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Silent Hero

Capítulo 1 — Finalmente Posso?

Capítulo 1 — Finalmente Posso?

Jul 12, 2026


Sob um céu avermelhado e inflamado, uma mulher corria usando todas as forças que tinha. Seus cabelos loiros balançaram contra o vento caótico daquela floresta retorcida e negra. Árvores secas e sem folhas tomavam conta do solo em sua totalidade. A grama na qual a mulher pisava era alaranjada, desprovida de qualquer fertilidade.

A túnica branca e pura que ela usava estava em trapos, rasgada pelos galhos em que se enroscou ao longo de sua corrida frenética e sem pausas. Em seus esguios braços, segurava uma pequena caixa com alguns materiais que chacoalharam com os movimentos bruscos da mesma. 

Seus grandes olhos azuis fixaram-se imediatamente na construção mais à frente. As ruínas do que um dia foi uma igreja. As grandes portas estavam escancaradas, as telhas do arranjo do detalhado quebradas e fora do lugar. 

A mulher adentrou o espaço com pressa, sem cuidado. Ajoelhando-se no centro da sala. Onde o pastor costumava pregar suas missas. Abriu a pequena caixa, apanhando quatro velas grossas e um pequeno giz branco. Seus delicados dedos pálidos tremiam enquanto deslizava o giz no chão, formando um círculo com simbologias abstratas de um pentagrama. 

Olhou por cima do ombro algumas vezes, antes de continuar rabiscando o chão nervosamente. Fitou seu olhar para as grandes portas abertas, às vigiando com intensidade. 

Com esforço, posicionou as velas nas quatro vértices do círculo, ascendendo-as com uma tocha que arrancou da parede. 

Os dedos trêmulos entrelaçaram-se em uma reza silenciosa, fechando os olhos e pressionando a mandíbula. Múltiplos passos adentraram a igreja, passando grosseiramente pelas portas caindo aos pedaços. 

A mulher não olhou para trás, continuou sua reza, apertando as mãos com força até que ficassem brancas. Atrás dela, três presenças.

Criaturas humanóides, de pele acinzentada, rodearam a mulher, a olhando com satisfação. Suas mãos agigantadas eram revestidas por longas unhas projetadas para frente. Cada um dos três saboreou a visão da mulher impotente de uma forma diferente.

— Vamos comer ela logo… — um deles sussurrou, lambendo os próprios lábios salivantes. Os outros dois concordaram com um aceno de cabeça, aproximando-se da mulher ao chão. 

Nada ela tentou fazer para impedir que aquelas garras rasgassem sua pele branca e leitosa — continuou sua reza, sem pausas — mesmo tremendo, não parou, mesmo chorando, não parou. 

Quando o hálito quente e podre da criatura cinza pairava na nuca da mulher, os rabiscos feitos no chão brilharam intensamente, chiando como estática elétrica pura. 

—!!!! 

Os três seres pararam seu avanço, dando um passo para trás, encarando o feixe brilhante que iluminou a igreja como um sol próprio. Retorceram seus rostos em choque. 

— O que é isso?! — um deles perguntou, rangendo os dentes amarelados dentro da boca fétida. Em seguida, outro cerrou os olhos, fechando o punho com força. — Mulher desgraçada! — o último berrou, com os olhos brilhando em um tom rosado e opaco. 

Após o clarão esbranquiçado, o ambiente voltou para sua tonalidade avermelhada natural, iluminado pelas inúmeras frestas e buracos no telhado acima. Mas no centro da sala, no local das missas, acima do círculo riscado no chão, havia alguém.

— Deus! — ela gritou, olhando para a figura parada na sua frente. A mulher havia caído para trás com a explosão luminosa de antes. Não se importou em se levantar ou em verificar suas costas. Aqueles olhos azuis olhavam fielmente para “ele”. As criaturas cinzas pouco importavam para ela agora.

Ele havia sido invocado com sucesso.

Um sorriso pequeno se estampou nas feições rosadas daquela mulher, que novamente juntou as mãos — Herói… — suspirou, olhando para aquela pessoa sem piscar os olhos, sentindo suas bochechas corarem. 

