse casado com Qin-ge, não poderia me casar de novo. Yan Qing… Yan Linyue — Ele se corrigiu —, é meu marido agora e ninguém pode tirar ele de mim!
Madame Xu ficou surpresa com a declaração, novamente pensando que tipo de vida, o tipo que causava de cicatrizes e ferimentos que seu discípulo tinha, aqueles dois garotos tiveram para que conhecessem tantas desventuras em tão tenra idade.
— Por favor, shifu… Não me separe de Qin-ge. — A voz de Shi Jiu vacilou, soando muito mais desesperada do que o pedido cheio de autonomia que ele buscava.
— Criança boba, se ele não o forçou, então está tudo bem. — Madame Xu sorriu com gentileza, dando um tapinha gentil na cabeça de Shi Jiu, feliz que as coisas pudessem ser esclarecidas. — Contudo, você ainda é uma criança, só poderão levar esse relacionamento adiante e viver como casados depois que você atingir a maioridade, entendido?
O rosto de Shi Jiu ficou vermelho ao ouvir isso, balançando a cabeça rápido demais. Eles nem sequer tinham se beijado ainda!
A garantia de Madame Xu de que ele estava tudo bem com seu casamento foi um alívio e estava feliz que não teria que se separar de Yan Qing.
— Não divulgue isso para mais pessoas, certo? Caso perguntem, vocês são noivos. — Ela instruiu. — Não será bom para a reputação de vocês estarem casados tão cedo.
Shi Jiu assentiu, desde que ninguém tentasse roubar seu Qin-ge dele, estaria tudo bem. Talvez eles até fizessem uma cerimônia mais bonita no futuro!
O que o fez lembrar….
— Shifu, este discípulo tem uma dúvida. — Madame Xu cantarolou, esperando que ele continuasse, servindo o chá para ambos. Shi Jiu apertou a xícara, seu rosto ficando um pouco vermelho. — Yan Qi-Linyue e eu só fizemos as 3 reverências, não houve os outros rituais do casamento e não tínhamos certeza do que fazer. O casamento ainda é válido para os céus?
Madame Xu olhou seu discípulo com um ar um pouco divertido, achando fofo seu jeito tímido ao falar daquele por quem era apaixonado.
— Hm, acredito que seja. — Ela assegurou. — Se houve a intenção de que seus corações e vidas se unissem, e vocês fizeram suas reverências, então são casados perante os céus.
Shi Jiu soltou um suspiro de alívio bastante perceptível, antes de beber seu chá.
Os dois terminaram de beber o chá em uma atmosfera harmoniosa, Madame Xu aliviada por não haver ninguém ameaçando seu discípulo.
Essa criança já sofreu demais, ela iria protegê-la de agora em diante.
— Entre os tratamentos médicos que Wei-shidi fará, um deles envolve melhorar sua visão.
Shi Jiu congelou, a xícara de chá a meio caminho da boca.
— C-como…?!
Nem mesmo os Lius conseguiram notar sua dificuldade de ver no escuro, ele duvidava que até mesmo Yan Qing soubesse sobre isso! Então como..?!
— Como não sabemos pelo que você passou antes de chegar aqui, Wei-shidi foi especialmente minuncioso ao examiná-lo, em busca de qualquer possível problema secreto que possa afetar seu futuro desenvolvimento. — Madame Xu explicou gentilmente.
Nenhum deles falou explicitamente sobre o passado de Shi Jiu e Yan Qing, e como Shi Jiu precisaria passar pelo processo de reconstruir seus meridianos, nutrir seu corpo era essencial.
Inicialmente, Wei Xianzan usava seu sentido divino para procurar por ossos quebrados mal regenerados e coisas parecidas. Ele não esperava encontrar os danos severos na região ocular de Shi Jiu.
Inicialmente, ele cogitou a possibilidade de o jovem usar óculos, mas pelos ferimentos e a degeneração que ele pôde sentir ao examiná-lo na região da cabeça, seria necessário um processo de cura mais incisivo.
— Isso… Vai prejudicar meu cultivo, shifu? — Shi Jiu questionou, hesitante, encarando seu próprio reflexo no chá.
— Existem muitos cultivadores que usam óculos, isso não é algo que deva preocupá-lo. — Madame Xu respondeu, ganhando um olhar levemente confuso de seu discípulo. — Contudo, seu caso é especial, e para curá-lo, shidi ainda irá investigar meios que possam garantir que sua visão não tenha nenhum declínio posterior.
Shi Jiu deu um aceno breve, inquieto.
Ele esperava que essa cura não o tornasse fraco.

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