— Quê? — ele perguntou, coçando um dos olhos, olhando ao redor. 

Era um rapaz, seus cabelos eram curtos e negros. Usava roupas alienígenas para aquele local. Um simples casaco moletom e calça jeans. Em seu rosto, olheiras profundas e sem energia alguma. 

À medida que absorveu os detalhes do ambiente, franziu as sobrancelhas lentamente, arregalando os olhos. 

“Que lugar é esse?” Pensou, ainda sem ter notado a mulher de joelhos o encarando. 

“Escombros? Uma… Igreja? Catedral? Tem algumas janelas de vidro que parecem ser de uma catedral.”

Ainda não conseguia ouvir nada. Sua audição se encontrava amortecida por um chiado suave. O mundo em volta se embaçava e desembaçava, no ritmo lento do pulsar do coração. 

Olhando para cima, viu o céu vermelho entre as frestas e buracos no telhado, sem compreender. Antes que pudesse abrir a boca para se questionar, uma outra voz o sobrepõe. O silêncio barulhento se desvanece no ar uma última vez, com todos os sons voltando de uma única vez. 

— Já chega! — um dos seres cinza gritou, pisando forte no chão, enrijecendo o rosto. Ele flexionou-se antes de disparar em uma investida contra o rapaz no centro do círculo riscado. 

— Você é só mais um humano! Só isso! — a criatura gritou, reafirmando para todos ali. 

“!!!”

O humano deu um passo para trás, vendo a figura humanoide acinzentada pular em sua direção, Posturou-se, abrindo as palmas das mãos e posicionando os pés. 

As garras vieram diretamente contra seu rosto quando o vulto cinza entrou em seu espaço pessoal. O rapaz imediatamente agarrou o braço da criatura, jogando-se para o lado esquerdo. Com um dos pés, desequilíbriou o ser humanoide no chão. 

— Ahhhh!! — a criatura agonizou em uma explosão cortante de dor, sentindo seu braço sendo deslocado completamente para frente. 

Rapaz não o largou imediatamente, segurando-o no chão por mais alguns segundos antes de levantar-se em um pulo abrupto, olhando rapidamente para os outros dois. 

“Esses caras estão usando fantasia de monstro? Por quê?” Pensou sozinho, ainda sem compreender bem sua situação atual. Seu batimento cardíaco acelerou ao pensar sobre algo.

“Meus pais vão me infernizar se souberem que entrei em uma briga de novo…” 

— Err… você começou isso, então… — o rapaz resmungou, estendendo fracamente a mão na direção do trio de seres de pele cinza, olhando para o que estava no chão, grunhindo de dor com seu braço deslocado.

Tentou continuar, pedindo para que parassem aquilo por alí mesmo, senão ele teria problemas, porém não conseguiu. Uma mão pálida e de dedos finos e rosados agarrou seu braço suavemente. 

— Me desculpe… — disse com a voz macia, olhando-o fixamente — Não tenho tempo para te explicar a nossa situação, Herói-sama… os olhos azuis da mulher se fecharam, antes que voltasse com tudo para o olhar. 

— Só precisamos sair daqui! Três demônios são demais para você agora — disse com energia renovada, antes de arrastá-lo para uma corrida frenética para fora da igreja degradada.

— Hum, okay? — ele resmungou, sem tempo para formular uma pergunta sobre tudo aquilo. 

Enquanto corriam floresta à dentro, o rapaz olhou para o céu vermelho novamente. Quando o viu de relance dentro da igreja, não havia percebido todos os seus detalhes. 

“Isso é uma espécie de sonho lúcido?” Pensou, constatando todas as anomalias presentes naquele cenário.

“Parece um roteiro confuso de um sonho que some da cabeça quando se acorda… eu devo apenas esperar acordar?” 

Já em um ponto da floresta, a mulher parou, fazendo o rapaz parar atrás dela. Os dois se encostaram em uma árvore ressecada particularmente grossa. 

— Me desculpe… Agora podemos conversar melhor sobre isso tudo… — a mulher disse entre as respirações pesadas. — Pode me dizer seu nome? Herói-sama — perguntou, olhando-o com intensidade. 

— Eu me chamo Haito — o rapaz falou, analisando a mulher na sua frente, cerrando os olhos. 

“Ela está usando uma fantasia erótica de sacerdotisa ou algo assim? Parece uma paródia de uma freira ou algo do tipo."

“Herói-sama? Por que usar ‘sama’ comigo?” se questionou ao pensar melhor sobre as últimas palavras da mulher. 

— Haito-sama… H-a-i-t-o, hum… — soletrou lentamente, fechando os olhos, com um sorriso bobo no rosto. Após alguns segundos divagando, ela pigarreia, o olhando novamente. 

— Eu te invoquei nesse mundo para que seja o herói que lutará contra o mau! — declarou de uma única vez, esperando a reação dele. 

“Um sonho sobre isekai? Parabéns, Haito. Esse com certeza é o ápice do escapismo.” 

Em algum momento que passaria despercebido pelo próprio, ele acordaria e nem se lembraria desse céu avermelhado ou da mulher de cabelos loiros na frente dele, então não importava. 

— Entendi, mas as coisas parecem ter tido um começo pouco caótico demais lá atrás — ele falou, cruzando os braços. 

“Não que eu tenha algo a reclamar, torcer o braço daquele cara foi legal e tudo mais. Na vida real isso teria me rendido um esporro dos meus pais e talvez ressentimento de drogados de rua.”

— Haito-sama? — a sacerdotisa perguntou, percebendo como o rapaz estava disperso. 

— Ah, pode falar — respondeu, antes que a mulher começasse a lhe contar a situação, pelas próprias palavras dela, “catastróficas” do mundo atual. 

— Basicamente, o último lorde demônio foi inteligente e além de matar o herói invocado, massacrou qualquer um que poderia invocar outro herói? — Haito perguntou, verificando se havia entendido tudo. 

— Sim… no caso, as instituições da igreja foram as mais perseguidas… — a mulher pressionou um rosário em seu colar, com as duas mãos. 

— Isso foi há três décadas… então nosso mundo ficou mergulhado na maldade sombria dos demônios por todos esses anos… Esse é o resultado — afirmou com dor na voz, apontando para os arredores da floresta retorcida. 

O rapaz seguiu o olhar para onde a mulher apontou, sentido o cheiro agourento de sangue podre que aqueles carvalhos negros exalavam. 

— Hoje em dia, os demônios estão mais numerosos que nunca. O sol não brilha mais, e as esperanças morreram todas… — continuou, fechando os olhos e abaixando a cabeça, apenas para a erguer com energia total novamente, olhando para o rapaz. 

— Nem todas… Temos você… O último herói! O herói de outro mundo! — exclamou com adoração, juntando as mãos, sentindo o calor em suas bochechas. 

“É realmente um isekai. É raro um sonho ser tão consistente por tanto tempo.” Ele pensou, vendo o entusiasmo na voz da mulher. 

“Tudo bem, não é como se eu precisasse acordar imediatamente ou algo do tipo. Não tem nada em particular para mim fazer com pressa naquele lugar desagradável.”

Um pequeno sorriso estava se formando em seu rosto, até que cobriu com a mão — era repulsivo. 

— Eu vou ser esse herói então, que tal? — declarou. 

Com aquilo, a mulher o abraçou abruptamente, apertando-o contra seu busto voluptuoso. O rapaz apenas olhou para o chão próximo, estranhando a situação. 

— Obrigada… Esse mundo ainda tem esperanças… Haito-sama…. Meu herói querido… — suspirou enquanto era sutilmente afastada pelo rapaz. 

“Não me abrace seminua. É esquisito, principalmente para uma sacerdotisa.” 

Após o sol se pôr, os dois haviam se abrigado em uma caverna. O ambiente era Iluminado pelas chamas bruxuleantes da fogueira improvisada feita pelo rapaz.  

— Ei, Sacerdotisa — ele a chamou, sentado em uma pedra próxima ao fogo, esfregando as mãos. 

— Sim? — A mulher levantou o olhar para ele, esperando a pergunta, fitando seus olhos por segundos demais. 

— Magia existe? — perguntou, olhando para os sapatos. 

— Bem, existem muitas magias… — afirmou, antes de continuar — As elementares, que usam os elementos do mundo como base, e as especiais, que nascem com você ou que só seres ‘especiais’ têm.

— Entendi… então existe magia. 

— S-sim! E você, Haito-sama, tem a “magia especial do herói”! — afirmou com ânimo, antes de abaixar o tom — Mas eu não sei exatamente o que é… É diferente para cada um dos heróis… me desculpe.

— Eu aprendo a usar eu mesmo, já é bom saber que existe, para começo de conversa — Disse, fechando os olhos e se encostando na parede da caverna. 

A sacerdotisa já dormia profundamente, enquanto Haito se mantinha na parte de fora, fazendo a vigia noturna. 

“Na verdade, eu só dei uma desculpa para sair de perto daquela mulher. Não acho ela má pessoa, mas odeio conversar por muito tempo. o silêncio absoluto é muito bom.”

Era uma noite diferente de qualquer outra para ele. Um céu avermelhado, demônios e magia, e principalmente, Silêncio. 

Talvez fosse um grande sonho lúcido, porém ele próprio havia percebido que tempo demais havia passado. O arranhão superficial em seu dedo também ardeu de forma bem real quando ele passou raspando por um daqueles galhos negros. 

“Entre acreditar que isso é um sonho ou é real, é praticamente impossível aceitar de primeira que isso é de verdade. Eu não sou otimista o suficiente.”

Interrompendo seus pensamentos, algo se moveu no arbusto próximo, se mostrando intencionalmente. 

— Achei vocês… — a criatura cinza sussurrou, fungando profundamente. Um dos braços estava abaixado, com uma lesão avermelhada e inchada na conexão do ombro. Os dentes amarelados se apertam em um sorriso largo.

— Você está sozinho… Não vai dar tanta sorte como antes — disse antes de dar um passo macio para frente.

“Ele vai tentar me cortar ou morder…” pensou, pegando algo do bolso, posicionando os pés. Entre os dedos da mão direita, uma lâmina se destacou. Uma pequena gilete retirada de um barbeador manual. 

O demônio deficiente avançou com velocidade máxima, o atacando com o punho que ainda funcionava. E replicando o mesmo movimento, Haito agarrou o braço do demônio, se jogando para o lado, desequilibrando-o no chão. Quando tentou se debater, o rapaz deslocou seu braço sem hesitar.

O som molhado de “Creck” ressoou pela floresta quando o osso saiu do lugar. 

— Hum! — o demônio gritou nas mãos de Haito, que tampou sua boca. Em seguida, o rapaz pegou a lâmina e pressionou contra o pescoço cinza. 

— Se você for embora agora, vai voltar depois. Vai querer gritar de novo quando isso acontecer, então… — o rapaz sussurrou, deslizando a gilete que havia encostado na garganta da criatura. Um corte inconstante e tremido foi produzido, expondo a carne branca por meros milésimos de segundos, antes que o sangue coagulasse. 

O sangue preto jorrou momentaneamente. Entre os dedos do rapaz, o demônio tossiu aquele líquido viscoso, se engasgando em um gorgolejo final. Seu corpo convulsionou uma última vez antes de ficar inerte no chão. 

Sentindo a qualidade melequenta do sangue espalhado na mão, Haito cambaleou para trás, encostando em uma árvore. Encarou o chão por alguns instantes antes de gorfar, se equilibrando com uma mão na coxa. 

— Faz silêncio… — resmungou. Limpando os lábios com as costas das mãos trêmulas. Após recuperar a gilete do chão, foi embora do local. 

O silêncio reinou na floresta novamente. 

Após limpar as mãos em um rio próximo, voltou para dentro da caverna, observando como a mulher dormia tranquilamente. Talvez tranquila até demais, de bruços, como um filhote de cachorro. 

“Ela não parece ter noção de perigo.” pensou, se sentando.

Já deitado no chão, próximo ao fogo, olhou para o teto da caverna, fechando os olhos. 

“Mesmo se for um sonho ou um real isekai, não me importo. Essa é a primeira noite sem ruído…”

— Boa noite, Haito — disse para si próprio, sentindo sua consciência afundar lentamente
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